29 julho 2026

Genocídio persistente

Não esqueçamos de Gaza
Ainda há tempo para que a solidariedade humana salve os sobreviventes palestinos
Eloisa Vilela/Liberta  

Mark Perlmutter, judeu-americano, é cirurgião ortopédico e trabalhou em vários hospitais da Faixa de Gaza durante o genocídio em curso. Recentemente, ele relatou ter testemunhado o momento em que dois soldados israelenses enterraram vivas duas crianças palestinas. O médico ouviu os gritos das crianças, debaixo da terra, até elas se calarem e morrerem.

A denúncia, além de dolorosa e profundamente revoltante, apesar de monstruosamente real, é também uma metáfora. Quem escutou os gritos dos palestinos por justiça, por humanidade, por direito à vida? E quem ouve, faz o que com essa angústia, com esse desespero?

A Voz de Hind Rajab, dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2026. A voz da menina de cinco anos pedindo socorro em Gaza correu o mundo. O carro de passeio em que ela estava com os tios e quatro primos, em janeiro de 2024, foi alvo de 335 disparos de um tanque das tropas de ocupação. Durante mais de três horas, ela pediu socorro pelo celular e os médicos do Crescente Vermelho tentaram, desesperadamente, chegar a ela. Mas também foram assassinados pelos soldados israelenses.

Apartheid dos dias atuais

A voz da pequena Hind deveria ecoar incessantemente em nossos ouvidos.

Agora, no dia 15 de julho, o jovem prefeito de Nova York, Zohran Mandani, levantou a própria voz e usou o cargo para fazer um apelo à sanidade durante o discurso de abertura do Fórum Nelson Mandela de líderes mundiais. Sim, sanidade, porque não se mexer diante das imagens que há quase três anos contínuos chocam a humanidade só pode ser falta de equilíbrio mental básico. Coletivo. Mandani falou diretamente da terra que financia o genocídio. O genocídio do presente, bárbaro e descarado, e o lento e gradual, que se arrasta há décadas.

Conectando Mandela, líder da luta contra o apartheid do passado, à necessidade de desmontar o apartheid dos nossos dias, Mandani destacou que quase todo mundo vai, no futuro, dizer que foi contra as injustiças que hoje são praticadas sem cerimônia. “Mas a justiça não se mede pelo lugar que ocupamos depois que a história já deu seu veredito. Ela se mede por onde estamos quando o veredito ainda não foi entregue”. E prosseguiu:

– Por que devemos esperar que outros mil pais enterrem seus filhos, até que outros percam suas pernas e braços, suas casas, seu futuro, para que nos juntemos para insistir pela liberdade dos palestinos? Por que o doutor Hussan Abu Safiya espera por mais de 18 meses por liberdade num centro de  detenção israelense, depois que o mundo o viu ser sequestrado quando deixou seu hospital e o vê definhando na prisão?

Mandani fez o que outros políticos em posição de poder se recusam a fazer: cobrar ação efetiva das lideranças mundiais e solidariedade e humanidade de todos nós. É fácil, hoje, olhar as fotos dos campos de concentração nazistas e condenar o Holocausto. Deveria ser ainda mais fácil condenar o genocídio palestino que não se esconde. Pelo contrário, se exibe em mídias sociais com representantes do atual governo de Israel festejando novas medidas para garantir o assassinato, por enforcamento, dos palestinos presos indefinidamente nas masmorras do colonizador terrorista.

O mesmo doutor Perlmutter descreveu o que registrou como médico em Gaza. Especialmente, o tratamento dado a médicos e enfermeiros do país, que faria inveja aos torturadores da ditadura militar brasileira. Não apenas nos métodos bárbaros que aplicam, mas no alcance, no número de vítimas.

Em depoimento à Organização Árabe de Direitos Humanos, na Grã-Bretanha, Perlmutter contou o que escutou de médicos e enfermeiros em Gaza. Perdão pelos detalhes, mas um enfermeiro foi arrancado da sala de cirurgia, preso e torturado, passou 45 dias com os olhos vendados até ser levado para Khan Yunis com feridas abertas e cheias de larvas. Um cirurgião foi torturado, acusado de saber que o Hamas estava no porão do hospital onde ele trabalhava. Um hospital que nem porão tinha. Mesmo assim, os soldados usaram alicates para quebrar as pontas de todos os dedos desse cirurgião. E o doutor Perlmutter viu as imagens dos exames de Raio X.

Genocídio em curso

Quando estive na Cisjordânia,  no segundo mês da descabida reação Israelense à operação do Hamas, em 7 de outubro de 2023, visitei cidades e campos de refugiados onde a população, apesar da vida difícil, do cerco permanente e do controle total de deslocamentos e do acesso à comida e água, ainda respirava. Conseguia mandar os filhos para a escola e formar toda uma geração que estava mais do que preparada para assumir as rédeas de um futuro país.

Mas todos os sinais já estavam evidentes. O genocídio em curso não iria se limitar à Faixa de Gaza. A Cisjordânia não escaparia, como não escapou, da ganância por terras e do total descaso pela vida palestina do governo de Netanyahu, já declarado um criminoso de guerra.

A minha observação, tornada pública naquela época, me assustava. Estávamos assistindo a um verdadeiro teste da nossa humanidade, eu pensava e dizia naquele novembro de 1923. O mundo não se levantou, não impediu a violência extrema. Não ouviu os gritos das meninas enterradas vivas, de Hind Rajab e de milhares de outras crianças. Fomos reprovados vergonhosamente na prova.

Mas ainda há tempo para que a solidariedade humana proteja o que resta. Recolha os cacos e salve a si e aos sobreviventes palestinos. 

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Leia também: No genocídio, uma civilização em colapso https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/04/implicados-no-horror-em-gaza.html 

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