29 junho 2024

Palavra de poeta: Mário Quintana

O Mapa

Mário Quintana

 

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
 

(E nem que fosse o meu corpo!) 

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
 

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E ha uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
 

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
 

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

[Ilustração: Mario Sironi]

Leia também: https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/08/palavra-de-poeta-marcelo-mario-de-melo_23.html

28 junho 2024

Minha opinião/golpismo no mundo

Na Bolívia e em outros países 
Luciano Siqueira 

Pareceu uma quartelada sem maiores consequências, mas na verdade a tentativa de golpe militar na Bolívia — detida pelo presidente Luis Arce — reflete uma "doença" que se espalha não apenas pelo subcontinente sul-americano, mas igualmente por outras partes do mundo. 

A África por exemplo, onde em 3 anos ocorreram sete golpes de Estado.

Não que necessariamente assuma a modalidade clássica, com o envolvimento explícito e determinante das Forças Armadas. 

O impeachment da presidenta Dilma, entre nós, consumou-se como um golpe parlamentar. 

Na essência, a interrupção de governos de natureza progressista. 

Tudo a ver com a onda de ultradireita que se espalha mundo afora, na esteira da crise sistêmica do capitalismo. 

Onde a produção, a renda e a riqueza se fazem cada vez mais concentradas nas mãos de poucos e, em contrapartida, ocorre a exclusão de milhões de seres humanos apeados do processo produtivo, o sistema nada tem a oferecer. 

E justamente por não oferecer nada e tão somente excluir, carece de condições de diálogo. E a democracia, mesmo na forma liberal burguesa, torna-se empecilho. 

Daí ameaça latente de golpes de Estado em países envoltos em crise social e sem que forças democráticas governantes tenham reunido condições suficientes para assegurar a estabilidade política. 

É o que ocorre na Bolívia. 

E quase aconteceu no Brasil no fatídico 8 de janeiro.

O antídoto à ameaça antidemocrática há de ser sempre a ocorrência de governos suficientemente respaldados por forças políticas influentes e realizadores de programas que satisfaçam as necessidades de parcelas expressivas da população e gerem coesão em torno de objetivos nacionais.


Fotografia: a arte de Robert Capa

 

Robert Capa

Leia: https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/12/literatura.html

Neonazismo no Brasil

CNDH detecta falta de política nacional de enfrentamento ao neonazismo
Coordenador de missão no Rio de Janeiro fala ao Portal Vermelho que o CNDH intensifica investigações e propõe políticas públicas contra o crescimento de células neonazistas no Brasil
Cezar Xavier/Vermelho

Nesta segunda-feira (24), uma delegação do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) chegou ao Rio de Janeiro para uma série de atividades voltadas à investigação e combate do neonazismo no Brasil. A visita, que se estende até sexta-feira (28), inclui audiências com vítimas, autoridades e especialistas. A capital fluminense e Niterói serão os focos desta missão, que já realizou uma investigação semelhante em Santa Catarina em abril deste ano.

Criado pela Lei Federal 12.986/2014, o CNDH tem como objetivo promover e defender os direitos humanos no Brasil através de ações preventivas, protetivas e reparadoras. O conselho é composto por 22 membros, divididos igualmente entre representantes de órgãos públicos e da sociedade civil, garantindo uma abordagem diversificada e autônoma.

Nos últimos meses, o CNDH vem intensificando seus esforços para apurar o crescimento de células neonazistas no país. Uma relatoria especial foi criada para este fim, coordenada pelo conselheiro Carlos Nicodemos. A preocupação com o aumento desses grupos extremistas já foi levada ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, que classificou o cenário brasileiro como “alarmante” em um relatório preliminar apresentado em abril.

O relatório baseou-se em dados de inquéritos da Polícia Federal e denúncias recebidas pela SaferNet. Estudos da antropóloga Adriana Dias, que constataram um aumento de 270,6% nas células neonazistas entre 2019 e 2021, também foram citados.

Investigação e relatórios

Segundo Nicodemos falou ao Portal Vermelho, o CNDH recebeu uma denúncia da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) em junho de 2023, alertando sobre o crescimento das células neonazistas no Brasil. Em resposta, o conselho criou uma relatoria especial para investigar o tema, conduzida por Nicodemos e Hélio Leitão, representante do Conselho Federal da OAB no CNDH. Desde então, diversas diligências foram realizadas, incluindo a coleta de informações de órgãos judiciais e universidades.

“Em 2024, estamos realizando missões locais em vários estados. Já estivemos em Santa Catarina, onde realizamos 13 agendas envolvendo o sistema de justiça, segurança e o poder executivo”, explica Nicodemos. A equipe aplica questionários de evidências baseados nos parâmetros da ONU, que possui relatórios sobre discriminação contemporânea, nazismo e neonazismo. As informações são coletadas em parceria com universidades locais, como a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade Federal Fluminense (UFF).

No Rio de Janeiro, a delegação do CNDH já se reuniu com representantes de várias instituições, incluindo o Ministério Público Estadual e Federal, além de secretarias de segurança pública e educação. “Nós começamos por Niterói, focando na área de educação, cultura e direitos do município”, afirma Nicodemos. As reuniões continuam com a Secretaria de Segurança Pública, Secretaria de Educação e Direitos Humanos, e a Presidência do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.

“A ideia é que a relatoria especial produza um relatório final no fim do ano, apresentando indicadores e medidas a serem adotadas para enfrentar o neonazismo”, afirma Nicodemos.

Falta de política nacional de enfrentamento

Uma das principais constatações preliminares da investigação é a ausência de uma política nacional de enfrentamento ao neonazismo. “O Brasil não dispõe de uma política nacional para este tema, que deve ser entendido dentro dos novos modelos de discriminação”, destaca Nicodemos. “Hoje, o sistema funciona no varejo, com respostas reativas de órgão a órgão dos estados”, afirma.

Nicodemos também destaca que a falta de uma política nacional resulta em abordagens descoordenadas entre os estados. “Em Santa Catarina, o tratamento é um; no Rio de Janeiro, é outro; em São Paulo, outro. Isso não coopera para enfrentar a questão de forma eficaz”, explica. Ele ressalta a necessidade de uma política nacional que estabeleça parâmetros e indicadores de identificação das ramificações do neonazismo.

Ele ressalta a necessidade de entender o neonazismo não apenas como antissemitismo, mas como uma forma de discriminação que ataca diversos grupos, incluindo a comunidade LGBTI+, população cigana, negra, étnica, racial e feminista.

Ele ressalta que o nazismo e o neonazismo são manifestações de supremacia racial que afetam diversos grupos. “É um problema que deve ser tratado de forma integrada, com uma política pública robusta e coordenada.”

Para enfrentar o neonazismo, Nicodemos sugere uma abordagem baseada em quatro eixos: educação, cultura, território e institucionalidade. “Precisamos de uma política educativa que enfrente o tema de forma pedagógica e responsável. É fundamental levar o conhecimento sobre o perigo e a violência do neonazismo à sociedade como um todo”, argumenta.

Ameaça à democracia

Durante um seminário na UFF, discutiu-se a relação entre as células neonazistas e a extrema-direita política, que Nicodemos descreve como um modelo fascista de entender as relações sociais e o Estado. Ele alerta que a ocupação dos espaços de poder por essas ideologias representa um problema real para o Brasil. “Essa extrema-direita impõe um falso conceito de liberdade de expressão, que, na verdade, não é um direito absoluto e não deve se sobrepor a outros direitos”, afirma.

“É necessário investigar e redimensionar a categorização deste problema, especialmente no contexto da ocupação de espaços de poder e território pela extrema-direita”, diz Nicodemos.

Ele também chamou atenção para a questão das fake news, frequentemente utilizadas por esses grupos. “Discursos de ódio e fake news são propagados sob um falso conceito de liberdade de expressão. É essencial que o Estado regule e iniba esses abusos, protegendo outros direitos fundamentais.”

No Rio de Janeiro, a delegação do CNDH identificou a necessidade de uma investigação mais profunda sobre a relação entre o neonazismo e os ataques em escolas. “Embora existam projetos de enfrentamento ao discurso de ódio e violência intraescolar, falta um desdobramento investigativo sobre o neonazismo”, afirma Nicodemos.

Próximos passos

O CNDH planeja continuar suas missões em outros estados, incluindo São Paulo e Rio Grande do Sul, com o objetivo de elaborar um relatório final em dezembro deste ano. “Esperamos apontar indicadores e medidas que possam ser adotadas em âmbito federal e estadual para enfrentar essa questão, que é um problema reconhecido pela própria ONU”, conclui Nicodemos.

Nicodemos enfatiza a importância de desenvolver políticas públicas baseadas em quatro eixos: educação, cultura, território e institucionalidade. “Precisamos de uma política que enfrente isso de forma pedagógica e responsável, levando o tema ao conhecimento da sociedade como uma ameaça à democracia e aos direitos humanos”, conclui.

Leia também: https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/06/minha-opiniaoneonazismo.html

Arte é vida: Cláudio Tozz

 

Cláudio Tozz

Leia: https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/10/recordando-mario-de-andrade.html

Bolívia+Brasil

A tentativa de golpe na Bolívia e o impacto nas relações com Brasil
Tentativa de golpe na Bolívia alerta para ascensão da direita na América Latina e impacto nas relações com Brasil
Patricia Faerman/Jornal GGN

A tentativa de golpe de Estado na Bolívia chocou o cenário da América Latina, nesta semana, em um país que já sofreu um golpe em menos de 5 anos. Apresentando-se como um dos pivôs a cargo da reunificação latino-americana, o presidente Lula não quer cancelar a agenda à Bolívia, marcada para o dia 9 de julho, apesar da instabilidade local.

Isso porque o presidente brasileiro deve manter a visita a Santa Cruz de La Sierra, ainda com uma indefinição se o encontro com o presidente Luis Arce será mantido. Também no próximo mês, Lula participará do encontro dos presidentes do Mercosul em Assunção, no Paraguai, e definiu que a próxima parada seria a Bolívia.

A visita era considerada chave, uma vez que o país viveu, há pouco, um efetivo golpe de Estado pela opositora à Evo Morales, Jeanine Áñez Chávez, presidente do Senado quando o golpe foi consolidado em 2019. Pelo episódio, ela foi presa preventivamente pelo Tribunal de Primeira Instância de La Paz.

Aproximação de Bolsonaro com golpistas na Bolívia

Na ocasião, o então presidente brasileiro Jair Bolsonaro havia reconhecido o governo de Jeanine Áñez como legítimo e chegou a oferecer asilo político à golpista. As relações das famílias ainda se estenderam, com uma visita da filha de Áñez, Carolina Ribera Áñez à então primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Com a ex-mandatária presa desde 2021, o hoje líder da tentativa de golpe, general Juan José Zuñiga, chegou a declarar que um dos objetivos da rebelião era soltar os “presos políticos” do golpe de 2019. Após a tentativa de derrubada de Arce, Zuñiga foi retirado das Forças Armadas e o presidente boliviano fez uma troca no comando militar para controlar a rebelião.

Tentando evitar a responsabilização pelo caso, a equipe da golpista e ex-presidente Jeanine Añez escreveu, nas redes sociais, que ela “repudia totalmente a mobilização dos militares na Plaza Murillo, na tentativa de destruir a ordem constitucional”.

“O MAS [Partido de Evo Morales e Luís Arce] devem sair por meio das eleições em 2025. Nós, bolivianos, defenderemos a democracia”, continuou. 

Mas lideranças da América Latina repudiam, inclusive direita

O episódio contou com rápido repúdio internacional e dos representantes da América Latina.

“O Governo brasileiro condena nos termos mais firmes a tentativa de golpe de Estado em curso na Bolívia, que envolve mobilização irregular de tropas do Exército, em clara ameaça ao Estado democrático de Direito no país”, emitiu o governo Lula, em nota.

“O Governo brasileiro manifesta seu apoio e solidariedade ao presidente Luis Arce e ao governo e povo bolivianos. Nesse contexto, estará em interlocução permanente com as autoridades legítimas bolivianas e com os governos dos demais países da América do Sul no sentido de rechaçar essa grave violação da ordem constitucional na Bolívia e reafirmar seu compromisso com a plena vigência da democracia na região. Esses fatos são incompatíveis com os compromissos da Bolívia perante o Mercosul, sob a égide do Protocolo de Ushuaia”, completou. 

O próprio ex-presidente Evo Morales também fez um rápido e duro pronunciamento. Também condenaram a tentativa de golpe as demais lideranças da região: o presidente colombiano, Gustavo Petro; presidente chileno, Gabriel Boric; o venezuelano Nicolás Maduro; o cubano Miguel Díaz-Canel Bermúdez. O repúdio foi manifestado também por lideranças da centro-direita, como o presidente uruguaio Luis Lacalle Pou. 

Humor de resistência: Nando Motta

 

Nando Motta

Leia: https://lucianosiqueira.blogspot.com/search?q=Bol%C3%ADvia