29 dezembro 2024

Uma crônica de Urariano Mota

Mensagem de fim de ano de um ex-aluno
“A vida está sempre a nos pregar surpresas. Nem sempre trágicas, terríveis, ainda bem. Às vezes é um feliz reencontro, como o desta vez.”
Urariano Mota*/Vermelho  

Há mais de um mês, um jovem me viu no Recife Antigo e perguntou:

– Você é Urariano?

– Sim, sou eu – respondi, desconfiado do que viria.  

Então ele me disse:

– Fui seu aluno no Colégio Contato. Você mudou a minha vida!

E continuou:

– Você é o responsável pelo que eu sou hoje!

Foram duas frases, dois tiros que me deixaram imóvel. Eu, que bebia umas cachacinhas na Bodega de Veio, fiquei sóbrio total. Mas sem ação, emocionado e sem palavras. 

Então a sua companheira passou um número de celular para Francêsca, minha companheira. Mais tarde, eu lhe enviei corajoso pelo Zap: que ações eu fiz e que palavras teria usado para o seu crescimento como pessoa?

Nesta semana, recebi esta mensagem:

“Caro Urariano, bom dia!

Inicialmente, peço-lhe desculpas por não ter respondido mais rapidamente. É que estava com bastantes prazos e trabalhos acumulados, que me deixaram preocupado, porque tinha viagem de fim de ano com toda família em vista e o recesso judiciário se aproximava.

Você me perguntou quais palavras ou ações suas mudaram minha vida. Tudo ocorreu em 2003, no Contato. Detalhar exatamente as atitudes e palavras proferidas talvez eu não consiga, porém acho que consigo falar sobre o contexto.

Eu costumo dizer que aquilo que somos é decorrente da contribuição direta ou indireta de muitos que passam pela nossa vida. Sua contribuição positiva foi de duas formas: técnica e pessoalmente. Tecnicamente, ensinou o que eu precisava para ter sucesso na redação, explicando como melhorar a escrita, organizar o texto com começo, meio e fim, concatenar as ideias, fazer o texto de maneira lógica, clara, objetiva e simples, mas que atendesse ao que era exigido para aquele momento, aprimorar vocabulário, etc

Pessoalmente, as indicações de leitura e as conversas literárias e as tratativas/discussões sobre livros, textos e grandes escritores terminaram por, não só, obter sucesso no vestibular, mas influenciaram no curso da minha vida e pude perceber ainda mais a relevância da leitura e do convívio engrandecedor de pessoas como você, do bem e que nos fazem refletir. Neste momento, estou saindo da Hungria para a Escócia e passaremos o fim de ano em Paris. Estou dizendo isso porque, para mim, isso representa ser vencedor e feliz. Não que isso isoladamente ou por si só signifique felicidade. porque esta são momentos e também é um estado de espírito, mas porque era, na realidade, algo inimaginável para alguém que nasceu, foi criado e cresceu na favela, passou por provações e cujos pais passaram fome. Para mim, poder proporcionar isso representa bastant e e você também contribuiu nesse sentido. Um forte abraço. Feliz natal.

Radamez Danilo Bezerra da Silva”

Radamez hoje é muito bom advogado. Mas uma de suas maiores conquistas é ter caráter agradecido em meio ao sucesso da profissão e da sua pessoa. Só o bom-caráter manifesta a gratidão. Trabalho e saúde, amigo! Que venham novos trabalhos em 2025. Em Olinda e Paris beberemos juntos um champanhe.

Leia: O mundo cabe numa organização de base https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/05/minha-opiniao_18.html

Sylvio: transparência

A decisão do ministro do Supremo Flavio Dino sobre a proibição de liberar emendas parlamentares não retrata a existência de um conflito entre ele e o presidente da Câmara, Artur Lira. Trata da obrigatoriedade de haver transparência e lisura no processo. Daí porque o ministro não aceitou as alegações de Lira e deu um exíguo prazo para que o mesmo responda as solicitações da Justiça. E é bom cumprir.

Sylvio Belém 

28 dezembro 2024

Palavra de poeta: Alberto Vinícius

AS GRADES E OS SONHOS*
Alberto Vinícius Melo do Nascimento


Se mais rimas
com tristeza
é porque os nossos dias
são menos alegria.

II

Os sonhos amazônicos
despertam em pingos
na torneira da pia.

III

Se a vida
fez de mim
um acrobata
não fujo afinal
do mundo-picadeiro:
sempre há chance
de cair na rede.

IV

Bateram na porta.
Estava sonhando:
aqui não existe porta.

V

Dia trazendo noite
agulha puxando linha
cosendo a roupagem
dos meus sonhos.

* Penitenciária Professor Barreto Campelo, Itamaracá-Pernambuco, anos 1970

[Ilustração: Tali Freen]

Leia: 'Os jovens criadores de mais de 80 anos' https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/08/urariano-mota-opina.html

Nivaldo Santana opina

A luta por democracia, desenvolvimento e valorização do trabalho
Avanços no governo Lula enfrentam desafios como juros altos, cortes sociais e precarização; mobilização sindical é essencial para superar obstáculos e promover mudanças
Nivaldo Santana/Vermelho   

Termina a primeira metade do governo Lula e o sindicalismo brasileiro conquista vitórias importantes. Mas ainda há um longo caminho a percorrer para tornar realidade o programa de reconstrução nacional com o qual o presidente foi eleito.

Dentre os pontos positivos, um merece ênfase especial. O Brasil voltou a respirar democracia e os espaços de participação social foram reabertos. Isto não é pouca coisa, principalmente para quem viveu o pesadelo do bolsonarismo.

O balanço desses dois anos, é importante destacar, contabiliza a retomada da política de valorização do salário-mínimo, aumento da massa salarial, do consumo das famílias e consequente fortalecimento do mercado interno.

Tudo isso somado ao aumento dos investimentos e a ampliação dos programas sociais contribuíram para a diminuição da taxa de desemprego para 6,4% e um desempenho do PIB acima de 3% nos dois primeiros anos.

Essas notícias positivas, no entanto, convivem com dificuldades para se avançar em outras agendas trabalhistas e sindicais. Um exemplo é a contrarreforma trabalhista que legalizou a precarização do trabalho e até hoje não foi revogada.

Da mesma forma, os ataques ao sindicalismo dos governos Temer e Bolsonaro continuam em pleno vigência. O poder de negociação continua limitado e as normas restritivas para o financiamento sindical ainda imperam.

Neste último período, para piorar, o Banco Central aumentou a taxa de juros para 12,5% e o dólar superou a barreira dos seis reais. Juros altos e especulação com o dólar travam o crescimento econômico e a geração de empregos.

Mas não satisfeitos com isso, os banqueiros querem mais. Com chantagem e alegando uma falsa crise fiscal,  a elite financeira empurrou o governo a apresentar um pacote de corte de gastos nas áreas sociais.

O pacote fiscal do governo, mesmo não atendendo plenamente o apetite insaciável dos banqueiros, prejudicou principalmente os trabalhadores, os aposentados e a população mais pobre.

O saco de maldades aprovado no Congresso, dentre outras medidas, cria um redutor na política de valorização do salário-mínimo e altera para pior as regras de concessão de outros benefícios sociais.

Esse tipo de política atinge principalmente a base da pirâmide social e dá munição para o discurso demagógico da oposição de extrema-direita, daí a justa posição do movimento sindical classista contrária a este pacote de corte de gastos.

A dialética da luta de classe cobra das direções sindicais a crítica ao pacote, de um lado, com a defesa do projeto político liderado pelo presidente Lula. Esta ampla aliança política e social é essencial para defesa da democracia.

Mas isto não basta. Para o êxito do governo é preciso superar inúmeros obstáculos, dentre os quais um Congresso majoritariamente conservador e uma elite financeira que não quer renunciar a seus ganhos bilionários.

Neste contexto, uma variável estratégica para alterar a correlação de forças é a retomada da mobilização social para se contrapor à agenda conservadora e impulsionar o programa de mudanças.

Para cumprir esses objetivos, é necessário derrotar a política de juros do Banco Central, a causa maior da sangria do orçamento público, combater a especulação com o dólar e parar com os cortes de gastos nas áreas sociais.

Sem uma forte mobilização dificilmente se avançará para a efetiva realização de um crescimento econômico mais robusto, ancorado na industrialização, com geração de empregos de qualidade, unindo as forças do trabalho e da produção.

O movimento sindical está chamado a ocupar as trincheiras de luta em defesa da democracia, do desenvolvimento e da valorização do trabalho. Com unidade, amplitude e forte mobilização.

Feliz 2025!

Leia sobre a alta do PIB no trimestre https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/12/pib-em-alta.html

Humor de resistência: Aroeira

 

Aroeira

Veja: a mensagem fraterna do presidente Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/12/lula-feliz-natal-e-um-2025-cheio-de.html

Enio Lins opina

Um aplauso democrático ao STF e ao conservador Estadão
Enio Lins  

Coube ao vetusto Estadão, o jornal mais tradicionalista da chamada “grande imprensa brasileira” resumir em 178 caracteres uma realidade dramática: “A cúpula do Legislativo se desdobrou em 2024 para não cumprir decisão do STF de dar transparência às emendas ao Orçamento. Mas a Corte mostrou que não se deixa enganar facilmente”. Este foi o bigode do editorial publicado em 25 de dezembro, sob o título “A recalcitrância do Congresso custa caro”. O diário paulista analisa ali o problema específico da destinação oculta do dinheiro público, mas o drama democrático é maior e mais amplo, pois a tragédia parlamentar espelha o impressionante avanço dos pensamentos mais autoritários e fisiologistas. 

TRAGÉDIA A ENCARAR

Essas teses nocivas não surgiram do nada. É produto de uma decadência moral espelhada em 49,10% dos votos para presidente em 2022. Problema agravado pelo fato de que os 50,90% que elegeram um Chefe do Executivo comprometido com a Democracia e o Humanismo, não se reproduziram em uma representação parlamentar majoritariamente alinhada com os valores democráticos e humanistas. Essa escassa maioria de votos, expressada por 60.345.985 seres humanizados não respaldou uma maioria equivalente, mesmo escassa, no parlamento nacional. A minoria expressiva (na eleição presidencial) se transformou numa temerária maioria parlamentar comprometida com o fisiologismo, autoritarismo, ilegalidades e privilégios. E com gana para atacar os outros dois poderes constituídos. Como o chamado modelo semipresidencialista manieta o Poder Executivo, cabe ao Poder Judiciário a missão de fazer valer a Constitui& ccedil;ão na hora H. Mas é preciso coragem para enfrentar a rebordosa desse significativo grupamento parlamentar (eventualmente majoritário) – destemor que o STF está comprovando ter.

FATO EMBLEMÁTICO

“No dia 23 de dezembro, o ministro Flávio Dino atendeu a um pedido do PSOL em Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental e suspendeu novamente o pagamento das emendas parlamentares ao Orçamento. Foram bloqueados tanto os R$ 4,2 bilhões previstos até o fim de 2024 como os cerca de R$ 50 bilhões orçados para 2025 até que alguns deputados e senadores resolvam parar de se comportar como fora da lei e informem para quem e por que enviam tamanho volume de recursos públicos. Não por acaso, Dino ainda determinou que a Polícia Federal investigue as supostas manobras do Congresso para burlar as decisões do STF e, claro, a eventual malversação da dinheirama que já foi liberada” explica o editorial, prosseguindo: “A aprovação de matérias relevantes para o País, como a reforma tributária, entre outras, não tem o cond&at ilde;o de apagar toda sorte de ardis engendrados pela cúpula do Congresso em 2024 para se assenhorar de um quinhão inaudito do Orçamento sem a devida transparência nem muito menos isonomia (...). Abusaram de audácia e criatividade para sustar qualquer possibilidade de identificação de patronos e beneficiários das emendas com o claro objetivo de evitar a responsabilização dos parlamentares pela eventual malversação dos recursos públicos, no que se materializou como uma desabrida burla do sistema de freios e contrapesos e, ademais, um abastardamento do próprio ideal republicano”.

Finaliza o editorial: “O tempo dirá que fim levará essa disputa entre Poderes, que, além de se prolongar por um motivo antirrepublicano – a contumácia do Congresso em burlar a Constituição –, ainda causa grande prejuízo à sociedade por dificultar o bom andamento de uma agenda virtuosa para o País”. Aplausos ao Estadão. Aplausos para o Supremo Tribunal Federal.  

Leia também: pesadas acusações contra o general Braga Netto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/12/multiplas-razoes-para-prisao-do-general.html 

Fotografia: a arte de Williott Erwitt

 

 Williott Erwitt

Leia sobre a comunicação "pessoal e intransferível" https://lucianosique blogspot.com/2024/09/minha-opiniao-confianca.html ira.