Ronda a Casa Branca o
fantasma invertido de Pearl Harbor
Enio Lins
BERNIE SANDERS, senador americano pelo estado de Vermont, um
dos políticos mais respeitados e mais corajosos dos Estados Unidos, foi direto
ao ponto, como é de seu estilo, e declarou – na contramão dos parlamentares
trumpistas que festejam o assassinato do líder máximo iraniano – que a agressão
ao Irã é inconstitucional e viola o direito internacional, acrescentando: “Isso
coloca em risco a vida das tropas americanas e das pessoas na região. Chega de
guerras sem fim. O Congresso precisa aprovar a Resolução de Poderes de Guerra”.
É uma das vozes minoritárias no Capitólio, mas não é voz isolada.
NÃO É NOVIDADE a luta para trazer Donald Trump à Constituição dos
Estados Unidos. Em janeiro, o Senado americano aprovou um projeto chamado
“Resolução de Poderes de Guerra”, com o voto de vários senadores republicanos,
em resposta ao sequestro do presidente da Venezuela e sua esposa, por decisão
individual do presidente. A votação surpreendeu Trump, que moveu céus e terra
para derrotar a proposta na Câmara dos Representantes. A ideia, em novo
formato, retorna ao Congresso, agora em iniciativa bipartidária encabeçada pelo
deputado democrata Ro Khanna e pelo deputado republicano Thomas Massie. “O
Congresso precisa se reunir já para acabar com isso [o presidente atacar outros
países sem cumprir a Constituição]”, declarou Khanna, enquanto Massie reafirmou
a inconstitucionalidade trumpista e ironizou o slogan de seu colega de partido:
“This is not America First” (isso não é América em primeiro lugar). Minoria?
Sim, mas está crescendo e assustando o galego da Casa Branca.
ALEXANDRIA OCASIO
CORTEZ, deputada por Nova Iorque, chama a atenção para o
fato de que o ataque ordenado monocraticamente por Trump, além de
inconstitucional, foi “escolha deliberada de agressão quando a diplomacia e a
segurança estavam ao seu alcance”. A democrata ressalta uma questão grave em
termos de ética, pois os Estados Unidos e o Irã estavam em processo de
negociação, com as próximas reuniões já marcadas para Viena, na Áustria. Mesmo
considerando a verborragia agressiva típica do presidente americano, ele,
através de seus representantes, estava em contato com o governo iraniano,
propondo-se a construir entendimentos pacíficos. Nesse quadro – e é para isso
que a deputada aponta –, os assassinatos do líder supremo do Irã, de sua
família, e de membros importantes do governo persa, significam uma escandalosa
punhalada pelas costas, um gesto indigno do governo dos Estados Unidos, mesmo
dirigido contra inimigos figadais.
APESAR DO ÓDIO MANIFESTO de boa parte dos ianques contra os aiatolás, o Irã, e contra
quem quer que queira peitar a Casa Branca, a ação executada no sábado, 28,
cutuca uma ferida aberta na alma estadunidense: o ataque dos japoneses contra
Pearl Harbor, em 1941. Trump repete Hirohito, 85 anos depois, em trairagem.
Qualquer estadunidense que se diga patriota saberá de cor que existia grande
animosidade entre Washington e Tóquio antes da base havaiana ser trucidada.
Esperava-se o pau quebrar desde 12 de dezembro de 1937, quando foi posto a
pique a canhoneira USS Panay, da Marinha de Guerra dos Estados Unidos,
bombardeado pelos japoneses na cidade chinesa de Nanjing. O navio tentava,
juntamente com três petroleiros da Standard Oil Company, evacuar cidadãos
americanos retidos naquela área ocupada pelo Japão. Mesmo assim, o ataque a
Pearl Harbor, sem declaração formal de guerra, é visto como uma facada por
trás, e condenado como exemplo da mais vergonhosa deslealdade militar e da mais
repugnante covardia que um desafeto possa fazer com outro. Aquele foi “um dia
que vai viver na infâmia”, ecoam ainda hoje as palavras do então presidente dos
EUA, Franklin Roosevelt. Infame ou infame, eis a questão: essa lição ética só
vale para o lado americano?
Leia também: Um mito norte-americano: “A maior democracia do mundo” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/enio-lins-opina_24.html

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