04 março 2026

Enio Lins opina

Ronda a Casa Branca o fantasma invertido de Pearl Harbor
Enio Lins 

BERNIE SANDERS, senador americano pelo estado de Vermont, um dos políticos mais respeitados e mais corajosos dos Estados Unidos, foi direto ao ponto, como é de seu estilo, e declarou – na contramão dos parlamentares trumpistas que festejam o assassinato do líder máximo iraniano – que a agressão ao Irã é inconstitucional e viola o direito internacional, acrescentando: “Isso coloca em risco a vida das tropas americanas e das pessoas na região. Chega de guerras sem fim. O Congresso precisa aprovar a Resolução de Poderes de Guerra”. É uma das vozes minoritárias no Capitólio, mas não é voz isolada.

NÃO É NOVIDADE
 a luta para trazer Donald Trump à Constituição dos Estados Unidos. Em janeiro, o Senado americano aprovou um projeto chamado “Resolução de Poderes de Guerra”, com o voto de vários senadores republicanos, em resposta ao sequestro do presidente da Venezuela e sua esposa, por decisão individual do presidente. A votação surpreendeu Trump, que moveu céus e terra para derrotar a proposta na Câmara dos Representantes. A ideia, em novo formato, retorna ao Congresso, agora em iniciativa bipartidária encabeçada pelo deputado democrata Ro Khanna e pelo deputado republicano Thomas Massie. “O Congresso precisa se reunir já para acabar com isso [o presidente atacar outros países sem cumprir a Constituição]”, declarou Khanna, enquanto Massie reafirmou a inconstitucionalidade trumpista e ironizou o slogan de seu colega de partido: “This is not America First” (isso não é América em primeiro lugar). Minoria? Sim, mas está crescendo e assustando o galego da Casa Branca.

ALEXANDRIA OCASIO CORTEZ, 
deputada por Nova Iorque, chama a atenção para o fato de que o ataque ordenado monocraticamente por Trump, além de inconstitucional, foi “escolha deliberada de agressão quando a diplomacia e a segurança estavam ao seu alcance”. A democrata ressalta uma questão grave em termos de ética, pois os Estados Unidos e o Irã estavam em processo de negociação, com as próximas reuniões já marcadas para Viena, na Áustria. Mesmo considerando a verborragia agressiva típica do presidente americano, ele, através de seus representantes, estava em contato com o governo iraniano, propondo-se a construir entendimentos pacíficos. Nesse quadro – e é para isso que a deputada aponta –, os assassinatos do líder supremo do Irã, de sua família, e de membros importantes do governo persa, significam uma escandalosa punhalada pelas costas, um gesto indigno do governo dos Estados Unidos, mesmo dirigido contra inimigos figadais.

APESAR DO ÓDIO MANIFESTO 
de boa parte dos ianques contra os aiatolás, o Irã, e contra quem quer que queira peitar a Casa Branca, a ação executada no sábado, 28, cutuca uma ferida aberta na alma estadunidense: o ataque dos japoneses contra Pearl Harbor, em 1941. Trump repete Hirohito, 85 anos depois, em trairagem. Qualquer estadunidense que se diga patriota saberá de cor que existia grande animosidade entre Washington e Tóquio antes da base havaiana ser trucidada. Esperava-se o pau quebrar desde 12 de dezembro de 1937, quando foi posto a pique a canhoneira USS Panay, da Marinha de Guerra dos Estados Unidos, bombardeado pelos japoneses na cidade chinesa de Nanjing. O navio tentava, juntamente com três petroleiros da Standard Oil Company, evacuar cidadãos americanos retidos naquela área ocupada pelo Japão. Mesmo assim, o ataque a Pearl Harbor, sem declaração formal de guerra, é visto como uma facada por trás, e condenado como exemplo da mais vergonhosa deslealdade militar e da mais repugnante covardia que um desafeto possa fazer com outro. Aquele foi “um dia que vai viver na infâmia”, ecoam ainda hoje as palavras do então presidente dos EUA, Franklin Roosevelt. Infame ou infame, eis a questão: essa lição ética só vale para o lado americano?

Leia também: Um mito norte-americano: “A maior democracia do mundo” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/enio-lins-opina_24.html

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