Nota sobre a capacidade estatística do PIB
O PIB, bússola do século XX, já não captura sozinho a
complexidade da economia financeirizada, digital, do cuidado e ambiental
Marcio Pochmann/A
Terra é Redonda
O Produto Interno Bruto (PIB)
consolidou-se ao longo do século XX como o principal indicador de desempenho
econômico. Entretanto, as transformações estruturais recentes como a
financeirização, a expansão da economia digital, a crescente relevância da
economia dos cuidados e a emergência da crise ambiental passaram a revelar
limitações importantes desse indicador.
Desde a sua consolidação após a Segunda
Guerra Mundial, o PIB tornou-se o indicador central para avaliar o desempenho
econômico das nações. Baseado no sistema de contas nacionais desenvolvido,
inicialmente, por economistas como Simon Kuznets e, posteriormente,
institucionalizado por organismos internacionais, o PIB busca medir o valor
monetário da produção de bens e serviços finais gerados pela economia durante
um determinado período de tempo.
Apesar de sua relevância histórica, a
evolução recente do capitalismo global tem evidenciado enormes e crescentes
desafios à contabilidade econômica tradicional. Nesse contexto que emerge uma
tensão entre a realidade econômica contemporânea e a capacidade estatística do
PIB de representá-la adequadamente neste primeiro terço do século XXI.
Financeirização e distorções na
mensuração do produto
Uma das transformações estruturais mais
importantes das últimas décadas tem sido o processo de financeirização das economias.
Esse fenômeno se refere à crescente centralidade das atividades financeiras na
geração de renda e na dinâmica macroeconômica.
Autores como Greta Krippner e Gerald
Epstein destacam, por exemplo, que, em muitos países, a expansão dos lucros
financeiros passou a superar o crescimento da produção material. A valorização
de ativos financeiros, a expansão do crédito e a crescente importância dos
mercados de capitais passaram a influenciar profundamente a dinâmica econômica.
No entanto, do ponto de vista das
contas nacionais, parte significativa dessas atividades aparece como geração de
valor agregado. Os serviços financeiros que incluem a intermediação bancária,
gestão de ativos e outros serviços são contabilizados no PIB, mesmo quando
representam essencialmente redistribuições de renda ou valorização de ativos já
existentes.
Isso significa que períodos de intensa
expansão financeira podem produzir crescimento estatístico do PIB sem
necessariamente refletir expansão proporcional da economia real, do emprego ou
da produção de bens e serviços.
Da mesma forma, a expansão da economia
digital emerge como um outro desafio relevante para a contabilidade
macroeconômica contemporânea. Plataformas digitais, serviços baseados em dados,
inteligência artificial e infraestruturas informacionais passaram a desempenhar
papel central nos sistemas produtivos.
Uma grande parte do valor gerado nesse
ambiente digital não consegue ser plenamente capturada pelas métricas
convencionais. Muitos serviços digitais são oferecidos gratuitamente aos
usuários finais e monetizados indiretamente por meio de publicidade, uso de
dados ou outros mecanismos.
Economistas como Erik Brynjolfsson e
Diane Coyle argumentam, por exemplo, que o PIB tende a subestimar o valor
econômico gerado por esses serviços, pois o sistema de contas nacionais foi
concebido para economias industriais baseadas em transações monetárias
claramente identificáveis. Adicionalmente, parcela importante da economia
digital está associada a ativos intangíveis (algoritmos, softwares,
plataformas, bases de dados), cuja mensuração apresenta desafios metodológicos
significativos.
Diante dessas limitações, diversos
países e organismos internacionais têm desenvolvido metodologias
complementares, incluindo contas satélite da economia digital.
A invisibilidade da economia dos
cuidados
Um outro limite clássico do PIB
refere-se à exclusão do trabalho doméstico e de cuidados não remunerado.
Atividades como cuidar de crianças, idosos ou pessoas doentes, preparar
alimentos ou realizar tarefas domésticas são essenciais para a reprodução
social e para o funcionamento da economia, mas não são contabilizadas no
produto nacional quando realizadas fora do mercado.
Essa crítica foi amplamente
desenvolvida por economistas feministas como, por exemplo, Nancy Folbre e
Marilyn Waring. Segundo essas autoras, a exclusão do trabalho de cuidados do
PIB reflete não apenas uma limitação estatística, mas também uma hierarquia
histórica entre atividades produtivas e reprodutivas.
Estudos baseados em pesquisas de uso do
tempo indicam que, se o trabalho doméstico e de cuidados fosse monetizado,
poderia representar parcela significativa do produto nacional em muitos países.
Nos últimos anos, diversos sistemas estatísticos passaram a desenvolver contas
satélite da economia do cuidado, estimando o valor econômico dessas atividades.
A crescente crise ambiental também evidencia
limitações importantes do PIB como indicador de progresso econômico. O
indicador registra positivamente atividades que geram produção e renda, mesmo
quando estão associadas à destruição de recursos naturais ou à emissão de
poluentes.
Essa limitação foi destacada pelo
relatório coordenado por Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean‑Paul Fitoussi
sobre a mensuração do desempenho econômico e do progresso social. Em resposta a
esse problema, organismos internacionais vêm desenvolvendo sistemas de
contabilidade ambiental integrados às contas nacionais, como o Sistema de
Contabilidade Econômico-Ambiental (SEEA), que busca incorporar indicadores de
capital natural, uso de recursos e impactos ambientais.
Avanços recentes na contabilidade
econômica internacional
Diante desses desafios, o sistema
internacional de estatísticas econômicas tem avançado em diversas frentes
metodológicas. A atualização mais recente do sistema global de contas nacionais
pela Divisão de Estatísticas das Nações Unidas (Sistema de Constas Nacionais de
2025) propõe aperfeiçoamentos na mensuração de ativos intangíveis, economia
digital e capital natural.
Além disso, a expansão de contas
satélite (digitais, ambientais e de cuidados) permite ampliar a capacidade
analítica das estatísticas macroeconômicas sem alterar a comparabilidade
internacional do PIB. Esses avanços indicam que o futuro da contabilidade
econômica provavelmente não envolverá a substituição do PIB, mas sim a sua
complementação por um conjunto mais amplo de indicadores capazes de capturar as
múltiplas dimensões da economia contemporânea.
O Brasil tem desempenhado papel
relevante na modernização das estatísticas econômicas e na adaptação das contas
nacionais aos novos desafios da economia contemporânea. Nesse processo,
destaca-se a atuação do IBGE, responsável pela produção oficial das contas
nacionais brasileiras desde os anos de 1980, pois antes disso era de
responsável de uma instituição privada.
Nos dois últimos anos, o IBGE retornou
à elite das estatísticas mundiais, com a retomada no assento na Comissão
Estatística das Nações Unidas e as inéditas indicações para a condição de
Copresidente do Programa de Comparação Internacional de Estatísticas oficiais e
de membro do Comitê Consultivo dos Princípios Fundamentais das Estatísticas
Oficias. Com isso, o Brasil tem contribuído ativamente para o debate
internacional sobre atualização das contas nacionais.
A experiência brasileira demonstra que
a produção estatística não é apenas uma atividade técnica, mas também um
elemento central da governança democrática e da cooperação internacional
baseado em evidências, transparência e comparabilidade. Ao participar
ativamente da construção dos padrões estatísticos globais, o Brasil contribui
ativamente para a governança estatística internacional debatendo sobre a
metodologia mais atual para o sistema global de contas nacionais e sobre os
desafios de mensuração da economia digital, da sustentabilidade e do bem-estar.
*Marcio
Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente
do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor entre outros
livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três
tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]
Referências
Brynjolfsson, E.; Collis, A.; Eggers, F. (2019) Using Massive
Online Choice Experiments to Measure Changes in Well-Being. PNAS.
Coyle, D. (2014) GDP: A Brief but Affectionate History.
Princeton University Press.
Epstein, G. (2005) Financialization and the World Economy.
Edward Elgar.
Folbre, N. (2006) Measuring Care: Gender, Empowerment and the
Care Economy. Journal of Human Development Vol. 7, No. 2, July 2006
Krippner, G. (2011) Capitalizing on Crisis: The Political
Origins of the Rise of Finance. Harvard University Press.
Stiglitz, J.; Sen, A.; Fitoussi, J. (2009) Report by the
Commission on the Measurement of Economic Performance and Social Progress.
OFCE.
United Nations (2025) System of National Accounts. UN.
United Nations (2021) System of Environmental-Economic
Accounting. UN.
IBGE. (diversos anos) Sistema de Contas Nacionais do Brasil. Rio
de Janeiro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário