Derrota de 'O agente secreto' no Oscar
deixa gosto amargo, mas não apaga trajetória de sucesso
Filme é superado na
corrida de melhor filme internacional por 'Valor sentimental'
Lucas Salgado/O Globo
Com cinco chances de vitória — quatro com "O agente secreto" e uma com Adolpho Veloso pela fotografia de "Sonhos de trem" —, o Brasil deixou a noite do Oscar sem estatuetas. O resultado deixa um gosto de frustração para quem vislumbrava um bicampeonato um ano após a vitória de "Ainda estou aqui", de Walter Salles.
Nessas
horas, é difícil fugir do lugar comum. O importante é competir. Já foi uma
vitória ser indicado. É um prêmio feito para eles. Tudo é verdade, mas também
não apaga a decepção de prêmios que pareciam próximos. Especialmente, um deles:
melhor filme internacional.
Após vencer na categoria no Globo
de Ouro, no Critics Choice, no Film Independent Spirit Awards e nos prêmios das
principais associações de críticos dos EUA (Los Angeles e Nova York), "O
agente secreto" despontou como forte concorrente na disputa, tendo como
principal rival o norueguês "Valor sentimental", de Joachim Trier,
vencedor do BAFTA e o longa internacional com maior número de indicações ao
Oscar (nove, no total).
No final, deu Noruega por um
filme falado, em parte, em inglês, e com atores mais conhecidos na indústria
americana, como Stellan Skarsgard e Elle Fanning.
De toda forma, o desempenho de
"O agente secreto" merece ser exaltado. Até aqui, o filme demonstrava
uma trajetória mais premiada que "Ainda estou aqui". Tudo começou
ainda em maio do ano passado, no Festival de Cannes, de onde saiu com dois
prêmios na mostra competitiva: melhor direção e melhor ator, para Wagner Moura . Ali,
inclusive, já se avistou a disputa com "Valor sentimental", vencedor
do Grande Prêmio do Júri, e com "Foi apenas um acidente", de Jafar
Panahi, o ganhador da Palma de Ouro. Ainda em Cannes, o longa brasileiro foi
laureado como o melhor filme pelo júri da crítica internacional (Fipresci).
A partir de setembro, "O
agente secreto" iniciou uma sequência insana de participações em festivais
e premiações. O longa marcou presença nos festivais de Toronto, Nova York,
Londres e Telluride. Em janeiro, no Globo de Ouro, o filme mostrou que não
estava para brincadeira com as vitórias nas categorias de melhor filme
internacional e melhor ator em filme de drama. Na sequência, vieram as quatro
indicações ao Oscar, igualando o recorde de "Cidade de Deus", em
2004.
A derrota de "O agente
secreto", mais do que ser lamentada, deve servir de lição. A trajetória
mostra, mais uma vez, que ganhar um Oscar não é algo simples. E que, sim,
chegar lá é motivo de celebração. É importante lembrar que antes da vitória de
"Ainda estou aqui", o Brasil ficou 26 anos afastado da categoria de
melhor filme internacional (a indicação anterior havia sido com "Central
do Brasil", em 1999).
Mesmo com uma grande estrutura de
campanha e a boa vontade de uma distribuidora internacional de pedigree, como a
Neon, o longa brasileiro não levou uma estatueta. Mas ele chegou lá. E foi sim
um dos mais celebrados da noite. Quem assistiu à cerimônia notou como "O
agente secreto" foi muito celebrado pela plateia no Dolby Theater.
Outras lições deixadas pelo filme dizem
respeito à importância do investimento em cultura e a necessidade de unidade
entre as organizações nacionais do audiovisual, como MinC e Academia Brasileira
de Cinema. Divergências como ocorridas no ano passado, como a indicação de
"Manas" para representar o país no Goya, jogaram contra o cinema
brasileiro. Uma vitória no prêmio espanhol, na semana em que ocorria a votação
final para o Oscar, poderia ser uma visibilidade importante junto a votantes
europeus, que podem ter feito a diferença na disputa com "Valor
sentimental".
De toda forma, mais do que uma
frustração, o sentimento após estes dois anos com "Ainda estou aqui"
e "O agente secreto" é de muito orgulho para com o cinema brasileiro.
Para um indústria que muitas vezes é tida como morta, isso é mais do que motivo
para comemorar.
Com ou sem Oscar, O Agente Secreto é o grande campeão! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/o-filme-e-o-oscar.html

Nenhum comentário:
Postar um comentário