11 abril 2026

Região sob disputa

EUA e China: uma disputa palmo a palmo na América Latina
Guerra comercial e competição por influência na região aumentam a tensão política entre as superpotências
Jamil Chade/Liberta     

Das minas da Nicarágua aos portos do Peru e telescópios na Argentina. Do petróleo da Venezuela ao Canal do Panamá e minérios em Goiás. De Norte a Sul, a América Latina se transforma em palco da disputa entre os interesses chineses e americanos.

Um ano depois de Donald Trump iniciar uma guerra comercial e declarar abertamente sua intenção de militarizar o hemisfério, a China se organiza para defender seus ativos e investimentos na região. O resultado tem sido uma crescente tensão política entre governos locais e as duas superpotências.

Em seu plano de segurança, Trump deixou claro que quer o controle da América Latina e que não irá tolerar a presença chinesa em locais considerados como estratégicos. A Casa Branca sabe como empresas chinesas construíram, possuem ou operam grande parte da infraestrutura critica da região. A disputa por recursos naturais e influência passou a ser um fator constante nas capitais da região.

Mas, em dezembro de 2025 e poucos dias depois de Trump consolidar num documento sua Doutrina Donroe de reocupação do espaço latino-americano, a China divulgou o que chamou de seu novo “Livro Branco” sobre seu relacionamento com a América Latina.

Ainda que não cite nominalmente os EUA, o plano de Pequim criticou a “intimidação unilateral” e destacou a “gloriosa tradição de independência” da América Latina. Para completar, afirmou que apoia a estratégia da região de manter seu status de “zona de paz”, uma alusão ao militarismo de Trump no continente. O recado, portanto, estava dado.

Voos espaciais

De um lado, a estratégia chinesa foi a de capitalizar o enorme descontentamento de certos setores e governos latino-americanos diante das tarifas de Trump e, assim, atrair esses países ainda mais para a sua esfera de influência. Não por acaso, o plano apresenta a China como a defensora de um “ambiente internacional aberto e cooperativo”, opondo-se à ‘intimidação”, em mais uma referência aos EUA.

Alguns dos projetos chineses acenderam o alerta na Casa Branca. O texto defende a ideia da redução do peso do dólar no comércio da região e fala numa aproximação em áreas estratégicas, como transferência de tecnologia e intercâmbios de cientistas, bem como inteligência artificial e cooperação espacial.

Uma das apostas é a introdução do sistema de satélites BeiDou, concorrente do Sistema de Posicionamento Global, ou GPS. Se não bastasse, a China se comprometeu a incluir um latino-americano nos programas espaciais tripulados de Pequim.

Na Argentina, porém, a Casa Branca convenceu Javier Milei a abandonar a concessão de uma área do país para que a China construísse um novo telescópio espacial.

Mas a China também deixou claro que, depois de décadas de aproximação e acordos com os latino-americanos, não aceitará simplesmente deixar a região.

No documento, portanto, Pequim rejeita o que chama de “ciber-hegemonia”. Ou seja, a manobra dos EUA para excluir empresas e componentes chineses da infraestrutura digital da América Latina.

Um alerta claro da ameaça que seus interesses sofrem foi a audaciosa operação de Trump para sequestrar Nicolas Maduro, em janeiro deste ano, e romper os acordos de abastecimento a preços baixos de petróleo da Venezuela para a China. A partir de agora, Pequim terá de pagar um preço de mercado pelo combustível venezuelano. E, claro, passando pela administração dos EUA.

Menos de dois meses depois de publicar seu “guia” de atuação na região, a China passou a implementá-lo e não demorou para que, de ambos os lados, as disputas fossem iniciadas.

Um dos focos da tensão passou a ser o Panamá. Pressionado pelos EUA, o governo local provocou o Judiciário a anular os contratos que existiam entre uma empresa chinesa e o Canal do Panamá, em janeiro de 2026.

As autoridades em Pequim, imediatamente, iniciaram um processo para retaliar o governo local. Um procèsso de arbitragem internacional foi iniciado, com Pequim solicitando uma indenização de US$ 2 bilhões.

Os projetos de empresas chinesas com o Panamá foram suspensos e companhias de transporte marítimo passaram a redirecionar suas cargas por outros portos. Na China, tudo o que vinha do Panamá passou a ser alvo de uma inspeção reforçada. Um mês depois, o Panamá tomou o controle dos portos administrados por empresas chinesas e expulsou os funcionários contratados por Pequim.

No Peru, o porto de Chancay – operado pela China – também se transformou em foco da crise. Uma decisão da Justiça impediu a ingerência por parte de autoridades locais no porto, o que gerou protestos dos EUA e denúncias em Washington de que a China estaria violando a soberania peruana. Além disso, a recente queda do presidente do Peru, José Jerí, ainda ocorreu por conta de uma relação entre seu governo e um empresário chinês.

Reserva de mercado

A disputa entre EUA e China também abalou a política no Chile. No começo do ano, a decisão do então governo de Gabriel Boric de fechar um acordo para a construção de um cabo submarino de fibra óptica para conectar seu país aos territórios chineses levou o governo Trump a impor sanções contra ministros e outros funcionários de Santiago.

Segundo Washington, o acordo poderia abalar a “segurança regional”. Sob Boric, a China ainda assinou acordos para financiar a construção de hospitais e ferrovias.

A ingerência americana passou a ser um fator constante, sempre que algum governo da região anuncia um acordo com os chineses.

Nas Bahamas, a decisão do governo local de pegar um empréstimo milionário da China para a construção de um hospital foi o estopim de um protesto da Cada Branca. A diplomacia americana passou a pressionar as autoridades caribenhas a buscar outras fontes de financiamento.

Poucos aspectos são tão sensíveis nessa disputa entre as superpotências na região como a mineração. O governo Trump se apressou por montar uma espécie de pacto para garantir uma reserva de mercado de minerais críticos na região, com a participação de Equador, México, Paraguai e Peru.

No Brasil, o governo de Goiás, numa medida que passou a ser questionada internamente pelo governo Lula, também assinou um acordo com os EUA no setor de minerais críticos. Já na Argentina, o governo de Javier Milei se comprometeu a dar prioridade às vendas de seu cobre, lítio e outros minerais críticos em detrimento de “economias ou empresas que manipulam o mercado”, em referência à China.

Como resposta, Pequim fortaleceu sua ofensiva para garantir novas áreas de concessão de mineração, como no caso da Nicarágua, e se lançou em disputas por contratos em várias partes do continente.

Observadores na China destacam que, poucas vezes nas últimas décadas, a América Latina ocupou uma posição tão central na disputa entre duas nações em busca da hegemonia. Resta saber, para diplomatas, qual será o limite da guerra pelos recursos naturais da região e como os governos locais irão reagir para tirar proveito dessa disputa.

Leia também: Guerra ameaça a Economia do Ocidente: e agora, falastrão? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/trump-caleidoscopico.html

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