A mãe de Sua Senhoria
Graças à TV e à leitura labial,
sabe-se agora o que os jogadores dizem ao brigar em campo. Muitos são mais
velhos do que os juízes e não hesitam em mandá-los fazer certas coisas
Ruy Castro/Folha de S. Paulo
Foi-se o tempo no futebol em que os arranca-rabos entre os jogadores eram abafados pelos espasmos das torcidas ou inaudíveis pela distância do gramado.
Hoje, com a TV e a leitura
labial, o que eles vociferam uns para os outros já não fica inédito. Graças ao
dublador Gustavo Machado, pudemos acompanhar, por exemplo, a destreza de Neymar no castelhano ao se dirigir ao
uruguaio Hernández no recente (2/4) Santos X Remo. Ao levar uma entrada do
gringo, Neymar, descontrolado, pespegou-lhe uma penca de "Hijos de
puta!" seguidos de "Cagón!" e "Pelotudo!". O último
epíteto causou espécie —o que seria "pelotudo"? Fui ao dicionário:
"idiota, imbecil, babaca". Enriqueci meu vocabulário.
Jogadores
sempre bateram boca, mas, no passado, continham-se ao falar com o juiz. Os
árbitros eram senhores de certa idade e apitavam enquanto o fole aguentasse. O
mais famoso era o mais velho, mais forte e mais temido: Mario Vianna,
ex-soldado da torturadora Polícia Especial de Getulio no Estado Novo (1937-45).
Atuou até os 55 anos, em 1957, capaz de atirar no fosso quem o desacatasse.
Depois tornou-se o primeiro comentarista de arbitragem do rádio.
Hoje há juízes
de 30 anos, mais jovens do que muita gente em campo. Pelas dublagens de
Gustavo, vemos que os jogadores se dirigem a eles pelo nome (e não por
"Seu juiz") e, ao discordar de uma decisão, despejam: "Porra,
Fulano, tá maluco??? Não viu que foi o filho da puta que me acertou??? Tá de
sacanagem??? Tu é muito ruim!!! Vai te fudê!!!!!". O juiz ignora o
conselho e não vai se fudê, mas nem sempre aplica ao desbocado o competente
cartão.
Sua Senhoria
precisa ser firme sem se ofender. Um momento memorável se deu no Botafogo X
Flamengo de 14/3, em que, expulso, o iracundo zagueiro alvinegro Barboza encarou
nariz com nariz o juiz Anderson Daronco enquanto lhe descompunha a senhora sua
mãe. Qualquer um tremeria com a fúria de Barboza, mas Daronco, maior que ele,
encarou-o de volta, sem mover uma narina e sem dizer uma palavra.
E Barboza foi
tomar banho.
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