Pedra que canta
e brilha
Cicero Belmar
Cada
lugar, por mais simples, tem um caráter que o torna único. O natural do Sertão
do Araripe, por exemplo, é essa terra árida, plantas com espinho, beleza
difícil. Na cidade onde nasci e vivi por alguns anos, Bodocó (PE), há uma
pedra. De tão imensa, ela não está no meio do caminho, como no poema do
itabirano Drummond.
É
pedra que exige tempo para ser apreciada. Ninguém diz que passou por ela, mas
que esteve nela. Está reclinada sobre largo trecho da Serra do Araripe e sua
beleza é o tamanho gigantesco que está nele. Perguntem a Cida Pedrosa, que já
escreveu um livro inteiro de versos metrificados sobre essa pedra, e a poeta
responderá que a Claranã é feita de minérios e poesia.
E
que ela é uma pedra que canta. Isso mesmo, dizem que canta. A verdade é que o
som, vindo da pedra, em noites de ventos assustadores, é apenas reação. A pedra
é chicoteada pelo vento, e a violência do choque produz um som.
O
canto da pedra nada mais é do que o vento transgredindo a sua dimensão de
potência invisível, a sua natureza passageira. É som intenso, com ressonância e
eco, música de pedra, que não estamos acostumados a ouvir, linguagem própria.
Além
de cantar, é pedra que reluz. O que não é muito difícil de acontecer, por causa
do sol permanente do Sertão. O sol bate na pedra e a luz bate na gente. Sol
ardente contrastando com a melancolia do tempo, a pedra reluz e canta. De minha
parte, eu mesmo nunca vi nem ouvi. Os mais velhos dizem que sim.
Há
uma lenda de que a pedra brilhava. É história de antigamente, apenas repasso.
Dizem que, quando o sol refletia na pedra, nas primeiras horas do dia, de longe
se via o clarão cor de prata. Clarão claranã, daí o nome da pedra. É preciso
aprender poesia com aqueles que sabem olhar: essa melancolia sob o sol inspira
as palavras.
Os
mais antigos eram povos originários que habitavam a Pedra do Claranã. Existem
registros de séculos passados dizendo que havia uma tribo nômade, a Kariri, que
percorria quatro “grandes pedras encantadas” sobre a Serra do Araripe. Elas se
localizam entre os atuais estados de Pernambuco e do Ceará. Os sertanejos
ancestrais migravam conforme as secas e os períodos de colheitas.
Entre
as encantadas, estava e está a Pedra do Claranã. Ela teria sido batizada por
aqueles povos, que viam o clarão à distância. Viam a Claranã no seu prateado. O
clarão era a bússola do trajeto. Repito, é preciso aprender a ver para saber
contar.
Não
digo que a pedra é encantada. Mas reconheço que tenha lá os seus mistérios. Na
semana passada, por exemplo, uma amiga da religião da Jurema esteve na pedra,
onde nunca havia estado antes. Disse sentir energias de espíritos de caboclos e
de indígenas ao percorrer as cavernas que existem por lá. Detalhe, a minha
amiga não sabia que a pedra foi morada dos povos originários nômades.
Algumas
lendas ainda habitam a pedra. Uma delas é a do arco do desejo. É uma formação
natural, um marco de passagem, que tem esse apelido porque, segundo os mais românticos,
quem passar sob ele, e fizer um pedido, o amor acontece.
Outra
lenda relata um amor impossível. Abaixo da pedra, segundo a crença, há um reino
que foi extinto por castigo dos céus. A princesa do reino teria se apaixonado
por um plebeu. Para impedir o romance, um rei autoritário, preconceituoso e
infeliz, mandou matar o rapaz. A princesa caiu em depressão profunda e também
morreu.
Como castigo ao ditador, os deuses do amor resolveram destruir o reino do mal. Jogaram uma imensa pedra, lá dos astros, que hoje seria a Claranã. Ao cair na terra, destruiu o reino. O espírito dos dois amantes flutuou, transformando-se em imensos gaviões que ainda hoje habitam o alto da pedra. Entre lendas, mistérios e poesia, a pedra existe. E não seria a mesma se fosse apenas minério.
[Ilustração: Manabu Mabe]
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