28 novembro 2024

Palavra de poeta: Mario Benedetti

Tática e estratégia
Mario Benedetti    

Minha tática é
olhar-te
aprender como tu és
querer-te como tu és

 

minha tática é
falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível

 

minha tática é
ficar em tua lembrança
não sei como nem sei
com que pretexto
porém ficar em ti

 

minha tática é
ser franco
e saber que tu és franca
e que não nos vendemos
simulados
para que entre os dois

 

não haja cortinas
nem abismos

 

minha estratégia é
em outras palavras
mais profunda e mais
simples
minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.

[Ilustração: Edvard Munch]

Leia também um poema de Ferreira Gullar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2022/12/palavra-de-poeta-ferreira-gullar.html 

27 novembro 2024

Minha opinião

Falsa rebeldia neofascista*
Luciano Siqueira 

O discurso anti-establishment é uma componente do fascismo, sempre. 

Fez parte do ideário de Hitler e Mussolini e seus assemelhados no século passado. 

Retorna nessa terceira década do século 21 com a mesma essência, embora a roupagem possa ter traços peculiares de agora. 

Trata-se de condenar em regra o que está estabelecido e atrair multidões de incautos, especialmente numa faixa da população entre 40 e 55 anos (segundo algumas pesquisas) frustrada em seus planos de vida. 

E assim passar a impressão de que algo poderá substituir a ordem estabelecida, inclusive negando em regra a prática política vigente, para passar o conto do vigário de que o inteiramente novo está por acontecer. 

É a falsa rebeldia neofascista, cuja essência está na manutenção do status quo por regime ditatorial, sob hegemonia militar ou não.

O governo Bolsonaro foi um ensaio dessa lorota. Propunha-se erradicar a denominada "velha política" e substituí-la por uma "nova política", porém na prática assumiu todas as características do que há de mais retrógrado na sociedade brasileira. 

Não é à toa que o então presidente praticamente transferiu as rédeas do governo ao núcleo dirigente do "centrão" dominante na Câmara dos Deputados e no Senado e relegou a condução da economia nas mãos de um operador do mercado financeiro, ministro Paulo Guedes.

É nesse contexto ilusionista que o próprio Bolsonaro, agora mergulhado em poço de areia movediça enalameada e o ex-coach Pablo Marçal, o emergente candidato derrotado à prefeitura da capital paulista, disputam espaço. 

Ambos primam pelo uso inescrupuloso do que se tem chamado guerra cultural e discurso do ódio, nas redes sociais e através de estamentos razoavelmente disciplinados que se prestam a difundir seu ideário, tais como políciais militares e civis, evangélicos neopentecostais e parcelas das Forças Armadas.

Entrementes, as próprias contradições na corrente neofascista, que tendem a se acirrar na perspectiva da eleição presidencial de 2026, contribuem para revelar abertamente a essência do neofascismo brasileiro, tornando-o mais vulnerável a crítica sistemática do pensamento progressista e de esquerda. 

Este é um embate que, em parte, se fez presente nas eleições municipais e tende a se acirrar, inclusive sob o impacto das revelações da trama golpista na peça de indiciamento do ex-presidente e de cerca de 70 asseclas, produzida pela Polícia Federal. 

*Texto da minha coluna desta quinta-feira no portal Vermelho www.vermelho.org.br

Leia sobre mercado financeiro e fascismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2022/12/pressao-midiatica-rentista.html 

Cinema & política

Cinema, política e memória
A coordenadora do Centro de Memória Sindical, Carolina Maria Ruy, escreve sobre a relação entre cinema e política.
Maria Carolina Ruy/Portal Grabois    

O cinema é tão presente em minha vida que algumas das minhas memórias e sentimentos pessoais tem origem em filmes que me marcaram. Por exemplo, parece até engraçado, mas, depois que assisti Carrie a Estranha (de Brian de Palma), fiquei tão impactada com a cena final que andar sobre raízes de árvores me causou arrepios por muitos anos. Se não entendeu, sugiro que assista.

Muito da minha relação com a sétima arte é herança do meu pai, José Carlos Ruy, que foi um cinéfilo apaixonado e fez questão de transmitir isso para suas filhas.

Foi motivo de orgulho para nós o fato dele, um intelectual sério e influente no campo progressista, ter publicado, nos idos dos anos de 1980, um artigo falando sobre a degradação da sociedade neoliberal através da cinebiografia de Sid Vicious e Nancy Spunger. Lançado em 1986, Sid & Nancy, de Alex Cox, também teve influência em nossa adolescência, quando brincávamos de ser punks, e o artigo era mais uma prova de que ele era um cara “pra frente”.

Com um texto sobre cinema e com esta lembrança do meu pai, que além de cinéfilo, era parte desta Fundação, inauguro minha participação como colunista do Portal da Fundação Maurício Grabois.

Cinema e esquerda

Participei, no dia 1º de agosto, junto com os jornalistas Gustavo Rego (Cine Olho), Pedro Amaro e Marcela Magalhães, de um PodCast, do Canal Claquete com o tema: O cinema é esquerdista?

Embora a premissa soasse irreal, ela rendeu um debate interessante. Vale resgatar as ideias que foram abordadas. E acrescentar outras.

Não há consenso sobre alguma relação estreita entre o cinema e o espectro político de esquerda. Ao ser provocada a refletir sobre o assunto, conclui que a questão colocada, possivelmente, surgiu a partir de impressões baseadas no comportamento histriônico da extrema direita.

Nos últimos anos um pensamento extremista e radical cresceu em todo o mundo, impulsionado, em linhas gerais, pela crise de 2008, pela crise migratória na Europa (que despertou grande xenofobia) e pela disseminação das redes sociais, do negacionismo, das notícias falsas e dos discursos de ódio. Esse pensamento reacionário, que se impôs de maneira agressiva, considera as expressões culturais (salvo obras em linha com as teorias que defende) subversivas e destruidoras de valores.

É um pensamento intolerante, que condena as artes, a intelectualidade e até a ciência. E isso não é novo.

No nazismo alemão dos anos de 1930, o governo de Adolf Hitler repudiava a arte moderna, classificando-a como degenerada.

Nos Estados Unidos, durante o macartismo, na década de 1950, artistas foram perseguidos, censurados e constavam em listas de pessoas consideradas inimigas da nação por terem qualquer relação, real ou fruto de paranoia, com o comunismo[1]. O senador Joseph McCarthy instituiu um clima de medo e terror com base em mentiras sobre a URSS, que repercutiram pelas gerações seguintes. E isso afetou a produção cultural daquela época[2].

São exemplos que mostram a negação da extrema-direita com relação à cultura ao longo da história.

Cinema e política

Mas o cinema pode assumir diferentes discursos e expressões.

O cineasta soviético, Serguei Eisenstein, registrou aspectos da Rússia pré-revolucionária, exaltou a Revolução de 1917 e falou sobre o papel dos operários na sociedade. 

Entre as décadas de 1920 e 1950, Charles Chaplin assumiu um discurso politizado e social ao tratar do trabalhador, como em Tempos Modernos (1936), e se opor ao nazismo em O Grande Ditador (1942). Assim como Eisenstein, Chaplin influenciou gerações.

São muitas as obras engajadas, que denunciam injustiças sociais e valorizam o povo trabalhador. Entre eles estão, Ladrões de Bicicleta (de Vitorio de Sica, 1948), que denuncia a pobreza na Itália Pós Segunda Guerra, A Classe Operária Vai ao Paraíso (de Elio Petri, 1971), que fala sobre a vida do operário fabril, Norma Rae (de Martin Ritt ,1979), que traz a questão sindical e da mulher operária. Mais recente, o cineasta britânico, Ken Loach aborda esse debate ao tratar da classe operária e suas dificuldades no mundo capitalista.

Há os brasileiros, com um espectro que vai desde Leon Hirszman, com seu obrigatório Eles Não Usam Black Tie (1981), que trata da greve dos metalúrgicos de São Paulo de 1979, e Tizuka Yamasaki, de quem cito Gaijin, Caminhos da Liberdade, que aborda a imigração japonesa e a tênue substituição do trabalho escravo para o assalariado, até produções da Globo Filmes, como Zuzu Angel (de Sérgio Rezende, 2006) e Olga (de Jayme Monjardim, 2004).

A propaganda de valores conservadores também foi e é usada. Uma referência neste campo é O Nascimento de uma Nação, (de D. W. Griffith, 1915) que, de forma abertamente racista, atribuiu heroísmo à Ku Kux Klan, apoiou a escravidão e o ódio aos negros.

O caráter de imperialismo cultural durante a Guerra Fria ficou evidente em produções como a série 007, em especial Moscou contra 007 (de Terence Young, 1963), Rambo (de Sylvester Stallone e outros, 1982) e Rocky, o Lutador (de John G. Avildsen, 1977).

Neste quesito, Rocky 4, da série Rocky, o Lutador, é uma amostra contundente de propaganda antissoviética. O enredo apresenta os personagens Rocky e Drago representando EUA e URSS. O primeiro é um homem simples e honesto, que vence pelo seu próprio esforço. Enquanto Drago é um homem frio, implacável, que usa equipamentos ostensivos e joga sujo para ganhar.

Importante apontar que Rocky 4 fez grande sucesso e mexeu com o imaginário popular. Muitos se identificaram com o personagem de Rocky Balboa e, com isso, acabaram comprando toda a fantasia embutida no enredo.

O mesmo vale para a sequência “Rambo”, também com Sylvester Stallone, que vende uma imagem heroica do militar americano na Guerra do Vietnã e mostra os vietcongues, comunistas, como o exército do mal. Um enredo baseado em mentiras e na ocultação dos fatos.

A relação com a política sob diferentes e às vezes contrários matizes ideológicos, é longa.

Todo filme pode ser analisado

A crítica sobre a padronização da indústria cultural é válida e deve ser feita. Mas não é possível determinar se um filme é totalmente arte ou totalmente produto já que ele sintetiza trabalhos técnicos e artísticos como fotografia, música, teatro, literatura, moda, além do trabalho de marketing e das eventuais exigências dos estúdios. Profissionais qualificados e comprometidos com a arte, entram nesta indústria e acabam submetidos a esse esquema. Mas o trabalho deles está ali.

Isso é uma coisa. Esse caráter de síntese.

Outra coisa é a ideia de que qualquer obra cinematográfica pode ser “lida” já que transmite uma mensagem e o contexto de sua criação.

Neste sentido, histórias de romances, catástrofes, terror, comédias, de maneira explícita ou não, trazem uma mensagem, um ideal de sociedade e revelam os costumes de sua época. Chamar a atenção para isso e instigar a curiosidade sobre qualquer obra é uma rica contribuição ao debate social.

O Massacre da Serra Elétrica (de Tobe Hooper, 1974), por exemplo, à primeira vista pode parecer desprezível em uma conversa séria. Mas o jornalista Henrique Artuni, no artigo “Como ‘O Massacre da Serra Elétrica’ sobreviveu à máfia do pornô e ao sol do Texas”[3], conseguiu ver, através da matança sanguinária, a crise americana com relação à Guerra do Vietnã.

Artuni foi ainda mais fundo ao relacionar a violência de Leatherface, ao desespero gerado pela crise do petróleo de 1973, que colocou fim na Era de Ouro pós-Segunda Guerra Mundial, abalando o capitalismo tão profundamente que o sistema jamais se restabeleceu por completo.

O filme foi expressão de uma época em que, segundo o texto: “A euforia dos anos 1960 tinha se corrompido”, “A Guerra do Vietnã era uma corda no nosso pescoço. Os Estados Unidos enfrentavam pela primeira vez a falta de petróleo e combustíveis”.

Assim como José Carlos Ruy, meu pai, interpretou a decadência neoliberal dos anos de 1980 através da história de Sid Vicious e Nancy Spunger, mostrada em Sid & Nancy, o jornalista Artuni conseguiu fazer uma leitura dos problemas que os EUA enfrentavam a partir do terror insano criado pelo diretor Tobe Hooper.

A conversa sobre cinema vai longe e é fascinante. Ela traz questões, reflexões e memórias fomentando um olhar apurado, curioso e atento aos sinais. Sobre o PodCast do Canal Claquete a conclusão não poderia ser outra: seja de esquerda, de direita ou puro marketing, o importante é desenvolver interesse e senso crítico para tirar de um filme tudo o que ele pode oferecer.

Carolina Maria Ruy é jornalista, pesquisadora e coordenadora do Centro de Memória Sindical.


[1] Essa perseguição é mostrada em filmes como Testa de Ferro por acaso (1976), de Martin Ritt e Nosso Amor de Ontem (1973), de Sydney Pollack.

[2] Foi um contexto de ampla perseguição nos EUA, não apenas aos artistas, mas em toda a sociedade.

[3] Publicado na Folha de São Paulo em de 19/02/2023.

Leia: "Todo mundo vai ao circo" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/11/uma-cronica-de-abraham-sicsu.html

Arte é vida: Alex Brasil

 

Alex Brasil

Pressão rentista injustificada

Aceleração de 0,62% na inflação não justifica pressão sobre os juros
Economistas consultados pelo Vermelho ressaltam a sazonalidade dos aumentos e a necessidade de respostas alternativas ao problema, em vez da simples contenção do consumo
Cezar Xavier/Vermelho   

A aceleração da inflação no Brasil reacendeu debates sobre a eficácia do aumento das taxas de juros como principal instrumento de controle. O IPCA-15, índice que antecipa a tendência oficial da inflação, subiu 0,62% em novembro, acumulando 4,77% em 12 meses, acima da meta de 3% estabelecida pelo Banco Central (BC). Enquanto analistas do mercado financeiro indicam a necessidade de manter juros elevados, economistas entrevistados pelo Portal Vermelho alertam para as limitações dessa abordagem e apontam causas estruturais para o aumento dos preços.

O papel das condições climáticas e da demanda externa

Para Diogo Santos, economista pela UFMG, o aumento recente da inflação está ligado a fatores específicos, como a pressão sobre alimentos, especialmente carnes, óleo de soja e tomates.

Wellinton Duarte, economista da UFRN, concorda que eventos climáticos extremos, como as queimadas no Sudeste e a seca prolongada, contribuíram para a inflação. Contudo, ele ressalta que outros fatores, como a economia aquecida e o dólar valorizado, também exerceram pressão.

“Os arautos do Apocalipse já espalham o medo sobre o estouro da meta de inflação, vinculando o aumento do índice ao risco fiscal e à incerteza sobre os gastos do governo. Essa narrativa resgata o ‘monstrinho da inflação’ para justificar juros altos e cortes de despesas públicas, ignorando as condições materiais que persistem”, afirmou Duarte. 

Segundo o economista, a manutenção de juros elevados para conter o consumo e reverter a inflação é um “engodo”, pois não ataca as causas estruturais do problema.

O papel das taxas de juros: transferência de renda

Os dois especialistas criticaram a política de juros elevados como resposta padrão à inflação. Para Santos, a elevação da taxa básica de juros transfere rapidamente recursos para o setor financeiro, mas tem baixa eficácia no controle de preços.

“É um remédio que serve mais ao mercado financeiro do que à economia real. Ele desacelera o crescimento, reduz a renda da população e, no final, tem pouco impacto sobre os fatores que realmente estão pressionando a inflação, como os preços dos alimentos e dos combustíveis", argumentou.

Duarte acrescenta que o aumento dos juros atinge desproporcionalmente a população, especialmente em um cenário de inflação provocada por choques de oferta e não pelo excesso de demanda.

Políticas alternativas: o que fazer?

Os economistas defendem uma abordagem mais ampla para enfrentar a inflação, com foco em políticas que aumentem a oferta de alimentos e controlem preços estratégicos, como os de energia e combustíveis.

"É preciso adotar instrumentos que ampliem a produção agrícola e criem mecanismos para estabilizar preços, em vez de insistir em uma política monetária que só agrava a desigualdade”, disse Santos.

Duarte concluiu afirmando que o contexto atual exige uma análise mais complexa e menos imediatista:

"Os juros altos têm um custo social elevado e não resolvem problemas estruturais, como a volatilidade nos preços dos alimentos ou os impactos climáticos. Precisamos de políticas coordenadas que abordem as causas reais da inflação.”

Projeções e expectativas

Com o IPCA-15 acima do esperado em novembro e o mercado projetando inflação de 4,63% para 2024, acima do teto da meta (4,5%), a pressão sobre o BC para manter os juros elevados deve continuar. No entanto, as críticas à política de juros altos ganham força, especialmente a partir do Ministério da Fazenda, destacando a necessidade de soluções estruturais e integradas para lidar com a inflação e seus impactos na economia real.

Leia sobre mercado financeiro e fascismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2022/12/pressao-midiatica-rentista.html

Minha opinião

Fala quem está afundando 
Luciano Siqueira 

Desde que deixou a presidência da República antecipadamente, fugindo para os Estados Unidos para não passar a faixa presidencial a Lula e — sabe-se agora — na expectativa de preservar o poder mediante golpe, o senhor Jair Messias Bolsonaro fala pouco e, quando fala, atravessa a razão e o raciocínio. 

Tem pouco a dizer da realidade concreta, mergulhado que vive no universo paralelo alimentado por seus seguidores no mundo digital. 

Falou agora a propósito da crise motivada pelo ataque do CEO do grupo Carrefour contra a carne exportada do Brasil para a Europa. 

Uma evidente jogada combinada com pecuaristas franceses, que resistem a um hipotético acordo entre o MERCOSUL e a União Europeia. 

O governo brasileiro reagiu à altura e na medida correta. 

Tanto que o chefete do grupo francês já se retratou em nota pública.

Assim mesmo o indigitado capitão acusa o presidente Lula de submissão ao chefe do governo francês em nome de um "globalismo" — que o ex-presidente nem sabe explicar exatamente do que se trata — que nos colocaria (sic) em posição subalterna na relação com a Europa. 

Conversa para boi dormir, literalmente. Mero estrebucho de quem se vê a cada dia mais atolado no poço de areia movediça que ele próprio criou com suas diatribes no exercício do governo.

Leia: "Entre a prisão e a fuga" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/11/minha-opiniao_22.html

Humor de resistência: Céllus

 

Céllus