29 agosto 2025

Palavra de poeta

palavras
Larissa Marques 

entoaria grandes versos se tivesse algum

diria grandes palavras movediças

se meu peito fosse algum pântano

ensinaria ao meu filho sobre amores

se soubesse o caminho certo

 

ah, nessa madrugada muitas flores morrerão

meu peito murchará, fino botão

de pétala em pétala chorará dores

tal lágrimas de orvalho nesse tempo angustiado

onde está a sabedoria das coisas ínfimas e planas?

 

sinto o alvorecer calmo e ele está fora de mim

estarei só mais uma vez diante de tudo

prisioneira da falta de lógica do ansiar

do desequilíbrio das linhas ferozes e do tempo

e eu anseio mais que todos

 

o verbo é ancião de passagem

e eu perdi suas verdades.


[Ilustração: Joan Miró]A felicidade a conta-gotas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_13.html 

China + Índia

China e Índia fortalecem a interação: uma escolha racional em um mundo multipolar

Global Times


O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, visitará a China e participará da Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) 2025, em Tianjin, de 31 de agosto a 1º de setembro. Esta será a primeira visita do primeiro-ministro indiano à China após sete anos, marcando uma mudança nas relações China-Índia de um período de esfriamento diplomático para um ciclo lento, mas constante, de recuperação. A participação ativa da Índia na Cúpula da SCO em Tianjin reflete seu reposicionamento da estrutura de cooperação multilateral. Nos últimos meses, uma série de acontecimentos – desde soldados trocando doces ao longo da fronteira com o Himalaia até a retomada da rota de peregrinos indianos para a Região Autônoma de Xizang, no sudoeste da China, e o anúncio de que voos diretos entre os dois países poderiam ser retomados o mais breve possível – sinalizam que os dois principais países estão fortalecendo a interação por ocasião do 75º aniversário do estabelecimento de laços diplomáticos.

A atual fase de recuperação das relações China-Índia é impulsionada principalmente por necessidades estratégicas compartilhadas. Desde o incidente do Vale de Galwan, ambos os lados têm consumido recursos consideráveis ​​no gerenciamento de tensões na fronteira. Cada vez mais, ambos os países reconhecem que alocar recursos limitados para o desenvolvimento econômico e prioridades estratégicas mais urgentes – em vez de disputas intermináveis ​​de fronteira – é a escolha mais racional. Este mês, as duas partes chegaram a 10 pontos de consenso sobre a questão das fronteiras, e a reunião dos chanceleres alcançou 10 resultados, mantendo a comunicação por canais diplomáticos e militares e evitando atritos desnecessários. Particularmente, no contexto da lenta recuperação econômica global, ambos os países precisam de um ambiente estável para promover reformas internas e crescimento econômico. Em 2024, o comércio bilateral atingiu US$ 138,478 bilhões, um aumento de 1,7% em relação ao ano anterior. As decisões bilaterais de retomar voos diretos, agilizar os procedimentos de visto, retomar o comércio fronteiriço e outras medidas indicam que a cooperação econômica e comercial está prestes a entrar na trajetória normal.

O aquecimento das relações China-Índia também está intimamente relacionado a profundas mudanças no cenário geopolítico global. Desde o início de 2025, a turbulência internacional se intensificou: o impasse prolongado no conflito Rússia-Ucrânia, as crescentes crises no Oriente Médio e as grandes mudanças na política interna e externa dos EUA tiveram impactos de longo alcance na ordem global. A política externa dos EUA mudou de "apoio a aliados" para "diplomacia transacional" e, em alguns casos, até adotou uma postura de extrair benefícios às custas de aliados e parceiros, o que piorou diretamente as relações EUA-Índia. Em seu discurso no Dia da Independência, o primeiro-ministro indiano disse que "Modi se manterá firme contra qualquer política que ameace seus interesses. A Índia jamais fará concessões quando se trata de proteger os interesses de nossos agricultores". De acordo com autoridades indianas, a Índia também está promovendo uma estratégia de diversificação comercial com pelo menos 40 países. Essa autonomia estratégica ressoa com a política externa independente defendida pela China e, juntas, constituem a força motriz endógena para a melhoria das relações entre os dois países.

A mídia ocidental está ansiosa para exagerar o "aquecimento" das relações China-Índia e, de forma simplista, atribuí-lo às tarifas americanas sobre a Índia, especulando sobre uma suposta "aliança anti-EUA". Tais narrativas interpretam erroneamente a independência das políticas externas da China e da Índia. Um comentário da CNN apontou parte da verdade: "A recalibração dos laços da Índia com a China é uma aplicação clássica de sua política de autonomia estratégica, que prioriza os interesses nacionais em detrimento da fidelidade rígida ao bloco". O que deixa alguns veículos de comunicação americanos inquietos com a perspectiva de "o dragão e o elefante dançando juntos" é essencialmente um resquício da mentalidade da Guerra Fria. Quando Washington critica a Índia por comprar petróleo russo, a implicação é que quer que a Índia "escolha um lado" – a mesma lógica por trás da inclusão da Índia no Quad, a chamada parceria quadrilateral entre EUA, Japão, Austrália e Índia. O objetivo nada mais é do que transformar a Índia em um peão na chamada "Estratégia Indo-Pacífica" de Washington para conter a China. Os fatos demonstram que essas pequenas facções políticas não se alinham com a busca de Nova Déli por autonomia estratégica total.

Na era atual de frequentes desafios globais, laços mais estreitos entre China e Índia não são apenas uma escolha racional, mas também uma responsabilidade compartilhada. Olhando para a história, a Índia foi um dos primeiros países a estabelecer relações diplomáticas com a República Popular da China. Há mais de 70 anos, China, Índia e outros países defenderam conjuntamente os Cinco Princípios da Coexistência Pacífica, que permanecem uma norma básica das relações internacionais. Hoje, como os "motores gêmeos" do crescimento econômico da Ásia, representantes-chave do Sul Global e membros da OCX, BRICS e G20, China e Índia compartilham a missão de impulsionar a ordem internacional em direção a uma maior democracia e justiça. Suas interações e cooperação dentro dos mecanismos existentes visam alcançar benefícios mútuos e resultados vantajosos para todos, o que é um fenômeno natural no processo de construção de um mundo multipolar e uma aspiração legítima das potências emergentes que buscam uma voz mais forte.

A visita de Modi à China oferece uma rara janela de oportunidade para aprimorar as relações entre China e Índia. Observadores observam que os dois principais países estão agora se esforçando para administrar seus laços como "parceiros em vez de rivais". Embora persistam desafios nas relações bilaterais, a disposição de ambas as partes para uma cooperação pragmática introduz uma variável positiva no equilíbrio estratégico global. No 75º aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas entre a China e a Índia, espera-se que Nova Déli implemente com seriedade o importante consenso dos líderes dos dois países, escreva um novo capítulo da "dança do dragão e do elefante" com uma mentalidade mais aberta e inclusiva e faça as devidas contribuições como países importantes para a paz, a estabilidade e a prosperidade mundiais.

[Se comentar, identifique-se]

Poderá a IA gerar uma recessão global? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/ia-incertertezas-do-mercado.html

Sylvio: contraste

Enquanto Trump tenta abusivamente interferir no julgamento de Bolsonaro pela Justiça brasileira, o renomado jornal inglês The Economist diz que o julgamento é uma lição de democracia.

Sylvio Belém 

Leia: Operação insidiosa das big tech https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/operacao-insidiosa-das-big-tech.html 

Quem é você?

 


*Para inserir sua opinião sobre qualquer conteúdo publicado aqui no blog, clique sobre a palavra "comentários", abaixo. 

*Toda vez que postar seu comentário sua assinatura importa. 

*Será ótimo que assine ao final do texto para que possamos publicar o que você escreveu. 

Ilustração: Tarsila do Amaral

Blog de Luciano Siqueira 
www.lucianosiqueira.blogspot.com 

28 agosto 2025

Uma crônica de Antônio Maria

Uma velhinha

Antônio Maria  

Quem me dera um pouco de poesia, esta manhã, de simplicidade, ao menos para descrever a velhinha do Westfália! É uma velhinha dos seus setenta anos, que chega todos os dias ao Westfália (dez e meia, onze horas), e tudo daquele momento em diante começa a girar em torno dela. Tudo é para ela. Quem nunca antes a viu, chama o garçom e pergunta quem ela é. Saberá, então, que se trata de uma velhinha "de muito valor", professora de inglês, francês e alemão, mas "uma grande criadora de casos".

Não é preciso perguntar de que espécie de casos, porque, um minuto depois, já a velhinha abre sua mala de James Bond, de onde retira, para começar, um copo de prata, em seguida, um guardanapo, com o qual começa a limpar o copo de prata, meticulosamente, por dentro e por fora. Volta à mala e sai lá de dentro com uma faca, um garfo e uma colher, também de prata. Por último o prato, a única peça que não é de prata. Enquanto asseia as "armas" com que vai comer, chama o garçom e manda que leve os talheres e a louça da casa. Um gesto soberbo de repulsa.

O garçom (brasileiro) tenta dizer alguma coisa amável, mas ela repele, por considerar (tinha razão) a pronúncia defeituosa. E diz, em francês, que é uma pena aquele homem tentar dizer todo dia a mesma coisa e nunca acertar. Olha-nos e sorri, absolutamente certa de que seu espetáculo está agradando. Pede um filet e recomenda que seja mais bem do que malpassado. Recomenda pressa, enquanto bebe dois copos de água mineral. Vem o filet e ela, num resmungo, manda voltar, porque está cru. Vai o filet, volta o filet e ela o devolve mais uma vez alegando que está assado de mais. Vem um novo filet e ela resolve aceitar, mas, antes, faz com os ombros um protesto de resignação.

Pela descrição, vocês irão supor que essa velhinha é insuportável. Uma chata. Mas não. É um encanto. Podia ser avó da Grace Kelly. Uma mulher que luta o tempo inteiro pelos seus gostos. Não negocia sua comodidade, seu conforto. Não confia nas louças e nos talheres daquele restaurante de aparência limpíssima. Paciência, traz de sua casa, lavados por ela, a louça, os talheres e o copo de prata. Um dia o garçom lhe dirá um palavrão? Não acredito. A velhinha tão bela e frágil por fora, magrinha como ela é, se a gente abrir, vai ver tem um homem dentro. Um homem solitário, que sabe o que quer e não cede "isso" de sua magnífica solidão.

[Se comentar, identifique-se]

Coisas que acontecem https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/01/minha-opiniao_28.htm 

Postei nas redes

Como é mesmo, Lula antecipa a campanha eleitoral porque se pronuncia sobre problemas candentes do mundo e da nação? Eita mídia sacana!

Leia: "Fala, presidente!" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_18.html 

Até os rentistas reconhecem

Brasil na capa da Economist: Julgamento de Bolsonaro 'dá lição aos EUA de maturidade democrática'
Julia Braun/BBC Brasil em Londres 

O ex-presidente Jair Bolsonaro e o julgamento da ação penal na qual ele é acusado de liderar uma suposta tentativa de golpe de Estado são o foco da capa da revista britânica The Economist desta semana.

Na publicação, o ex-presidente é retratado com o rosto pintado com as cores do Brasil e com um chapéu igual ao que usava o "viking do Capitólio", um dos apoiadores do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que ficou conhecido por ter participado assim da invasão ao Congresso americano em 6 de janeiro de 2021.

Em suas páginas, a revista traz uma longa reportagem sobre a trajetória política brasileira e a investigação contra Bolsonaro e seus aliados.

Em um segundo texto, com tom opinativo, a Economist discute ainda as diferenças entre a forma como os Estados Unidos lidaram com as ameaças contra a sua democracia, após os ataques ao Capitólio em 2021, e a conduta adotada pelo Brasil nos últimos meses.

Com o título "Brasil oferece aos Estados Unidos uma lição de maturidade democrática", o editorial descreve a condução do processo penal contra Bolsonaro e seus aliados como uma "fantasia da esquerda americana". 

"Os Estados Unidos estão se tornando mais corruptos, protecionistas e autoritários — com Donald Trump, esta semana, mexendo com o Federal Reserve (Fed) e ameaçando cidades controladas pelos democratas. Em contraste, mesmo com o governo Trump punindo o Brasil por processar Bolsonaro, o próprio país está determinado a salvaguardar e fortalecer sua democracia", diz a Economist.

A revista britânica descreve ainda Jair Bolsonaro como "polarizador" e o "Trump dos trópicos" e afirma que o ex-presidente brasileiro e "seus aliados, provavelmente, serão considerados culpados" pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Ainda segundo o texto, o plano contra a democracia brasileira pelo qual Bolsonaro é acusado "fracassou por incompetência, e não por intenção".

Bolsonaro e todos os outros acusados negam as acusações. O julgamento está marcado para começar na próxima terça-feira (2/9). 

As similaridades e diferenças apontadas pela revista entre Brasil e Estados Unidos se debruçam especialmente no fato de tanto Bolsonaro quanto o presidente americano Donald Trump terem sido acusados de agir para reverter o resultado de uma eleição, divulgar informações falsas sobre fraude e incitar seus apoiadores a invadirem prédios públicos para impedir a posse de seus adversários políticos.

No caso americano, Trump se tornou réu em ações estaduais e federais por suas ações após sua derrota na eleição presidencial de 2020 para o democrata Joe Biden.

Segundo uma das acusações, ele teria espalhado "mentiras de que houve fraude" e conspirado para mudar ilegalmente a eleição a seu favor, levando eventualmente à invasão da sede do Congresso americano. Trump refutou as alegações.

Quando os casos foram abertos, o republicano já se preparava para ser candidato às eleições de 2024, e os processos não chegaram a ser concluídos antes de ele voltar à Casa Branca no início deste ano, após derrotar a democrata Kamala Harris nas urnas.

Trump não foi acusado de sedição — possibilidade que era a principal ameaça à sua candidatura, já que a 14ª Emenda da Constituição proíbe quem "tiver se envolvido em insurreição ou rebelião" contra o governo de ocupar cargos civis ou militares em gestões federal ou estadual. E como não há instrumento similar à Lei da Ficha Limpa brasileira nos EUA, os indiciamentos não afetaram a campanha do americano.

O atual presidente dos EUA ainda foi julgado pelo Congresso em dois processos de impeachment em 2021, após o fim do seu primeiro mandato, mas foi absolvido pelo Senado americano. O efeito prático de uma condenação naquele momento poderia ser a perda de seus direitos políticos.

Quando trump assumiu os processos foram extintos, após a Suprema Corte dos Estados Unidos decidir que ex-chefes de Estado têm imunidade absoluta contra processos por ações tomadas oficialmente como presidente durante o mandato.

Logo após sua posse no início deste ano, Trump anunciou sua decisão de perdoar ou atenuar as sentenças de quase 1,6 mil pessoas envolvidas na invasão do Capitólio. 

Já Bolsonaro foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2023 por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação durante reunião realizada no Palácio da Alvorada com embaixadores estrangeiros em 2022.

No julgamento previsto para a próxima semana, o ex-presidente brasileiro é acusado de cinco crimes relacionados a um suposto plano de golpe de Estado para impedir Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de assumir o poder após as eleições de 2022.

Entre os crimes imputados ao ex-presidente estão liderança de organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.

Os dois últimos se referem aos ataques de 8 de janeiro de 2023 contra as sedes dos Três Poderes da República. Na ocasião, milhares de apoiadores radicais de Bolsonaro, insatisfeitos com a eleição e posse do presidente Lula, invadiram e depredaram o Palácio do Planalto, o Congresso e o STF — em um episódio amplamente comparado ao que aconteceu em 2021 em Washington. 

O que o Brasil pode ensinar aos EUA, segundo a Economist

Segundo a Economist, o Brasil é "um caso de teste de como os países se recuperam de uma febre populista".

"Na Polônia, dois anos após a perda do poder do partido Lei e Justiça (PiS), uma coalizão liderada por Donald Tusk, um centrista, está sendo limitada por um novo presidente do PiS. No Reino Unido, o Brexit agora é impopular, mas Nigel Farage, o político que o inspirou, lidera nas pesquisas. Nem mesmo o massacre do Hamas em 7 de outubro de 2023 conseguiu tirar Israel de suas amargas divisões".

Mas, segundo o texto, o país que mais viveu momentos semelhantes ao Brasil é os Estados Unidos. E de acordo com a publicação britânica, as duas nações "parecem estar trocando de lugar".

Para a Economist, o passado recente com uma ditadura militar pode ajudar a explicar porque a reposta às ameaças à democracia em território brasileiro foi mais forte.

"Além disso, a maioria dos brasileiros não tem dúvidas sobre o que Bolsonaro fez. A maioria acredita que ele tentou dar um golpe para se manter no poder", diz a revista, afirmando ainda que mesmo os políticos conservadores do país, que precisarão dos votos dos apoiadores de Bolsonaro para vencer as eleições de 2026, criticam o "estilo político" do ex-presidente.

E, segundo a publicação, esse "reconhecimento abriu a oportunidade de reforma" no Brasil, pois "a maioria dos políticos brasileiros, tanto de esquerda quanto de direita, quer deixar para trás a loucura de Bolsonaro e sua polarização radical".

O papel do STF

Mas segundo a Economist, um dos pontos-chave para uma mudança institucional no país passa pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que é descrito pela revista como "guardião da democracia brasileira".

O editorial afirma que a corte "supervisiona uma gama estonteante de regras, direitos e obrigações" e pode receber casos de grupos que vão de sindicatos a partidos políticos.

O texto cita ainda o caso conhecido como Inquérito das Fake News, aberto pelo STF para investigar notícias falsas e ameaças contra os membros da Corte e seus familiares. Segundo a revista, os próprios magistrados abriram o caso, tornando-se ao mesmo tempo "vítima, promotor e juiz".

"Para lidar com uma carga de trabalho de 114.000 decisões somente em 2024, a maioria das decisões vem de juízes individuais. Há amplo reconhecimento de que juízes não eleitos, com tanto poder, podem corroer a política, bem como salvá-la de golpes. Os próprios juízes veem a necessidade de mudança."

A Economist segue afirmando que "consertar" o STF "será difícil", mas que há mais obstáculos para uma reforma no Brasil, como uma "incontinência fiscal crônica, em particular isenções fiscais descontroladas e aumentos automáticos de gastos" e a polarização nacional.

"Mesmo que as elites queiram mudanças, o Brasil ainda é um país profundamente dividido. Bolsonaro tem apoiadores fanáticos que causarão problemas, especialmente se o tribunal impor uma sentença severa. Reformar o Supremo Tribunal Federal e a Constituição exige que grupos abram mão do poder em prol do bem comum", diz o editorial.

Por isso, tensões seriam inevitáveis. "Mas, ao contrário de seus colegas nos Estados Unidos, muitos dos políticos tradicionais do Brasil, de todos os partidos, querem seguir as regras e progredir por meio de reformas."

Segundo a Economist, essas são as marcas da maturidade política. "Pelo menos temporariamente, o papel do adulto democrático do hemisfério ocidental mudou para o sul." 

Estratégia de Trump 'sairá pela culatra'

Outro empecilho na trajetória do Brasil apontado é o presidente americano Donald Trump, que como lembra a revista, acusou o STF de uma "caça às bruxas" contra Bolsonaro, impôs tarifas de 50% sobre as importações brasileiras nos EUA e decretou sanções contra o ministro Alexandre de Moraes.

Segundo a Economist, essa interferência "faz lembrar de uma época passada e desagradável, quando os Estados Unidos habitualmente desestabilizavam os países latino-americanos".

Mas, de acordo com a revista, a estratégia de Trump "provavelmente sairá pela culatra".

"Apenas 13% das exportações brasileiras vão para os Estados Unidos, e consistem principalmente de commodities, para as quais novos mercados podem ser encontrados. Os EUA já concederam inúmeras isenções. Até agora, os ataques de Trump apenas fortaleceram a posição de Lula nas pesquisas de opinião e lhe deram uma desculpa para qualquer notícia econômica ruim antes da próxima eleição, em outubro de 2026."

O que a Economist já disse sobre o Brasil

Esta não é a primeira reportagem da britânica Economist sobre o atual momento político brasileiro. Tampouco é a primeira capa dedicada pela publicação ao Brasil.

Em textos anteriores, a revista já tratou da posição do presidente Lula após ser atacado pelo presidente americano Donald Trump e alertou sobre o peso que as taxas anunciadas pelo republicado podem acabar pesando no bolso dos consumidores americanos.

Em 2009, 2013 e 2016, capas da publicação também trataram da situação política e econômica do Brasil.

A primeira capa retratava um momento em que as avaliações sobre a economia brasileira viviam um momento bom, com o título "Brasil decola". Quatro anos depois, em uma referência à reportagem anterior, a manchete da revista questionava se o país havia "estragado tudo", em meio a uma desaceleração do crescimento econômico.

Em 2015, uma outra capa previa um ano seguinte 'desastroso' para o Brasil, em meio ao governo da ex-presidente Dilma Rousseff.

Ilustração: Capa da revista britânica The Economist: "O que o Brasil pode ensinar aos EUA"

Leia também Convergência necessária e possível https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_15.html