21 abril 2014

A quem servia?

Especuladores e agiotas tiveram imensos ganhos financeiros com "a estabilidade monetária de FHC", tão decantada pelos tucanos, comprando títulos públicos que lhes rendiam até 27%!

Palpite infeliz

Presunçosa parcialidade 

Colunista político sentencia, com presunçosa arrogância e indisfarçável parcialidade: Espera-se o crescimento das oposições quando tiver início a campanha no rádio e na televisão.” Há que se perguntar: Por que só a oposição pode crescer?

Ora, governos diariamente torpedeados pela oposição e pela mídia, têm a chance de apresentarem ao eleitor o conjunto da obra justamente durante a campanha. Nos programas de TV e rádio. E na Internet.

Lula, como na Prefeitura do Recife João Paulo, cresceram em avaliação justamente na campanha porque tiveram espaço para se apresentarem aos eleitores. Pode acontecer igualmente com Dilma.

Candidatos oposicionistas, hoje, têm generosos espaços no noticiário – raramente com matérias negativas. Colunistas políticos e da área econômica fazem campanha aberta. Não permitem que o cidadão comum tenha acesso “aos dois lados”.

Mas na campanha, as coisas mudam. Não se igualam, mas a distorção da realidade diminui seu espaço. (LS)

Prenda

Di Cavalcanti
A segunda-feira é de Dorival Caymmi: "Para te enfeitar,/Eu trouxe as conchinhas do mar/As estrelas do céu/Morena" 

A vida do jeito que é

A gratidão da viúva
Marco Albertim, no Vermelho

As núpcias do professor Cambeba não tiveram a trilha sonora própria das noites insones de arrulhos e queixumes. Os dois, Cambeba e a viúva do feitor, olharam-se quase perplexos depois de pendurarem as roupas no cabide da parede.

Não apagaram a luz no pequeno abajur lilás, fixo no teto da mesma cor; também as quatro paredes do quarto exibiam o arroxeado lilás, semelhante ao terno de uso costumeiro do feitor. Cambeba e a viúva se atracaram antes de fazerem uso da cama de caviúna, trazida do engenho pelo feitor, depois de abrigar a ancestralidade da família. Atracaram-se para se vingar da tardança do casamento. Desconfiados de que o cansaço poderia frustrar os desígnios da vindita, atiraram-se na cama sem medo de que a caviúna, também a caviúna, soltasse um gemido de vingança.

Toda Goiana dormiu depois de sussurrar o casamento temporão de Arnaldo Cambeba com Eulália Rabelo. Os dois, devorando-se sobre a cambraia do lençol, rugiram protegidos pela alvenaria compacta separando as casas vizinhas, conjugadas. Os sussurros mais próximos dali, na rua do Amparo, juntaram-se ao frenesi ruidoso do casal, dando conta de uma trilha sonora prenhe de promessas e agouros.

Cambeba foi o primeiro a se levantar da cama, ainda zonzo dos espasmos da viúva em seus ouvidos. Não creu-se de todo num lugar seu, ou dado a si pela sorte que há seis anos fora injusta com ele, e agora se mostrava generosa. Olhou para o relógio no pulso; os ponteiros indiferentes apontavam para as cinco horas e quinze minutos, mesmo horário em que, na semana anterior, na estreiteza de sua cama de solteiro, conjeturara sobre a morte prematura do feitor, e seu casamento apressado com a viúva respirando aliviada a alforria enfim obtida.

Assim, Cambeba olhou-se no espelho ao lado da cama e viu o próprio rosto refletido; o bigode ralo, no entanto, deu a impressão de se encrespar ou de ter na ponta de cada fio, um estilete pronto a furar os olhos de quem se pusesse a espreitá-lo. Desviou os olhos do espelho, para não se crer observado como fora no cemitério, pela carantonha espectral do feitor. Eu sou materialista, grunhiu sem supor que a viúva sua mulher, já o espreitava com a mesma desconfiança de que o falecido não se dera por satisfeito por ter lhe concedido o status de viúva, com direito a papel passado pelo cartório.

Outra vez de frente ao espelho, o bigode de Arnaldo Cambeba engrossou, quase escondendo os orifícios das narinas. O espelho mostrou a perplexidade dos olhos; a boca, em vez de mostrar o esgar do espanto, contraiu-se entre um riso mal escapado e a severidade convulsa. Os mesmos traços do feitor Múcio Rabelo, quando confrontado com a pregação de um levante camponês, como único meio para pôr fim ao mando dos senhores de engenho.

- Volte para a cama – a viúva chamou-o.

- Seu marido usava muito este espelho?

- Sempre que ia para o engenho.

- Mas na missa, ele tinha os cabelos com uma ou duas mechas na testa.

- Ele não gostava do padre Hercílio. Dizia que o padre Hercílio tinha parte com subversivos.

- Seu marido era tão fascista que fechava os ouvidos para não ouvir o sermão de padre Hercílio no púlpito. Temia que viesse dali um discurso incendioso.

Eulália Rabelo vivera seis anos sorvendo a respiração azeda, de tabacaria, que o feitor sempre deixava escapar na voz e no sono turbulento. Inda que contrariando seus desígnios de quando fora solteira e, às escondidas dos pais, fomentando em Cambeba as chances de um casamento impossível, deixara-se moldar pelos hábitos de fanfarrice do marido. Não convinha, portanto, esconder dos convivas da casa, a solenidade do casamento com o professor Arnaldo Cambeba.

Assim, convidara para a cerimônia, o juiz Herculano Santoro, tão magro quanto a preguiça de emitir um mandado de soltura, ainda que o preso já tivesse cumprido a pena.O promotor Charles Droit, de rosto incendido feito um alemão nazista. O tenente Câmara, chefe do Tiro de Guerra, zeloso da cartilha do 1º de abril. O delegado de polícia, Mantilha Cedrado, tão calado quanto a solene indiferença aos maus tratos infligidos aos presos da cadeia. E o prefeito Miguel Parelha, mantenedor de mais de uma dezena de mulheres, cujos filhos tinham as despesas pagas pelo pai, inda que não fossem agraciados pelos bens hereditários, porque o velho tinha o cuidado de pôr os imóveis em nome dos netos de seu casamento principal. Convidados e a família, todos com a pompa tão ao gosto do finado Múcio Rabelo.

Arnaldo Cambeba nada dissera, sujeito ao mando e às despesas por conta da herança na conta bancária da viúva.

Os convidados voltaram à convivência na casa onde o feitor se sentara na cabeceira da mesa de refeições.

No Dia de Finados, Cambeba foi ao cemitério ao lado da viúva. Eulália Rabelo, com severidade de matrona, depôs sob a laje do túmulo do finado marido, uma coroa de flores. No meio, uma faixa escrita – A gratidão de Eulália e Cambeba.

O rosto austero do finado tornou-se frequente no espelho do quarto, sempre que Cambeba se espreitava conjeturando sobre o futuro com a viúva do feitor.

Não demorou e ele viu, na parede ao fundo da cabeceira da mesa de refeições, o retrato de Múcio Rabelo na moldura antiga, sem hesitar em mostrar os fios do bigode.

Garcia Márquez repórter

Gabo e um milagre chamado Vietnã 

Flávio Aguiar, na Carta Capital

A leitura de Vietnam Wars me despertou para um outro Gabo, tão fascinante quanto o primeiro. Tratava-se do Gabo jornalista, repórter, no caso, do Vietnã.

No dia 29 de maio de 1980 a revista Rolling Stone publicou um artigo do jornalista Gabriel Garcia Marquez, ‘The Vietnam Wars’. O artigo fascinou-me tanto quanto a leitura de Cem anos de solidão, mais de uma década antes, na impecável tradução de Eliane Zagury. A leitura deste livro levou-me ao encontro – abrindo o caminho – para um dos escritores mais ilustres, criativos, generosos e combativos que já pude ler.


Garcia Marquez era de uma estirpe particular de escritores, os ‘criadores de mundos’. É claro que todo o escritor cria o seu mundo; mas alguns o fazem criando um mundo particular, fictício e real, mas só deles, com os quais se identificam e por eles são identificados. Juan Rulfo e Comala; Joseph Conrad e Costaguana; Erico Verissimo e Santa Fé e mais Antares; Monteiro Lobato e o sítio do Picapau Amarelo, somente para dar alguns exemplos.

Foi e é dos escritores latino-americanos mais expressivos do que veio a se chamar, talvez um tanto imporprieamente, de ‘realismo mágico’, na esteira do que Alejo Carpentier batizou de modo mais preciso de ‘real maravilhoso’. Gabo (seu apelido, apócope de Gabriel) tornou-se um escriotor maravilhado, maravilhoso e maravilhante: maravilhado pela história de seu continente; maravilhoso pela qualidade e pelo fôlego; maravilhante porque quase sempre fascina o leitor pelos mundos que cria e pela riqueza humana de personagens como o Coronel Aureliano Buendía.

Porém a leitura de ‘Vietnam Wars” me despertou para um outro Gabo, tão fascinante quanto o primeiro. Tratava-se do Gabo jornalista, repórter, no caso, do Vietnã do pós-guerra, o país que restara dilacerado entre os escombros do antigo regime de sul, as feridas abertas deixadas pelo napalm, pelos bombardeios, pela implacável Operação Phoenix sob a batuta dos Estados Unidos, que dizimara os melhores quadros do sul do país.

O texto de Gabriel é claro, sucinto, preciso, amplo, captando todas as tragédias humanas e a dolorosa luta pela sobrevivência e pelo reerguimento do país devastado – mas não dobrado. O ponto alto e constante do artigo é a constatação do contraste entre os sul, onde se aglomera uma burguesia que perdeu o poder mas não a riqueza, atrás de uma rota de fuga irregular, os traficantes que abrem a rota, os piratas no mar do sul da China que assaltam os navios, e o norte, menos destruído, mas impotente para alavancar de modo rápido a recuperação daquele sul.

Gabo analisa com maestria o modo como a mídia do Ocidente criou a falsa imagem que o norte comunista e desalmado estava literalmente “jogando” as vítimas do sul pelo mar a fora, e chega a conclusão que os vencedores da guerra militar estavam sendo derrotados – também pela própria imprevidência – por uma outra guerra, a da informação.

Mas como tudo que Gabo tocava adquiria a consistência do maravilhoso, também não dava – nem dá agora, na releitura cheia de saudade – para desprezar o esforço titânico daquele povo,  atacado por todos os lado, ainda se acreditando ameaçado por uma nova guerra (desta vez seria com a China, ameaça que felizmente não se concretizou), esforço majestoso para renascer das próprias cinzas, e assim derrotar, mais uma vez, a Operação Phoenix, fazendo de si mesmo uma Fênix de verdade.


Obrigado, Gabo.

20 abril 2014

Cumplicidade

Vincent Van Gogh
O domingo é de Mario Benedetti: “Você está chegando a meu lado,/E a noite é um punhado/De estrelas e de alegria.”

19 abril 2014

Ação do SUS

Mais de 3,4 milhões de meninas já foram vacinadas contra HPV 

O número representa 83% da meta do Ministério da Saúde de vacinar 4,1 milhões de meninas de 11 a 13 anos. A vacina está disponível nos postos de saúde durante todo o ano

No primeiro mês de vacinação contra HPV, período em que o foco da mobilização foi nas escolas públicas e privadas de todo o país, mais de 3,4 milhões de meninas já foram imunizadas contra o vírus. O número representa 83% da meta do Ministério da Saúde, que é vacinar 4,1 milhões de adolescentes na faixa etária de 11 a 13 anos, até o final do ano.

Na segunda etapa, que inicia nesta sexta-feira (11) o foco será nos postos de saúde de todo o país. Durante todo o ano, a vacina contra HPV estará disponível nas 36 mil salas espalhadas pelo país.

Utilizada na prevenção do câncer do colo do útero, a vacina passou a ser ofertada gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS) para meninas de 11 a 13 anos em 10 de março. O esquema de vacinação é composto por três doses: a segunda será aplicada com intervalo de seis meses e a terceira, de reforço, cinco anos após a primeira dose. Em 2015, serão vacinadas as adolescentes de 9 a 11 anos e, em 2016, começam a ser imunizadas as meninas que completam 9 anos.

“Este quantitativo de crianças vacinadas, em apenas um mês, é resultado do esforço de estados e municípios que seguiram a recomendação do Ministério e realizaram a mobilização nas escolas”, ressaltou o ministro da Saúde, Arthur Chioro. Segundo o ministro, como a estratégia deve continuar em algumas escolas, é importante que pais e responsáveis se informem sobre até quanto deve prosseguir a vacinação.

SEGURANÇA - A vacina utilizada no Brasil é segura, recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e usada como estratégia de saúde pública em 51 países. O Comitê Consultivo Mundial sobre Segurança das Vacinas, responsável por prestar assessoramento científico à OMS, reiterou a segurança da vacina contra o HPV durante reunião realizada em março deste ano. Desde o lançamento desta vacina, em 2006, mais de 170 milhões de doses foram aplicadas no mundo.

Para o primeiro ano, o Ministério da Saúde adquiriu 15 milhões de doses. A vacina utilizada é a quadrivalente, que confere proteção contra quatro subtipos (6, 11, 16 e 18) do HPV, com eficária de 98%. Os subtipos 16 e 18 são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer de colo do útero em todo mundo.

A vacinação é o primeiro de uma série de cuidados que a mulher deve adotar para a prevenção do HPV e do câncer do colo do útero. Ela não substitui a realização do exame preventivo e nem o uso do preservativo nas relações sexuais. O Ministério da Saúde orienta que mulheres na faixa etária dos 25 aos 64 anos façam o exame preventivo, o Papanicolau, a cada três anos, após dois exames anuais consecutivos negativos.

O Ministério da Saúde iniciou em março a veiculação da campanha publicitária para orientar a população sobre a importância da prevenção contra o câncer do colo de útero em TV, rádios e jornais. Com o tema “Cada menina é de um jeito, mas todas precisam de proteção”, as peças convocam as adolescentes para se vacinar e alertam as mulheres sobre a prevenção. Estimativas indicam que 270 mil mulheres, no mundo, morreram devido ao câncer de colo do útero. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) prevê o surgimento de 15 mil novos casos e cerca de 4,8 mil óbitos, em decorrência da doença, apenas neste ano.
Fonte: Agência Saúde