30 maio 2023

Yuan x Dólar

Como a China está expandindo influência do yuan na América Latina em meio a disputa global com EUA

Gerardo Lissardy/BBC

 

Talvez você não veja isso nos preços de carros ou eletrodomésticos do país, mas o yuan, a moeda que a China promove como alternativa ao dólar, está abrindo um espaço crescente na América Latina.
Alguns sinais disso surgiram nas últimas semanas.
Na Argentina, o governo anunciou no mês passado que suas compras da China passariam a ser pagas em yuans em vez de dólares, para preservar suas enfraquecidas reservas internacionais.
E aqui no Brasil, onde o yuan superou o euro como segunda maior moeda de reserva externa, o governo também anunciou um acordo para negociar com a China nas moedas dos dois países e evitar recorrer ao dólar.
Essas mudanças em duas das maiores economias latino-americanas são apontadas pelo presidente boliviano, Luis Arce, como parte de uma "tendência" regional à qual seu país pode aderir.
Mas também é visto por especialistas como reflexo do compromisso da China em tornar sua moeda mais internacional, em meio à luta cada vez mais intensa com os Estados Unidos.
"Existem vários mecanismos que a China pode usar para introduzir sua moeda em diferentes mercados; é um fenômeno regional, não algo exclusivo do Brasil e da Argentina", diz Margaret Myers, diretora do programa da Ásia e América Latina do Diálogo Interamericano, um centro de análises regional com sede em Washington, nos Estados Unidos.
No entanto, ela adverte em entrevista à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) que ainda não se sabe até onde chegará esse impulso da moeda asiática.

"Uma Estratégia Chinesa"

Pequim demonstrou sua intenção de aumentar a presença do yuan na América Latina na última década, depois de se tornar um importante parceiro comercial na região e uma fonte de financiamento para alguns países.
Em 2015, as autoridades chinesas assinaram acordos de investimento e câmbio com o Chile, onde anunciaram a abertura do primeiro banco de compensação de yuans na América Latina.
Alguns meses depois, fizeram o mesmo na Argentina.
O objetivo dessas instituições, também conhecidas como clearing houses – ou câmaras de compensação –, é facilitar as transações internacionais entre a moeda local e o yuan, sem a necessidade de passar pelo dólar, como costuma acontecer.
Em fevereiro, após acordos de compensação de yuans em outras regiões, a China anunciou a mesma medida no Brasil, seu maior parceiro comercial na América Latina com uma troca bilateral que em 2022 atingiu um recorde de US$ 150 bilhões (cerca de R$ 750 bilhões).
Operado pelo Banco Industrial e Comercial da China, um importante ator financeiro que garante aos empresários brasileiros a conversão imediata para reais dos negócios fechados em yuan, o mecanismo compensatório no Brasil processou sua primeira operação de liquidação internacional em moeda asiática em abril.
Com um volume considerável de câmbio bilateral, esse mecanismo teoricamente pode tornar as operações em yuan mais atrativas porque evita a dupla conversão em dólar, explica Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil.
"É uma estratégia chinesa tentar tornar sua moeda conversível e mais amplamente utilizada", declara Barral à BBC News Mundo.
Mas ele destaca que mais de 90% do comércio exterior brasileiro ainda é feito em dólares.
Embora o yuan possa ganhar mais peso como segunda moeda nas reservas internacionais do Brasil com acordos recentes, ainda é marginal em relação ao dólar (a moeda chinesa ocupava menos de 6% desse total em dezembro, e os EUA mais de 80%).
O ministro da Economia argentino, Sergio Massa, anunciou em abril um acordo para deixar de pagar as importações da China em dólares e passar a adotar o yuan, após ativar um swap ou acordo de câmbio financeiro com o país asiático equivalente a US$ 5 bilhões.
Desta forma, a Argentina calculou oficialmente que somente em maio suas empresas pagariam com yuans mais de US$ 1,04 bilhão por importações originárias da China (de eletrônicos a automóveis) e, depois, uma média de US$ 790 milhões por mês.
O governo argentino buscou com esses acordos preservar as reservas internacionais do país, que caíram a níveis preocupantes em meio à crise econômica e à medida em que o Banco Central vendia dólares no mercado de câmbio para conter a desvalorização do peso.
Na Bolívia, onde as reservas internacionais também diminuíram e os dólares rarearam, o presidente citou a nova utilização do yuan no comércio exterior da Argentina e do Brasil como um possível caminho a seguir.
"As duas maiores economias da região já estão negociando em yuan em acordos com a China", disse Arce em entrevista coletiva neste mês. "A tendência na região vai ser essa”, acrescentou.

"Quem decidiu?"

Claro, os fatores geopolíticos também desempenham um papel em tudo isso.
Diferentes analistas acreditam que a China redobrou seu desejo de internacionalizar sua moeda não apenas como uma forma de impulsionar o seu comércio exterior, mas também para corroer o poder que o dólar americano teve por décadas.
As sanções internacionais à Rússia por invadir a Ucrânia pareciam abrir uma oportunidade para a valorização da moeda chinesa.
O yuan desbancou o dólar como a moeda mais negociada na Rússia este ano, depois de representar 23% dos pagamentos de importações russas em 2022.
E a China, pela primeira vez em março, usou mais yuan do que dólares para pagar suas transações internacionais, embora sua moeda tenha movimentado menos de 5% do comércio mundial.
Alguns especialistas acreditam que, ao tentar reduzir a dependência do dólar, Pequim quer se proteger do risco de futuras sanções ao dólar.
A China também fechou acordos recentes com outros parceiros comerciais – do Paquistão a empresas na França – para facilitar as trocas de yuans, desenvolveu sua própria moeda digital e uma alternativa à Swift, a rede global de mensagens interbancárias.
Paralelamente, também surgiram questionamentos da América Latina sobre a primazia do dólar.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sugeriu a adoção de uma moeda diferente dos EUA para financiar o comércio entre os países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).
"Quem decidiu que o dólar deveria ser a moeda depois que o ouro desapareceu como paridade?", perguntou Lula durante visita à China em abril.
"Precisamos ter uma moeda que transforme os países em uma situação um pouco mais tranquila", disse, "porque hoje um país precisa correr atrás do dólar para poder exportar".
Mas, de acordo com especialistas, a chave aqui é que o dólar tende a atrair a demanda internacional por ativos seguros e é difícil para o yuan competir nesse aspecto sem que a China relaxe suas próprias restrições de capital.
Myers considera improvável um aumento explosivo do uso do yuan na América Latina após os anúncios da Argentina e do Brasil, ainda que a moeda tenha maior presença na região.
"Vemos um crescimento no uso (do yuan) e um esforço real da China para que isso aconteça", diz ele. "Mas o grau em que será usado como moeda global depende das próprias reformas internas da China e do quanto ela abrirá seus mercados financeiros. E isso não está ocorrendo."
Nem sempre a aparência é igual à essência https://bit.ly/3Ye45TD

Unasul

Lula sugere reforma da Unasul para cooperação continental

O brasileiro espera que os parceiros definam um desenho institucional para a cooperação, embora considere a Unasul viável.
Cezar Xavier/Vermelho www.vermelho.org.br

 

Ao receber dez líderes sul-americanos no Palácio Itamaraty, nesta terça-feira (30), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inverte o sinal que o governo Bolsonaro dava ao resto do continente. O clima ideologizado e hostil do Brasil contra os países vizinhos e seus governos, torna-se pragmático e cordial. Mais do que isso, sob liderança de Lula, o continente sai do ostracismo geopolítico para se posicionar de forma assertiva no mundo.

Para isso, desde janeiro, o governo brasileiro age de forma acelerada para retomar relações diplomáticas, que estavam  mornas ou francamente hostis com vizinhos como a Venezuela. Assim, o retorno do Brasil a organismos de integração continental como Unasul e Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos) foi um grande passo. Em agosto o Brasil também sediará a Cúpula dos Países Amazônicos.

No discurso de abertura do encontro no Itamaraty, Lula disse que a integração regional é essencial para o fortalecimento da unidade da América Latina e do Caribe. “Nossa América do Sul deixou de ser apenas uma referência geográfica e se tornou uma realidade política.”

“Enquanto estivermos desunidos, não faremos da América do Sul um continente desenvolvido em todo o seu potencial. A integração deve ser objetivo permanente de todos nós. Precisamos deixar raízes fortes para as próximas gerações”, disse.

Leia também: Lula quer retomar balança comercial de US$ 6 bi com Venezuela

Sequelas do bolsonarismo

Ele criticou o governo anterior por dar as costas aos países que deveriam estar mais irmanados como bloco. “Infelizmente, esses avanços foram interrompidos nos últimos anos. No Brasil, um governo negacionista atentou contra os direitos da sua própria população, rompeu com os princípios que regem a nossa política externa e fechou as nossas portas a parceiros históricos.”

“Na região, deixamos que as ideologias nos dividissem e interrompessem o esforço de integração. Abandonamos canais de diálogos e mecanismos de cooperação e, com isso, todos perdemos”, disse Lula.

Em sua opinião, esta postura nada ganha, senão traz perdas para todos os lados. “Essa postura foi decisiva para o descolamento do país de grandes temas que marcaram o cotidiano de nossos vizinhos. Deixamos que as ideologias nos dividissem, interrompemos os esforços de integração, abandonamos canais de diálogos e mecanismos de cooperação e, com isso, todos perdemos.”

Leia também: Governo brasileiro anuncia retorno à Unasul

Decisões compartlhadas

O convite feito por Lula foi atendido por onze líderes sul-americanos, para discutir pautas em torno de questões comuns nas áreas de saúde, infraestrutura, energia, meio ambiente e combate ao crime organizado.

Antes de sugerir medidas como ampliar a integração dos países da região na área energética, em acordos comerciais e na mobilidade de estudantes e pesquisadores, e reforçar o desejo de estabelecer uma moeda local para o comércio na América do Sul, em vez do dólar, o presidente deixou claro que as iniciativas eram apenas sugestões e que os temas ainda seriam discutidos ao longo do dia pelos mandatários sul-americanos.

O brasileiro também defendeu que a participação da sociedade deve ser estimulada para dar maior legitimidade ao processo de integração. “Precisamos de mecanismos de coordenação flexíveis, que confiram agilidade e eficácia na execução de iniciativas. Nossas decisões só terão legitimidade se tomadas e implementadas democraticamente”, acrescentou o presidente, defendendo ainda que o envolvimento da sociedade civil, sindicatos, empresários, acadêmicos e parlamentares “dará consistência” ao esforço de integração. “Ou os processos são construídos de baixo para cima, ou não são viáveis e estarão fadados ao fracasso”, afirmou.

Leia também: Reconstruir a Unasul

Lula disse ter firme convicção de que é preciso reavivar o compromisso com a integração sul-americana. “Entendemos que a integração sul-americana é essencial para o fortalecimento da unidade da América Latina e do Caribe. Uma América do Sul forte, confiante e politicamente organizada amplia as possibilidades de afirmar, no plano internacional, uma verdadeira identidade latino-americana e caribenha.”

Opção pela Unasul

“E não é preciso recomeçar do zero. A Unasul é um patrimônio coletivo. Lembremos que ela está em vigor e sete países ainda são membros plenos. É importante retomar seu processo de construção, mas, ao fazê-lo, é essencial avaliar criticamente o que não funcionou e levar em conta essas lições.”

Apesar de propor o fortalecimento da Unasul, Lula disse que não há ideias preconcebidas sobre o desenho institucional que poderia ser adotado e que esse encontro servirá para conhecer a opinião de todos, que pode a vir ser definida em 120 dias.

A Unasul, criada em 2008, no segundo mandato do presidente Lula, foi se desintegrando ao longo do tempo, em meio a mudanças de governos em diversos países, e agora reúne apenas sete dos 12 governos: Venezuela, Bolívia, Guiana, Suriname, Peru, além de Argentina e Brasil que voltaram ao grupo recentemente.

“Por mais de dez anos, a Unasul permitiu que nos conhecêssemos melhor. Consolidamos nossos laços por meio de amplo diálogo político que acomodava diferenças e permitia identificar denominadores comuns. Implementamos iniciativas de cooperação em áreas como saúde, infraestrutura e defesa. Essa integração também contribuiu para ganhos comerciais importantes. Formamos uma robusta área de livre-comércio, cujas cifras alcançaram valor recorde de US$ 124 bilhões em 2011”, disse.

Lula destacou também a redução de desigualdades e da pobreza, do desmatamento, e o papel do grupo como foro de solução de controvérsias entre países da região. “Foram feitos formidáveis para uma região herdeira do colonialismo e marcada por graves formas de violência, discriminação de gênero e racismo. Não resolvemos todos os nossos problemas, mas nos dispusemos a enfrentá-los, em vez de ignorá-los. E decidimos fazer isso cooperando entre nós”, disse.

“Nenhum país poderá enfrentar isoladamente as ameaças sistêmicas da atualidade. É apenas atuando unidos que conseguiremos superá-las. Nossa região possui trunfos sólidos para fazer face a esse mundo em transição”, acrescentou, citando os novos desafios como as crises geradas pela pandemia de covid-19, a urgência das questões climáticas, o retrocesso do multilateralismo e a as posturas protecionistas nos países ricos, além de conflitos como a guerra na Ucrânia que afetam as cadeias de suprimento.

Agenda multilateral

Participam do encontro os presidentes Alberto Fernández (Argentina), Luís Arce (Bolívia), Gabriel Boric (Chile), Gustavo Petro (Colômbia), Guillermo Lasso (Equador), Irfaan Ali (Guiana), Mário Abdo Benítez (Paraguai), Chan Santokhi (Suriname), Luís Lacalle Pou (Uruguai) e Nicolás Maduro (Venezuela).

A atual presidente do Peru, Dina Boluarte, impossibilitada de comparecer, será representada pelo presidente do Conselho de Ministros, Alberto Otárola.

Pela manhã, os convidados foram recebidos por Lula e, na sequência, discursaram. Na período da tarde, está prevista uma conversa mais informal, em que cada presidente será acompanhado pelo respectivo chanceler e apenas um ou dois assessores.

À noite, os chefes de Estado e delegações participam de um jantar oferecido por Lula e pela primeira-dama Janja da Silva no Palácio da Alvorada.

A desafiante agenda do governo Lula https://bit.ly/3ZNEz7p


Arte é vida

 

Fernand Leger

Nem todos os caminhos levam aonde se quer https://bit.ly/3Ye45TD

Enio Lins opina

Interrompida mais uma tentativa de golpe

Enio Lins www.eniolins.com.br



Noticiada com discrição e por poucos veículos de mídia (pelo menos) até o domingo, uma ação do governo Lula merece mais atenção e, numa primeira vista d’olhos, aplausos: trata-se da retirada de uma proposta feita pelo governo passado aos países ricos.

Segundo o colunista Jamil Chade (UOL), o desgoverno do Jair apresentou aos países ricos um convite para que as megaempresas dessas nações pudessem participar de licitações para compras governamentais no Brasil como se fossem nativas.

Noticiado também pelo Valor Econômico, essa medida – incomum nos países em desenvolvimento ou emergentes – fragiliza as empresas locais frente aos poderosos grupos milionários das grandes nações.

Historicamente, o Brasil, assim como as demais nações emergentes, manteve a regra de priorizar as empresas locais nas licitações governamentais como forma de promoção de segmentos importantes da economia nacional.

Mesmo durante os governos identificados como liberais, a exemplo de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, esse segmento foi protegido do gigantesco lobby das grandes empresas internacionais. Jair queria deixar passar a boiada.

Apresentada pelo falso messias, a proposta-traíra não chegou a ser efetivada junto à Organização Mundial de Comércio (OMC) e coincidia com a perda de competitividade internacional das grandes empresas brasileiras detonadas pela Lava-jato.

Regra de ouro entre as nações em desenvolvimento ou emergentes, a abertura internacional para compras governamentais tem dosimetria muito cuidadosa e procura-se manter parcerias entre semelhantes para evitar massacres econômicos.

Segundo o divulgado pelo UOL, a compra de remédios durante a pandemia de Covid-19 foi um desses segmentos em que o lobby das grandes potências jogou pesado. Seria essa uma explicação para a atitude de combate à “vacina chinesa” do Butantan?

Enfim, para o bem de (quase) todos e felicidade geral da nação, a arataca do Jair foi desarmada também nesse item essencial, e a discussão na OMC retorna a seus rumos racionais com o Brasil reposicionado fora da área reservada para otários.

O mundo cabe numa organização de base https://bit.ly/438Sl6A


Inteligência Artificial

IA: Toda a subversão será castigada?

Há algo de sombrio no uso de bots para o policiamento, para além de suas falhas e racismos. Cria-se novo risco: ao bloquear qualquer possibilidade de transgressão, a justiça reduz-se a uma tirania cega, incapaz de ver as complexidades do mundo
Samuel Witteveen Gomez, no CTXT
 | Tradução: Rôney Rodrigues/OutrasPalavras

 

Existem supermercados onde as câmeras de segurança apontam por si mesmas quem comete um furto. Utilizando inteligência artificial, essas câmeras são capazes de identificar os gestos e atitudes que costumam acompanhar a subtração de algum produto. Isso acontece em países como Estados Unidos e Japão. Há também estações de trem e metrô, na Catalunha por exemplo, onde câmeras alertam se um passageiro entra sem bilhete.

Além disso, espera-se que cada vez mais veículos incluam sistemas que reduzam automaticamente a velocidade quando o motorista excede o limite permitido. Os algoritmos também são os que muitas vezes se encarregam de detectar e penalizar a fraude fiscal. E um juiz da Colômbia materializou um horizonte com que sonham alguns juristas ao recorrer ao ChatGPT para redigir uma sentença.

Esses exemplos, por mais díspares que possam parecer, apontam para uma mesma tendência: a automatização da lei. Dadas as possibilidades que a tecnologia nos oferece, é tentador investir em sistemas que ajudem a garantir o cumprimento das normas. E se essas ferramentas realmente decolarem, pode chegar o dia em que ninguém, independentemente da situação, poderá furtar, entrar furtivamente no metrô ou pisar fundo demais no acelerador do carro. Mas isso, mais do que o triunfo da lei, pode significar o fim da lei como prática de uma comunidade moral e sua substituição por algo mais parecido com um molde, um túnel, uma tirania cega.

É, ainda, no contexto dos grandes desafios que os Estados enfrentam onde o risco da automação deve ser compreendido. Problemas de grande alcance, como mudanças climáticas, migração, pandemias e ameaças terroristas, muitas vezes encontram sua solução correspondente na boca de políticos e empresários com a promessa de controle que a tecnologia nos oferece. Uma união entre urgência e coerção parece ser o sinal de nosso tempo, uma união, segundo todos dizem, temível.

Tal acúmulo de ameaças justificará para muitos que as autoridades deleguem o controle a sistemas automatizados, possivelmente os únicos capazes de aplicar regulamentos em larga escala. Há, porém, uma diferença intransponível entre o cumprimento de uma lei (por condenação ou por simples submissão) e a impossibilidade de transgredi-la (porque a arquitetura do poder só permite o cumprimento).

O filósofo Maxim Februari explica em seu último livro que as máquinas, ao contrário de nós, não são sujeitos morais que agem por responsabilidade. Por isso, não são capazes de ver e compreender que nós, sobre quem eles decidem, somos de fato seres morais. “As máquinas”, escreve Februari, “não estão nem um pouco preocupadas com a verdade de nós como pessoas, nem se importam em entender, a única coisa que buscam é funcionar: realizar operações”.

Assim, por mais severo que seja um condutor de metrô, ele sempre será infinitamente mais compassivo do que um sistema automatizado. O condutor, diferentemente da máquina, tem a capacidade de entender que existem motivos para entrar furtivamente no metrô, que cada passageiro representa um caso particular. A máquina, por outro lado, não vê pessoas, não vê histórias ou necessidades, só é capaz de detectar aqueles indicadores que tornam possível o seu idêntico funcionamento.

Ramón López de Mántaras, especialista em inteligência artificial do CSIC, denunciou recentemente em um fórum o erro generalizado de atribuir características humanas à tecnologia. “Acreditamos que a IA é virtualmente ilimitada quando, na verdade, é extremamente limitada e, mais importante, não tem nada a ver com a inteligência humana.” Apesar das virtudes e usos dessas ferramentas, Mántaras alerta que a inteligência artificial não é realmente inteligente, mas executa tarefas sem ser capaz de entendê-las. Embora a IA possa certamente ser mais habilidosa do que nós na execução de operações concretas, ela carece do conhecimento complexo do mundo que qualquer pessoa possui.

O mundo funciona em grande parte graças a processos informais, experiências e gestos não quantificáveis. Mesmo a pessoa mais bruta conhece uma imensidão de sentimentos completamente alheios à máquina, sentimentos que informam suas ações a todo momento. Empatia, indignação, dúvida, conflito, flexibilidade, medo, paciência, justiça. Aqueles que, ignorando tudo isso, igualam a máquina ao humano, tomam como critério as capacidades da máquina e desprezam o que distingue o vivo do inerte. A história também nos mostra que ignorar a importância dos processos informais sempre leva ao desastre.

A aplicação mecânica da lei também contradiz os princípios do Estado de direito. O que diferencia um Estado de direito de qualquer modelo autoritário é que o poder está sujeito a garantias. As decisões não dependem simplesmente da autoridade, mas devem ser legítimas e justificáveis. A primazia da lei sobre o poder implica, portanto, a existência de uma comunidade imersa em uma prática constante de apelar, interpelar, decidir e justificar. Desistir dela em busca de uma ordem fechada implica dissolver a comunidade e suspender o direito. Quando falamos de automação, não estamos falando de mera sofisticação, mas de uma forma radicalmente diferente de governança.

A lei é incompatível com o mecânico. Não há lei aplicável a todos os casos porque a norma exige necessariamente, sempre, interpretação e execução. Februari usa a história de dois membros da resistência holandesa na Segunda Guerra Mundial para ilustrar isso. A anedota diz que esses dois partisanos capturaram um membro da SS que se dedicava a deletar outras pessoas em seu povoado. Quando tiveram este homem em seu poder, quiseram matá-lo, mas duvidaram que estivessem fazendo a coisa certa. Então eles foram até o padre e perguntaram se é permitido matar um nazista. O padre respondeu: “Na verdade, não.”

Na breve resposta do padre está contido todo aquele terreno propriamente humano que é incompreensível para as máquinas. Bem, o padre não simplesmente toma o quinto mandamento e os proíbe de matar, mas os informa sobre o conteúdo da lei e acrescenta que o “na realidade”, que é a abertura para a exceção. Entre a lei universal (não matarás) e o caso concreto e premente (enquanto esta pessoa estiver viva trairá outras), cabe aos dois partidários a responsabilidade de decidir da forma mais justa. A lei não pode simplesmente ser aplicada porque deve primeiro passar por essas histórias particulares para se materializar. Isso é o que Franz Rosenzweig quis dizer quando escreveu: “A lei é entregue ao homem, não o homem à lei.”

O problema de deixar as tarefas de governança nas mãos da inteligência artificial não é apenas que ela costuma ser suscetível a vieses e erros. Por mais que o algoritmo seja aperfeiçoado e os dados lapidados, um sistema automatizado jamais igualará a capacidade interpretativa do ser humano. A diferença entre inteligência artificial e humana não é quantitativa, mas qualitativa.

Claro que a tecnologia pode nos auxiliar em tarefas monótonas, por exemplo, na hora de localizar ou organizar informações, e isso pode aliviar os tribunais e agilizar os processos. A decisão de um juiz, por outro lado, não deve ser tomada por um sistema generativo de inteligência artificial (como o ChatGPT) porque por mais jurisprudência que a ferramenta seja capaz de moldar, ela jamais conseguirá entender do que realmente se trata: transmitir a justiça.

O juiz é o elo entre a legislação e o caso concreto e em cada uma de suas decisões deve introduzir um elemento original. Uma norma aplicada automaticamente pode criar a ilusão de equidade, mas na realidade ocorre o oposto: a mesma interpretação é imposta em casos diferentes. A justiça requer uma consideração especial em cada caso, um momento de perigo onde a doutrina aparece no fundo da vida. Jacques Derrida colocou assim em Força da Lei: “A lei é o elemento de cálculo, enquanto a justiça é incalculável, exige que calculemos com o incalculável”.

Quem disse que a vida não é arriscosa? https://bit.ly/3Ye45TD

China/Ásia-Pacífico

China continua a ser o principal motor de crescimento para a Ásia-Pacífico

Diário do Povo online

 

A China continuará a dar uma importante contribuição para o desenvolvimento econômico da região Ásia-Pacífico, esperando-se que o país mantenha um crescimento estável e veja uma forte recuperação do consumo privado, disse o Fundo Monetário Internacional (FMI) num relatório.

Em sua edição de maio do panorama econômico regional da Ásia-Pacífico, o FMI disse que a economia da China provavelmente se expandirá 5,2% este ano, um aumento de 0,8 ponto percentual em relação à sua previsão anterior, em outubro do ano passado.

"Os dados do primeiro trimestre confirmaram nossa previsão de um início dinâmico em 2023, com uma forte recuperação do consumo", disse Krishna Srinivasan, diretor do Departamento de Ásia e Pacífico do FMI, em uma coletiva de imprensa realizada pelo FMI e pelo China Finance 40 Forum.

Normalmente, um aumento de 1 ponto percentual no crescimento chinês leva a um aumento em média de cerca de 0,3 ponto percentual para o resto da Ásia, disse ele.

Estima-se que os transbordamentos para o resto da Ásia do maior consumo na China sejam maiores do que os transbordamentos de outros motores de crescimento, como o investimento, de acordo com Srinivasan.

O relatório do FMI disse que a Ásia-Pacífico permanecerá uma região dinâmica, apesar dos desafios, incluindo o enfraquecimento da demanda externa, e o dinamismo será impulsionado principalmente pela recuperação na China e pelo crescimento resiliente na Índia.

O crescimento na região deve chegar a 4,6% e a região deve contribuir com quase 70% do crescimento global em 2023, disse o FMI, acrescentando que a China sozinha contribuirá com 34,9% do crescimento global este ano.

Arte é vida: uma obra de Claude Monet https://bit.ly/3MJ58HA

China+América Latina

América Latina e Caribe torna-se o segundo maior destino de investimento externo da China

Diário do Povo Online

 

A região da América Latina e Caribe (ALC) tornou-se o segundo maior destino para o investimento estrangeiro da China, de acordo com o Fórum China-CELAC (Comunidade dos Estados da América Latina e Caribe) realizado na quarta-feira (24) em Dongguan, província de Guangdong, no sul da China.

Em 2022, o comércio China-ALC atingiu 485,7 bilhões de dólares americanos, um aumento anual de 7,7%. Mais de 3.000 empresas chinesas operam na região da ALC, incluindo muitas privadas.

Xu Lejiang, vice-presidente executivo da Federação Chinesa de Indústria e Comércio (ACFIC, na sigla em inglês), disse que a China está buscando desenvolvimento de alta qualidade e abertura de alto nível, o que certamente trará mais oportunidades para os países da ALC e o resto do mundo.

Ao conduzir a cooperação econômica, comercial e de investimento com os países da ALC, as empresas privadas chinesas devem assumir ativamente as responsabilidades sociais e contribuir para o desenvolvimento estável e de longo prazo da cooperação amigável China-ALC, enfatizou Xu.

O fórum foi organizado pela ACFIC e pelo governo provincial de Guangdong.

As pedras se tocam, tudo se relaciona https://bit.ly/3Ye45TD