30 junho 2026

Uma crônica de Abraham Sicsu

Turista também sofre
Abraham Sicsu    

Deslumbramento. O encontro com a natureza alucina, o verde das matas, as flores nativas, a fauna diversa, tudo belo, tudo para nos fazer entender que somos parte de um universo plural, multifacetado e harmonioso. Apenas parte que tem que respeitar o todo. Não sejamos auto centrados.

Os peixes, robalos, tainhas e serras, os camarões abertos na brasa, a paçoca de carne de sol, o vatapá sem dendê, o baião de dois, o degustar de pratos nativos com sabor mais que especial.

Dunas brancas em profusão, altíssimas ou baixas, areia fina que se move ao sabor do vento; lagunas, milhares, umas com águas límpidas e claras, outras verdes ou mesmo amarronzadas; rios e mares, paisagens indescritíveis. Os Lençóis Maranhenses se fazem presentes.

Contudo, sempre há um porém, turismo sempre traz fatos que podem incomodar. Nada que tire o mágico da viagem, o ecoturismo mais marcante que já fiz, narro apenas como divertimento, fatos exóticos registrados nesta viagem.

Duas horas de avião, quatro de carro. Uma viagem um pouco cansativa. A empolgação com o que viria faz passar celeremente. Saída de São Luís. Uns vinte quilômetros desastrosos. Com crateras “lunares” inimagináveis. Somente um piloto com grande experiência consegue enfrentá-las. Incompreensível que a saída da capital do Estado, com o fluxo maior e mais importante do turismo maranhense, esteja em situação tão deplorável.

Chegamos ao anoitecer. A fome bate. Indicam um restaurante na beira do rio, vista maravilhosa, comida boa. O problema, um teclado e um pretenso cantor. Desafinado, com falta de ritmo. Para disfarçar sua falta de aptidão, o som altíssimo e os berros estridentes. E ainda se cobra couvert dito artístico.

Uma pousada muito simpática. Bem cuidada, com artesanato local e vista bela. Os anfitriões educados e carinhosos. Nove da noite. Perto tem um arraial da prefeitura. Começam os espetáculos. Parece que o som está sendo gerado dentro dos quartos. Mesmo eu que sou um pouco surdo, escuto com nitidez. Vai até as três horas da manhã.

Um motorista-guia nos leva ao passeio. No primeiro dia. Simpático, mas com gosto um pouco estranho. Adora sertanejo brega. Durante todo o caminho, mais de duas horas, ida e volta, coloca essas “pérolas” musicais. Fico incomodado, mas, como ninguém reclama, quem sou eu para me rebelar.

O guia tem muitas certezas. Passamos numa “fazenda eólica”. Cerca de 180 aero geradores. Enorme. Afirma com convicção que a energia gerada, nem entra no Maranhão, vai toda para o exterior. Tento explicar que é colocada na rede elétrica. Verdade, o transformar de bauxita em alumínio consome muita energia que é exportada no produto final. Mas, ele insiste, não, ela é exportada assim que gerada. Só não sei como?

Os jornais publicaram. Atins é a sétima praia mais bela do mundo. Ansiosos, esperamos chegar lá. Uma praia enorme, sem vegetação, um mar nada diferente. Acho que disputou com São Paulo, Praia Grande ou Cidade Ocean, deve ter ganho na foto de chegada, por uma cabeça.

Voltando de um passeio resolvemos tomar banho em uma laguna. Deixamos as coisas no carro e vamos. Ao voltar, cadê o carro. Procuramos e nada de encontrar. Dez minutos de muita angústia. Até que outro motorista nos avisa que um carro tinha atolado, logo à frente, e o nosso motorista, numa atitude de solidariedade, tinha ido lá para ajudar na remoção. Muito justo, pena não nos ter avisado.

Um passeio lindíssimo é o do Rio Preguiça. As paisagens são inesquecíveis. Faz-se uma parada em Vassouras, para um banho de laguna e ver os macaquinhos da floresta. É a região deles. Pense numa muvuca. Uma multidão maior que a torcida do flamengo em dia de decisão de título. Mas, esse não é o único problema. Os bichinhos se aproximam vorazmente.

Querem comida e realmente atacam. Uma senhora obesa com uma bolsa e seu celular em punho se aproxima. Dois símios sobem em suas costas. Para salvar a bolsa quase cai e o celular deve ter ficado imprestável

Dois turistas japoneses, meio abestalhados, resolvem abrir um pacote de biscoito perto dos animais. Atacados, deixam cair no chão. O engraçado foi ver o líder dos macacos recolhendo o alimento para alimentação futura. São precavidos.

Por do sol na Lagoa Bonita. Maravilhoso. Quando se aproxima a hora, uma multidão vai se acomodando na duna mais alta para ver o espetáculo da natureza. Nosso guia nos orienta.

Todos estamos molhado do banho nas águas cristalinas das lagunas próximas. Acontece que um casal de idosos espanhóis, resolve não se sentar e se posiciona bem em frente à nós. Acho que não queriam melar seus flácidos bumbuns, nada atraentes. Os que me acompanham, para não arrumar confusão, mudam de lugar. Não aquentei e protestei. O homem saiu. A mulher ficou com cara de sonsa.

Como já disse nada disso tirou o brilho de uma região encantadora, mágica, do constatar a diversidade e harmonia da natureza. Se puderem, não percam. Pequenos fatos que permitem contar histórias pitorescas.  Vale a pena enfrentar qualquer descompasso. As imagens que ficarão na mente serão outras.

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