31 dezembro 2009

O melhor réveillon do mundo

. Que me perdoem os realizadores de festas badaladas, o melhor réveillon do mundo é aqui mesmo, em São José da Coroa Grande, na beira da praia, com show pirotécnico e tudo o que a gente tem direito, hoje sob o comando de Miguel, 4 anos e muita energia.
. É a nossa alegre tradição familiar de mais de uma década. Inclusive com o primeiro banho de mar do ano. Salve Iemanjá!

Feliz Ano Novo, Carlos Drummond de Andrade

A paz de São José da Coroa Grande

A passagem do ano

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olhar e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras expreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasta renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Visão multilateral da política

. Ana Lúcia Andrade finaliza hoje em sua coluna Pinga-Fogo, no Jornal do Commercio, enquete sobre os escândalos de 2009 envolvendo detentores de mandato.
. Sugeri a ela outra enquete sobre o que de melhor aconteceu na política em 2009.
. Com os dois resultados o leitor teria uma visão multilateral dos fatos. E não guardaria a falsa versão de que todos os políticos são corruptos e nenhum merece crédito, como faz crer a cobertura de mídia sobre a vida política do país.
. Se a maioria dos brasileiros pensar assim, o caminho estará aberto para um regime de tipo fascista.

30 dezembro 2009

Feliz Brasil 2010

Editorial do Vermelho www.vermelho.org.br
As falaciosas previsões de 2009

O Brasil entra em 2010 num clima de otimismo generalizado. Situação oposta à de um ano atrás quando, no auge da crise econômica mundial, as trombetas catastrofistas previam o apocalipse do afundamento inevitável da economia brasileira.

Ao longo do primeiro semestre de 2009 as previsões negativistas se multiplicaram. Em abril, a agência Focus, especializada em previsões do futuro com base em especialistas do mercado financeiro, garantia que o PIB ia cair 0,39% em 2009. E que o país só voltaria a crescer em 2010, à taxa modesta de 3,5%. Em maio, previa um cenário pior, com queda de 0,49%, mantendo a previsão de crescimento em 2010. Naquela época, a revista britânica The Economist, o evangelho do capital financeiro internacional, apostava numa recessão com uma queda de 0,5% no PIB, independente de qualquer medida que tomada governo brasileiro contra aquela ameaça. E também indicava uma retomada modesta em 2010, na casa dos 3,2% do PIB. Em junho, a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) apontava um recuo de 0,8% do PIB brasileiro e um crescimento de apenas 4% em 2010. Não estava sozinha; o Bando Mundial apostava em queda de 1,1% no PIB, com recuperação apenas em 2010. O campeão nesta corretagem negativista foi o banco de investimentos americano Morgan Stanley que chegou ao absurdo de prever uma queda de 4,5% no PIB brasileiro em 2009, que - segundo aquele oráculo novaiorquino - continuaria em 2010, quando o recuo seria de 0,5%!

O Brasil frustrou aquelas apostas. Entre o governo, que previa uma "marolinha", e importantes setores do mercado financeiro e da oposição neoliberal que apostavam em um tsunami, o país ficou no meio. Mais para a onda mansa do que para o vendaval destruidor, com perdas grandes. Um cálculo da Fundação Getúlio Vargas diz que, com a crise, o país deixou de acrescentar à atividade econômica entre 150 a 210 bilhões de reais. Mas ressalva que a coisa podia ter sido pior sem as medidas tomadas pelo governo que, na opinião de seu autor, o economista Régis Bonelli, foram bem sucedidas. Outro estudo, feito por economistas do Itaú Unibanco, mostrou que sem a ação do governo o PIB teria encolhido 3,2% em 2009. As medidas tomadas - transferências sociais como o Bolsa Família, política de recuperação do salário mínimo, empréstimos de bancos do governo para empresas em dificuldades, desoneração tributária, investimentos estatais em obras públicas, queda na taxa de juros, etc - evitaram aquele desastre e permitiram a retomada do crescimento.

Embora o resultado alcançado em 2009 não tenha sido bom, o Brasil chega a 2010 com uma economia que demonstra vigor. O crescimento voltou já no terceiro trimestre, autorizando previsões para o ano que vem que oscilam entre 5 a 6% ao ano. A Fiesp, por exemplo, prevê 6,2%. A agência norte americana Merrill Lynch fala em 5,3%.

Esta dança dos números é reveladora. Em primeiro lugar, elas mal escondem apostas seja no sucesso seja no fracasso do país - principalmente no fracasso, como esperava a oposição neoliberal acreditando que a repetição do mau desempenho em crises mundiais anteriores (como os desastres que o país viveu sob Fernando Henrique Cardoso) ajudaria a aplainar seu caminho para a eleição de outubro de 2010, quando será eleito o sucessor do presidente Lula.

Em segundo lugar, sugere que a bola de cristal dos modernos perscrutadores do futuro merece a mesma fé que o exame das vísceras de aves realizado por adivinhos romanos há mais de dois mil anos: baseiam-se mais em crenças e desejos do que na análise de tendências concretas que podem revelar caminhos diferentes daqueles contidos em suas premissas. Como no caso da previsão feita pela Morgan Stanley: é provável, como mostraram os economistas do Unibanco, que seguindo o mesmo receituário neoliberal usado em crises anteriores teria ocorrido o desastre previsto; como a política econômica brasileira seguiu caminho diverso, a má profecia não teve condições objetivas de se realizar.

Isto nos leva a uma outra reflexão importante: na contra mão dos dogmas neoliberais dos círculos contemporâneos do dinheiro, foi o Estado e não o mercado que garantiu a defesa contra a crise. Por toda a parte: nos EUA, na Europa ou na Ásia. E no Brasil, onde o Estado não recua mais diante de suas responsabilidades perante o país, sua economia e seu povo. E é, por isso, um instrumento fundamental para a defesa da economia nacional.

28 dezembro 2009

Meu artigo semanal no site da Revista Algomais

Feliz Ano Novo agora e sempre
Luciano Siqueira

Nos cartões que nos chegam pelos correios, nas mensagens via e-mail e torpedos no celular: Boas Festas e Feliz Ano-Novo! Com ligeiras variações, a saudação se repete aos milhares, confirmando relações de apreço e amizade ou como um gesto formal de alguns que, ocupando postos de relevo na área pública ou privada, sentem-se no dever de praticá-lo.

De toda sorte, desejamos, sim, uns aos outros, um Ano-Novo benfazejo, com maior ou menor convicção do que estamos dizendo. E o grau de convicção se expressa com certa nitidez quando o cumprimento é feito pessoalmente.

- Torço para que você tenha um 2008 de muita alegria e paz, amigo!

- Pra você também.

- Oxente, você responde assim desanimado... tá faltando firmeza.

- Claro que desejo um bom 2008 pra você. O problema é meu, não tenho a menor certeza do que vou enfrentar pela frente.

- Como assim, cadê seus planos? Você sempre foi um cara de fazer planos pessoais, mesmo no tempo difícil da militância sob ditadura militar, lembra?

- Verdade, sempre fui otimista. Mas hoje, amigo velho, que pode esperar do Ano-Novo um sujeito como eu afundado em dúvidas, desenganos e dívidas?

- Puxa, rapaz, não fale assim. Todo mundo tem problemas, mas nem por isso se deixa abater na passagem de ano.

- Pois é, se a gente se encontrar no réveillon você vai ver o que é animação. Depois da segunda dose, ninguém me segura. Prometo que serei o mais animado da festa. Mas, no dia seguinte... dia seguinte é pauleira, velho!

Despedimo-nos quando a moça da TAM chamou os passageiros do vôo para o Rio de Janeiro – conversávamos no salão de embarque do aeroporto, e seguiríamos em vôos diferentes – e nosso diálogo foi interrompido por um quase protocolar boa viagem. Mas nas duas horas e tanto do trecho Recife-Brasília, as palavras do amigo não saíam da mente. Quantas pessoas, como o amigo infeliz, estarão nas celebrações do réveillon exibindo uma alegria falsa, artificial, dissonante do seu real estado de espírito?

Pouco importa, diria outro amigo, mestre conceituado de festas e farras, para quem as comemorações, o uísque e os abraços efusivos servem mesmo para isso: para disfarçar, por um instante que seja, os males que nos afligem e exaltar a felicidade geral, irrestrita e passageira.

Pode ser. Mas, desse que jamais perdeu a esperança, receba um sonoro Feliz Ano-Novo – agora e sempre!

27 dezembro 2009

Clima & interesses escusos

No Vermelho, por Eduardo Bomfim:
Nevascas

As poderosas nevascas que se abatem sobre a Europa e o norte dos Estados Unidos até parecem querer desmistificar os eco-fundamentalistas que pintaram e bordaram antes e durante a recente conferência sobre o clima em Copenhague.

O bombardeio internacional midiático, durante a conferência, dizia que aquelas eram as últimas oportunidades para se impedir o aquecimento global irreversível e galopante do planeta decorrente das emissões de CO2 pelo ser humano.

Sabemos que as emissões de CO2 são produzidas, além do homem, em sua esmagadora maioria através da própria natureza, com a decomposição orgânica vegetal, e pelos oceanos, esses os maiores produtores de gás carbônico essencial à vida na Terra.

Mas a grande maioria das pessoas tem sido educada ultimamente através de mitos sobre o aquecimento global e somos todos de uma forma ou de outra vítimas da desinformação consciente de vários cientistas, em detrimento da maioria deles, e de muitas ONGs, sobre esse tema tão fundamental como o efeito estufa. O porque disso foi revelado de maneira escancarada nos desencontros de Copenhague. E a causa é mesmo o dinheiro e a busca do maior lucro, em um fundo ambiental global que em médio prazo pode somar alguns trilhões de dólares.

Sempre é perigoso, ou mesmo trágico, quando se procura conquistar a humanidade através de grandes mentiras porque o que se tenta criar na verdade é um novo e bilionário nicho de mercado sob a hegemonia dos países mais ricos.

E ao mesmo tempo induzir a alternativas energéticas inviáveis às nações emergentes, principalmente as mais pobres, condenando-as ao subdesenvolvimento inexorável e à subordinação econômica e tecnológica. A conferência de Copenhague que poderia ter sido sobre a inadiável defesa e soluções para o meio ambiente massacrado, a poluição das indústrias, as florestas destruídas, os mares sujos e rios apodrecidos, as cidades envenenadas, transformou-se em uma mega disputa por uma cifra trilionária em um espírito mercadológico radicalmente neoliberal.

Enfim, um assunto de tamanha gravidade vem sendo manobrado com fins ideológicos, hegemonistas e principalmente financeiros, contrariando os objetivos sérios e altruístas que sempre conduziram a ciência e a luta ambiental em outros períodos recentes.

Noção de processo

Sugestão de domingo: Todo “depois” é precedido de um “antes” e um “durante”. Construa o que deseja com calma, consciência e determinação.