28 agosto 2024

Sylvio: justiça tributária

Em uma segunda etapa, a reforma tributária deverá cuidar do imposto de renda da pessoa física, corrigindo a injustiça que o faz recair apenas sobre o assalariado, com alíquotas pesadas, enquanto os ricos, que recebem grandes quantias sob o titulo de lucros e dividendos são isentos desde 1995. Tal medida se impõe por justiça e busca de uma melhor distribuição de renda.

Sylvio Belém 

Palavra de Luciana Santos

Em entrevista exclusiva, Luciana Santos, Ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, conversa com o Portal Vermelho sobre as políticas no setor e sobre as eleições 2024_ Apresentação: Guiomar Prates, editora do Portal Vermelho.

No X (ex-Twitter) @lucianoPCdoB

O histriônico presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, mostra-se ignorante e inquieto quanto à política externa altiva e proativa do Brasil. Cobra de Lula um alinhamento com os EUA e a OTAN. Ridículo.

Leia: https://lucianosiqueira.blogspot.com/2022/11/nova-diplomacia-brasileira.html

Uma crônica de Anamaria Vital

Conversa com um trabalhador uberizado de direita
Anamaria Vital   

Eu uso quase que diariamente os serviços da Uber e reconheço que essa empresa me ajuda na minha mobilidade, já que o transporte público na minha cidade é um castigo. E sei que a empresa também acaba por absorver uma massa de desempregados que, não fosse ela, como estariam sobrevivendo hoje em dia? Mas reconhecer isso é uma coisa. Achar que o trabalhador é “empresário” é outra bem diferente.

Tenho antes que reconhecer que aquela massa de desempregados não surgiu do nada. Ela foi estrategicamente criada para ser depois explorada, no processo que Galo de Luta chama de “encurralamento”. As pessoas foram levadas a trabalhar na Uber e no Ifood porque não havia outro meio de conseguirem dinheiro para sobreviver. Claro que, no meio desse contingente de trabalhadores, há os ocasionais, os que fazem dela, da Uber, uma segunda fonte de renda, os que estão ali só para passar o tempo, mas a maioria sobrevive daquilo.


Retornando ao início: eu uso os serviços da Uber quase que diariamente e gosto muito de conversar com os trabalhadores, não só porque gosto de conversar mesmo, não só para o tempo passar mais rápido, mas especialmente como um experimento social, para saber o que os trabalhadores pensam sobre a vida, política, Uber, direitos trabalhistas e sociais. E nossa, hoje a conversa foi difícil.


Conversei com seu Euclenio, um trabalhador uberizado de direita. A conversa começou sobre shoppping centers, passando para lavagem de dinheiro, mercado de ações, passando para os esquemas de pirâmides e marketing de rede até chegar a Pablo Marçal. Isso mesmo. Em pleno Recife, o pleito paulista dominando o debate. Lá veio seu Euclênio dizer que o tal influencer candidato estava escancarando tudo, batendo contra o famigerado “sistema”…


Eu já tinha percebido que se tratava de um senhor de direita quando ele veio falar que o presidente fala suas “besteiras” e as bolsas caem. E já percebi que se tratava de um machista médio, quando veio com seu “mansplaining”, ou em bom português, com sua tentativa de me explicar algo, sem sequer perguntar se eu entendo do assunto, e usando expressões como “entenda”, “você precisa entender”, etc.


Já ali, no começo da corrida, quando ele falou sobre a bolsa de valores, depois de me colocar num lugar inferior, subalterno, no qual ele, como homem branco, poderia me ensinar algo, eu resolvi de imediato me colocar no assunto e nos coloquei no nosso lugar de cidadãos comuns que pouco sabemos sobre o mundo empresarial e suas maldades, porque bolsa subir ou cair por causa de fala de presidente não tem nada a ver com mercado. Tem a ver com maldade mesmo de quem usa ferramentas empresariais para destruir reputações de países. Maldades que sequer temos conhecimento pois se trata de um universo que pouco acessamos, mas que sabemos que existem. Mencionei o caso Americanas para pontuar.


Depois a conversa chegou na clássica frase de quem tem complexo de vira-latas: “brasileiro gosta de cambalacho”. Adoro quando o brasileiro fala sobre si em terceira pessoa. E sim, estou fazendo isso agora como um recurso de ironia. Mais uma vez me coloquei na conversa e educadamente respondi: “poxa, eu já pensei assim também, mas um amigo me chamou a atenção. Não podemos nos depreciar assim. Somos um povo honesto e trabalhador. Eu não gosto de cambalacho e tenho certeza de que o senhor também não gosta. A gente tem que parar de falar da gente assim. Claro que tem gente safada e corrupta aqui, como há em toda parte. Esses gringos mesmo, tocando terror mundo afora…”. Seu Euclênio titubeou, concordou e depois desconcordou e veio com a pérola: “americano é sério”…


Primeiro que eu nem me refiro ao povo dos Estados Unidos como “americanos”. Americanos somos todos nós que vivemos no continente América. O correto é se referir a eles como “estadunidenses”. Mas não entrei nesse detalhe pois a essa altura já estava um pouco afobada, a respiração curta, nossa, pobre de direita me dá nos nervos! Apenas disse que não concordava, que eles não eram sérios, que lógico que tem gente honesta e trabalhadora entre os estadunidenses, como há em todo lugar do mundo, mas que um país que sai fazendo guerras e aplicando golpes mundo afora não pode ser considerado um país sério…


Veio então o tal do Marçal… Aí foi que a bosta virou um boné bem feio com um M de Merda bordado na frente. Seu Euclênio veio me dizer que o tal stand-up-influencer era contra o “sistema” e eu apenas disse que achava absurdo se votar num cara que saiu do nada! Que nunca subiu um morro antes, que nunca esteve preocupado com a população! E seu Euclênio, cujo nome eu poderia confundir com ingênio, mas de ingênua essa gente feito ele não nada, veio me dizer que qualquer um poderia se candidatar. E eu disse que sim, qualquer um pode se candidatar e qualquer um pode subir o morro sem precisar ser candidato, só para ajudar a comunidade e que o tal Pablo, mesmo cheio do dinheiro, nunca fez isso antes.


A certo ponto da conversa, eu falei que eu e ele, Euclênio, não o Marçal, éramos trabalhadores. E aí seu Euclênio me perguntou com o que eu trabalhava: sou servidora pública, respondi. E ele me perguntou o que eu fazia dentro do funcionalismo público e, quando eu disse que era oficial de justiça, ele veio com aquele chavão de quem odeia servidor público e nem sabe o porquê: “você pode até ficar chateada, mas eu vou ter que lhe dizer: servidor público não produz riqueza. Vocês prestam serviço para o povo, mas não produzem riqueza”. E aí, meus queridos, eu juro, eu não tive raiva, porque de fato eu não produzo riqueza, mas sei que tem servidores públicos que produzem sim muita riqueza e mais: o que é riqueza? Porque para mim uma rua limpa por um Gari é riqueza. Uma justiça justa é riqueza, uma vacina é riqueza, um ensinamento de um professor é riqueza. E eu então lhe perguntei: E o senhor, seu Euclênio, que está na iniciativa privada, o senhor produz riqueza?


“Eu produzo sim! Eu consumo!”. Mas oooolhhaaaaaaa! E eu já no calor da discussão, mas mantendo minha classe e elegância, lhe respondi: “Mas eu também consumo, seu Euclênio! 


O senhor presta um serviço tanto quanto eu. Mas sabe pra quem o senhor gera riqueza? Para a Uber!”


Ele se calou. Depois a conversa proseguiu, vários outros absurdos vieram, chega dá cansaço só de relembrar e contar, mas vamos lá… Seu Euclênio, antes de se tornar um trabalhador uberizado, foi dono de um pequeno negócio, seu negócio quebrou e ele não pôde pagar os direitos dos seus empregados. Mas ele estava ali, se comparando com grandes empresas que lucram bilhões de dólares e que, intencionalmente, não pagam os direitos básicos dos seus trabalhadores, como a Uber. Eu falei em férias, que a Uber deveria e teria total condição de pagar um mês de férias a cada um dos motoristas e ele disse que não fazia questão de férias. Mas eu falei que ele não pode tirar a necessidade de todos por ele, pelo jeito dele de viver a vida e ver o mundo. Falei do meu irmão, que trabalha 12 horas por dia num subemprego como fisioterapeuta e que há 3 anos não tira férias. E aí ele veio falar em educação financeira, que se todo trabalhador se organizasse, poderia tirar férias, e eu disse que, de novo, ele não poderia falar por ele, porque cada um tem uma condição de vida diferente: quem tem um filho é diferente de quem tem dois, três, quatro, cinco filhos. Cada situação muda.


E aí falei desses pobres desses entregadores de Ifood, pedalando 16 horas por dia, que mereciam ter férias e ele veio com o clássico: “se soubessem que o lápis pesa menos que a enxada”, como se esses meninos tivessem deixado de estudar por culpa deles, e não por um sistema que os obriga a trabalhar desde cedo, como se esses meninos não tivessem fome, como se essas crianças que são mal alimentadas e têm seu cérebro desenvolvido à base de biscoito recheado pudessem competir em pé de igualdade com quem tem casa, comida, família…


Eu estava ansiosa para chegar em casa, mas o trânsito da Rosa e Silva maltrata (ah se maltrata… se bem soubessem, esses políticos vaidosos jamais iriam querer seu nome vinculado a trânsito) e sim, a Rosa e Silva me fez ter que conversar com seu Euclênio por intermináveis 30 minutos. Um show de horrores, minha gente. Uma falta de consciência de classe absurda. Nos despedimos educadamente e eu agradeci a oportunidade de exercitar meus argumentos e ele pareceu ter gostado da conversa também. Na saída, antes de fechar a porta, mais uma vez eu disse: Eu e o senhor somos trabalhadores! Não vamos nos esquecer disso”.


Espero ter deixado uma sementinha, ainda que pequena, na cabeça do seu Euclênio. Mas confesso que cheguei triste em casa: Eu ainda acredito no brasileiro, mas poxa, tá cada dia mais difícil nos defender de nós mesmos, de um tanto de gente se entregando ao entreguismo de direitos e a um individualismo sem tamanho a troco de nada, absolutamente nada, a não ser de uma ideologia que os acolhe: a do ódio a si mesmo.

*Poeta, autora de "Entre dois corpos"

História viva

USP realiza diplomação póstuma de 15 estudantes vítimas da ditadura
Entre os homenageados estão Helenira Resende, Suely Kanayama e Frei Tito. Presidenta da UNE, Manuella Mirella, esteve na cerimônia: “passo crucial na busca por justiça”
Murilo da Silva/Vermelho  

Vidas e sonhos foram interrompidos durante a ditadura militar, um trágico capítulo da história brasileira. A USP (Universidade de São Paulo) encontrou uma forma de homenagear os jovens que sonhavam com dias melhores para o país. Na segunda-feira (26), 15 de seus alunos mortos no período receberam diplomação póstuma, entregue aos seus familiares.

A cerimônia de diplomação ocorreu em um dos auditórios da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), na Cidade Universitária, capital paulista. Ao todo serão 31 documentos entregues pelo projeto Diplomação da Resistência. 

Além dos 15 diplomas dessa segunda, outros dois alunos já haviam sido homenageados com a justa diplomação:  Alexandre Vannucchi Leme e Ronaldo Mouth Queiroz, alunos do Instituto de Geociências (Igc), mortos em 1973.

“A União Nacional dos Estudantes (UNE) vê a reparação realizada pela USP como um passo crucial na busca por justiça e reconhecimento das vítimas da ditadura militar. Para a UNE, essas ações de reparação são fundamentais não apenas para honrar a memória daqueles que lutaram pela democracia e foram brutalmente assassinados, mas também para educar as gerações futuras sobre a importância da resistência e da defesa dos direitos humanos”, disse a presidenta da UNE, Manuella Mirella, que esteve na cerimônia de diplomação.

Mirella falou sobre as emoções envolvidas entre familiares e militantes presentes: “Os sentimentos durante a cerimônia eram marcados por uma mistura de dor e alívio. Dor pela perda irreparável dos entes queridos, mas também alívio e um senso de justiça pelo reconhecimento oficial de suas lutas. A cerimônia foi carregada de emoção, e para muitos familiares, representou um momento de encerramento e de afirmação de que o sacrifício de seus entes queridos não foi em vão”, colocou. 

Diplomados

Entre os homenageados estava Tito de Alencar Lima, o Frei Tito. Ele iniciou o curso de ciências sociais em 1969. Foi preso, torturado e exilado. A sua história é retratada no livro, de autoria de Frei Betto, e filme com mesmo nome ‘Batismo de Sangue’. Ele teve a vida marcada pela tortura sofrida pelos agentes da ditadura militar que o levou ao suicídio na França, em 1974.

Também foram homenageadas duas guerrilheiras do Araguaia: Suely Yumiko Kanayama e Helenira Resende de Souza Nazareth.

Kanayama foi estudante de Letras e desapareceu em 1973. Helenira de Souza também cursou Letras da USP e foi vice-presidente da UNE. Ela foi morta e torturada na Guerrilha do Araguaia, em 1972.

“Helenira Resende, Suely Kanayama e Frei Tito deixaram um legado de coragem, resistência e dedicação à luta por um Brasil mais justo e democrático. Helenira, como a primeira mulher negra a ocupar um cargo de liderança na UNE, é um símbolo poderoso de luta não apenas contra a ditadura, mas também contra o racismo e o machismo estruturais. Sua vida e seu sacrifício inspiram a continuidade das lutas por igualdade e justiça social”, pontuou Mirella.

“Suely Kanayama, com sua atuação no Araguaia, e Frei Tito, com sua resistência e martírio, demonstraram que a luta pela liberdade e pelos direitos humanos é uma batalha que deve ser travada independentemente das adversidades. Eles nos lembram da importância de não ceder diante das ameaças à democracia e de continuar vigilantes e atuantes na defesa dos direitos conquistados. Em um momento em que a democracia brasileira enfrenta desafios constantes, o legado desses lutadores serve como uma lembrança poderosa de que a liberdade e os direitos civis devem ser defendidos com firmeza e que a história não deve ser esquecida, para que os erros do passado não se repitam”, completou a presidenta da UNE.

Comissão da Verdade da USP

Os alunos da FFLCH-USP homenageados foram indicados pelo projeto Diplomação da Resistência, que toma como base dados da Comissão da Verdade da USP, que, desde 2013, “busca por informações referentes às graves violações dos direitos humanos de alunos, funcionários e professores da USP, no período de 31 de março de 1964 a 15 de março de 1985”.

Como traz o relatório final da Comissão: “dentre os 434 mortos [revelados pela Comissão Nacional da Verdade], 47 deles tinham relação com a Universidade de São Paulo, ou seja, 10% do total de mortos e desaparecidos em todo o território nacional, número muito alto se for levado em conta que a comunidade da USP não era grande na época. Dentre os 47 casos citados, 39 eram alunos, 6 eram professores e 2 eram funcionários. Entre os alunos que morreram ou desapareceram, 70% deixaram de frequentar a USP, entre 1967 e 1971, um pouco antes do seu desaparecimento”.

Leia também: https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/03/golpe-de-1964-palavra-do-pcdob.html 

27 agosto 2024

IA desumaniza?

A IA e a beleza da imperfeição humana
Reflexões filosóficas sobre o futuro de uma tecnologia que emula sujeitos, razão e até afetos. Estaria na desumanização das sociedades digitais o grande risco? Por que a limitação, que gera vida em comunidade, é crucial para uma ética na IA?
/Outras Palavras  

Nós estamos no promontório extremo dos séculos!…
Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar
as misteriosas portas do Impossível?
O Tempo e o Espaço morreram ontem.
Nós já estamos vivendo no absoluto,
pois já criamos a eterna velocidade onipresente.
Marinetti, Manifesto Futurista – 1909


Estamos todos imersos nesse momento histórico. Tanto aqueles que pesquisam e desenvolvem as novas tecnologias de informação, quanto os que participam em toda a cadeia de produção e gestão destas, até a chegada ao usuário no sistema de informação, ou simplesmente no ambiente social comum. No meio acadêmico, observamos também uma gama variável de interesse nessa virada tecnológica; desde a reflexão mais básica, dos fundamentos teóricos de uma nova epistemologia (Floridi, 2011) – que alcançará até as raias extremas da questão cibernética, com a IA Geral (Bostrom, 2011) e o transhumanismo (Kurzweil, 2005) – passando pela ampla discussão do impacto político-econômico e as atuais questões de regramento legal e ético, chegando aos que já assumem orientar-se no ordenamento desse futuro. 

O que proponho observar é que toda essa ‘ecologia’ (cosmologia?) atual está envolta permanentemente, com uma intensidade muito marcante, que quase se destaca por si, na expectativa permanente do futuro. O zeitgeist que permeia o nosso ponto de observação da realidade factual, principalmente quando abordamos as tecnologias de informação e de IA seria o sentimento onipresente de futuro.

Assim, em toda reflexão epistemológica, no cerne da expectativa metodológica da pesquisa, em cada planejamento de processo de gestão, no escopo das discussões de regulamentação legal e ética para a aplicação prática das novas tecnologias1, vai se manifestar a dificuldade em capturar o ritmo acelerado do avanço tecnológico-informacional. Este ritmo que marca o desenvolvimento exponencial das capacidades computacionais está sendo espelhado em uma sensação abstrata de corrida pela compreensão de algo que ainda não temos. Uma promessa empírica, ainda de limites indefinidos, por conseguinte com alguma semelhança ao conceito epistêmico de infinito. Essa imprevisibilidade do futuro vem no ent anto amparada na perspectiva dos olhos da ciência2.

Chama-nos a atenção a referência quase explícita a este momento, que fez o escritor de ficção norte-americano William Gibson por volta ainda da virada do milênio, quando vaticinou que “O futuro já está aqui, só não está distribuído de maneira muito uniforme (Chatterton; Newmarch, 2017) Há de se questionar se sua sentença pressupõe apenas uma crítica de caráter político à iniquidade social no acesso aos bens tecnológicos e avanços que o futuro já trouxe para uma parte da população. Mas há espaço para uma interpretação mais sutil, onde a sensação do que será o futuro já esteja presente na compreensão e sensibilidade de alguns, e mantenha a grande maioria na latência virtual de entender o que pode acontecer. No fundo tratamos de um sentimento de futuro que se impõe e afeta a todos.

Para uma adequada reflexão de como estamos sendo afetados pela expectativa dessas tecnologias que se apresentam, o pensamento de Spinoza, em sua filosofia dos afetos, nos parece a referência mais ajustada nesse momento. Spinoza esclarece que somos afetados por coisas do passado ou do futuro da mesma forma que podemos ser afetados pelas coisas com que vivemos no presente; em ambos os casos, as imagens também podem nos levar ao sentimento de alegria ou tristeza (Parte 3 – Proposição 18)3. Naturalmente, tendemos a manter o sentimento de que esta coisa passada ou futura está no presente, mesmo que ela ainda não exista. Assim, inicialmente poderíamos interpretar que a expectativa de novas tecnologias que ainda estão por surgir nos afetam como se já existissem no presente.

Nessa expectativa, podemos reagir com esperança de que nos beneficiarão, sentindo assim o que ele denomina uma alegria instável; ou de outra forma podemos ter medo de que nos prejudiquem, com o que reagiremos com uma tristeza também instável. Em ambos os casos, o caráter instável do sentimento se dá porque nada ainda se concretizou. (Parte 3 – Proposição 18 – Escólio 2)4. É com esse modelo que temos reagido com expectativa às coisas futuras porque a situamos no nosso tempo presente.

Esse poder de pensar coisas do futuro, ele também afirma, está relacionado à nossa imaginação e esclarece que podemos assim imaginar essas coisas futuras, mas sempre de forma contingente (Parte 2 – Proposição 44 – Corolário 1)5. Não sendo uma necessidade sua ocorrência, essa sensação permanece e mantêm a nossa expectativa; com a incerteza de concretização, enquanto vamos tratando de considerar todas as possibilidades, sejam aquelas que nos atemorizam, ou as que nos estimulam esperançosamente.

O fato a ressaltar é que ao nos afetarmos de forma contínua quando experimentamos muitas coisas como expectativa, esses afetos não são tão estáveis e nos deixam inseguros e indecisos; e esta é a situação que observamos no nosso referido momento histórico, em que tratamos das novas tecnologias, com a possibilidade de realização futura. A sobreposição frequente e exposição à multiplicidade de objetos imaginados futuros nos traz a permanência instável de sensação de contingência, que não mais nos alinha no presente, mas sim “a imagem ligada a um tempo futuro” (Parte 3 – Proposição 18 – Demonstração e Escólio 1)6

Ao acompanhar os fatos que se instalaram no cenário de uso social das novas tecnologias na última década, com a chegada principalmente dos modelos de IA, fomos capturados para a mesma velocidade da evolução na qual caminha o mundo computacional. Uma velocidade que migrou do mundo externo das máquinas e foi internalizada pela tecnologia informacional (Berardi, 2019, p.16). Nesse sentido, sabendo que somos moldados pelas tecnologias que criamos e com as quais lidamos, a dimensão colossal e em contínua expansão das tecnologias de IA e a Big Data extrapolam qualquer possibilidade de acompanhamento pelas capacidades humanas. Então, essa pode também ser uma interpretação para o que pensava Gibson, de um futuro que já está aqui, embora não seja uniformemente distribuído.

O futuro contínuo – por fim, resulta que nos sentimos todos ultrapassados; o nosso presente está não só em permanente expectativa do que virá, do que ainda não se concretizou, da promessa ou aposta tecnológica máxima, inexplorada, ainda irrealizada, no tempo inalcançável do futuro, como está sempre superado pelo que ainda nem demos conta de que já está sendo realizado… somos habitantes do passado no nosso tempo presente, que é pura presença do futuro, de forma contínua.

Um futuro que desaponta em sua expectativa, pois não se concretiza nunca por completo, seria uma chave para compreender o que frustrou o pensamento do mundo moderno? Franco Berardi nos traça uma panorâmica das propostas futuristas que preencheram o século XX; desde o Manifesto Futurista, de Filippo Tommaso Marinetti, que enfatiza os valores estéticos e políticos da máquina, da velocidade, da violência e da guerra de uma Itália em construção (Berardi, 2019). Do movimento futurista italiano, ao russo e ao japonês, Berardi desemboca no século XXI, onde estamos “rodeados e penetrados por máquinas internas, máquinas infobiotécnicas, cujo funcionamento e cujos efeitos sobre a evolução cultural da espécie humana não somos ainda capazes de avaliar plenamente” (Berardi, 2019, p.14).

Esse pensador da sensibilidade nos aponta esse momento de expectativa como futurabilidade. Uma pluralidade de futuros possíveis inscritos num presente preenchido pela utopia virtual que caracterizaria a depressão contemporânea – tanto psíquica quanto econômica – resultado da “consciência de que nenhuma projeção do futuro é verdadeira” (Berardi, 2019, p.143). Apesar do tom, ele fecha o discurso do seu texto lançando, com esperança (ou militância?), um ‘Manifesto PósFuturista’, onde convoca a ironia, o perigo do amor, a autonomia, a lentidão veloz(!) para, ao final, cantar uma infinidade presente que não necessite mais do futuro (Berardi, 2019, p.138).

O que aparece como ponto em comum em todas essas perspectivas de futuro é a sua própria presença contínua, no sentimento marcado da permanente expectativa. Estamos desta forma pensando com medo ou com esperança? O que podemos fazer da nossa expectativa? 

A caixa de Pandora da IA

Este mito muito antigo, tratado por Hesíodo em suas duas obras – Os trabalhos e os dias e Teogonia – é uma referência simbólica quase insuperável do processo de fundação da humanidade para a cultura ocidental. Considerado o primeiro poeta da Grécia Arcaica que canta em primeira pessoa, Hesíodo nos descreve com mais detalhes no primeiro poema o mito de Prometeu, no que se refere ao aspecto que nos inspira a pensar na caixa de Pandora. Comenta-se mais o seu segundo poema, porque ali é que se dá a aventura de Prometeu roubando o fogo celeste e trazendo o dom divino aos homens; no entanto, é nos ‘Erga’ que podemos ter uma melhor interpretação da herança que Zeus concede aos seres mortais (Hesíodo, 1996). Com a caixa ou jarra (píthos) de Pandora instaura-se definitivamente a humanidade, pois dali sairão todas as habilidades que terão os homens; a potência de tudo o que virar a ser, e caracteristicamente todos os dons comparáveis às capacidades dos deuses. Zeus, porém, revoltado com o engodo de Prometeu, que lhe roubou o fogo natural, devolve em retribuição aos homens um fogo artificial, um arremedo técnico. Na caixa estará ainda, com o conjunto dessas habilidades copiadas dos deuses, o trabalho como técnica (Hesíodo, 1996, p.63); carregado da ambiguidade de todo o bem e o mal que darão potência à raça dos homens.

A ambiguidade que demarca o saber e o domínio da técnica instala-se para sempre como uma predição deste destino; e não é a esperança que nos resta no fundo da caixa de Pandora, como normalmente se interpreta numa leitura apaziguadora que destoa do espírito agônico grego. A Élpis, que permanece na caixa depois desta novamente ter sido tampada, tem o sentido muito mais próximo ao da expectativa, da espera (Stiegler, 1996, p.196/197). Mas mantém-se a marca ambígua de uma espera, “temor e esperança a uma só vez, previsão cega, ilusão necessária, bem e mal simultaneamente” (Hesíodo, 1996, p.74). A expectativa que carrega em igual medida o medo e a esperança é a grande marca do tempo futuro.

Nos mesmos moldes do mito inaugural da humanidade, parecemos estar vivenciando o nascer de uma nova geração de habilidades que transformarão o mundo como o conhecemos. A excitação de alguns deuses no Olimpo da ciência contemporânea aparentemente dá como certa a possibilidade de já estarmos assistindo o que será essa nova potência manifesta dos dados na realidade virtual. Desde as previsões de um marco histórico de singularidade (Kurzweil, 2005), até as declaradas demarcações de uma nova era, como o período de Hiper-história, no conceito de Floridi (Floridi, 2014). A propulsão transformadora da revolução informacional a partir da chegada das tecnologias de IA nos apresenta o cenário deste futuro, onde cogitamos pela primeira vez na história a presença de alguma coisa a que se possa definir como p&oacu te;s-humano.

Assim, como se poderia esperar, uma forte ambiguidade se revela nas possibilidades dessa promissora ampliação do conhecimento e o discurso que se apresenta traz muitas vezes a marca de uma disputa entre o bem e o mal que se confunde com o entendimento do próprio objeto tecnológico. Em parte, porque diferentemente de outras tecnologias de grande potencial transformador nas descobertas dos últimos séculos, como o domínio da eletricidade, da energia nuclear e da engenharia biomolecular, a informação é a única que se comporta como insumo tecnológico, mas também como instrumento ideológico, o que aumenta consideravelmente o seu poder de controle sobre a sociedade.

Por dentro desse debate, está a tentativa de fugir do maniqueísmo de polaridades de uma postura tecnofóbica ou tecnofílica relacionada às tecnologias de IA, que pretende um posicionamento neutro, em geral voltado às características puramente objetivas do mecanismo do objeto técnico. O que nos parece uma posição que não enfrenta criticamente o problema. Ora, diante da grande expectativa atual, tornou-se muito comum argumentar que o desenvolvimento tecnológico sempre produziu ondas de rejeição conservadoras ao longo da história, que exacerbam o seu risco frente ao futuro da humanidade, e que isso nunca se consumou, mantendo o desenvolvimento tecnocientífico no seu curso de progresso contínuo. Obviamente discordamos, pois nos parece haver duas fortes objeções a esse argumento.

A primeira é que, do ponto da realidade factual, a história se esgota no presente em que estamos vivendo e não tem essa determinação como uma lei natural. Essa interpretação somente é possível pelo evidente viés de ‘discurso dos vencedores’ que sustenta esta tese, e que não dá conta da extinção de povos, culturas e… outras histórias; fato que pode ser claramente exemplificado no enfrentamento basicamente tecnológico, por exemplo, entre europeus e ameríndios nos últimos séculos. Sempre um massacre, que se sucedeu entre outros tantos, tem sido o exemplo da força das tecnologias para dar fim a muitas histórias. Notadamente, as tecnologias de IA tem demonstrado já o seu potencial para o extermínio dos mais fracos no refino das guerras. Não podemos desprezar o uso dos drones e reconhecimento f acial na matança de civis no Iraque e Afeganistão (Khan, 2021), nem as sofisticadas engenharias de vigilância, seleção e extermínio no atual genocídio de Gaza ( Abraão, 2024).

A outra objeção é que se não reconhecermos os grandes riscos de nossas tecnologias, devemos ignorar totalmente o nosso temor de extinção e autodestruição pelo arsenal nuclear, que ainda assombra as bases da geopolítica mundial; os riscos de criação de quimeras incontroláveis, pelo desenvolvimento de engenharia genética, que motivaram o conferência de Asilomar (Mukherjee, 2018); e mais evidente ainda, esquecer todo o debate atual do antropoceno e do desastre climático, uma consequência direta da escalada tecnológica industrial (Gabriel, 2018).

Logo, devemos explorar esta expectativa do fundo da ‘caixa da IA’ projetando as possibilidades que se apresentam, sabendo que não estamos mais transformando tecnologicamente uma força da natureza, como a hidráulica; ou desenvolvendo braços mecânicos, que indistintamente funcionam da mesma forma em tantos animais. Nem aprendendo a usufruir de outras propriedades físicas como a eletricidade, ou a energia nuclear, que passamos a dominar com desejável segurança. Nem mesmo a matéria biológica, onde descemos aos dados básicos da bioquímica que codifica as formas de seres vivos. Mas lidamos agora propriamente com algo que nos caracteriza como humanos, que situa nosso lugar ontológico em qualquer concepção de universo que possamos considerar do momento sócio-histórico que vivemos. Estamos projetando na nossa criação tecnológica a emula&cced il;ão da nossa capacidade cognitiva, das nossas formas de razão e até mesmo do afeto. Desde o início da caminhada do pensamento ocidental, desde os antigos gregos as relações entre o humano e suas tecnologias nunca foram a ponto tão extremos antes, onde aquilo que propriamente nos caracteriza, a capacidade cognitiva, é apresentado em objetos técnicos que “se tornam independentes porque são tão perigosamente semelhantes a nós” (Malabou, 2019).

Qual marca nos deixará essa nova onda tecnológica? Diante da concepção de que somos todos moldados pelas tecnologias que criamos e pela nossa relação com a técnica, o que esperar do processo evolutivo humano com objetos que simulam o sujeito, substituem os atos cognitivos e assumem o controle da realidade? Qual será a herança epifilogenética para a humanidade a partir das tecnologias de IA, onde a hegemonia do cálculo ameaça a reflexão e o pensar (Stiegler, 2019)? Qual o risco de estarmos caminhando para uma redução de nossas capacidades estéticas (Berardi, 2019)?

Assumindo que todo trabalho tem algum grau de protecidade, as propostas do futuro já estão abertas para o caminho de práticas com participação cognitiva da IA. Como esperado, diante das potencialidades deste novo universo tecnológico, um amplo espectro de abordagens para exploração e utilização de tecnologias de IA começam a delinear e traçar os caminhos a se seguir. Nas práticas assistenciais intersubjetivas, há correntes que prescrevem uma automação condicional, subordinada à decisão humana, escalonada em níveis de responsabilidade (Topol, 2019). Uma abordagem que, no entanto, não garante uma precisa demarcação das fronteiras dos sujeitos, pois com a chegada dos programas de Large Language Model o conflito ético se impõe, pela imprecisão nos limites da responsabilidade cognitiva (Lee, Gol dberg, Kohane, 2023).

Outro grande desafio é o avassalador desenvolvimento de dispositivos – sejam os wearables ou cognitive devices, chatboots, robots. A partir do imenso interesse da indústria de insumos tecnológicos na produção de novidades para o mercado de consumo, o ímpeto científico não tem definido barreiras muito claras para seus projetos de pesquisas. Assim, tão audaciosos quanto foram os trabalhos com engenharia genética no século passado, ameaçando o controle sobre os limites do mundo biológico, as pesquisas com simulados protéticos biológicos como o Human Brain Project e o American BRAIN Initiative abrem as portas para um controle sem precedente sobre a cognição e sua automação (Malabou, 2019). Esse poderá ser o novo pensar cibernético? Como lidar com a dissolu&cce dil;ão, ou indefinição ontológica do humano e seus reflexos no seu autoconhecimento? Até onde a protecidade e extensão tecnológica, no modelo previsto por McLuhan, poderá nos levar, se já apontamos para modelos de fusão e simbiose (Do, Maes, Mueller, Semertzidis, 2023)?

Aberta a Caixa de Pandora da IA, podemos já ter contato com alguns dos futuros possíveis, pensados em realidade no nosso tempo presente. É possível expandir para um polo, na defesa ampliada de “todas as formas de senciências, incluindo humanos, animais não humanos e quaisquer intelectos artificiais futuros, formas de vida modificadas ou outras inteligências às quais o avanço tecnológico e científico possa dar origem” (Baily et al, 2009, s/p). Aqui, teremos a “oportunidade de explorar os domínios transumanos e pós-humanos” […] “na defesa de que a natureza humana pode ser modificada” [e haja] “garantias para a escolha individual acerca de tecnologias de melhoramento” (Bostrom, 2005, p.13). Para esse futuro, já está presente a considera&cced il;ão de que “a ciência e a tecnologia estão agora mudando radicalmente os seres humanos e podem também criar futuras formas de vida sapientes e sencientes avançadas, os transumanistas estabelecem esta Declaração de Direitos Transumanistas para ajudar a orientar e promulgar políticas sensatas na busca pela vida, liberdade, segurança pessoal e felicidade” (U.S. Transhumanist Party, 2018, s/p.). Essa corrente manifesta a epítome de desejos de superação humana com o auxílio de tecnologias inovadoras, seja lá o que podem lhe significar essa superação humana. É a linguagem da eficiência produtiva da era industrial que os estimula. Mais anos de vida, mais capacidades produtivas, mais qualidades cognitivas; é já o desejo de correr atrás das potencialidades computacionais. Uma disputa que já se inicia perdida. Em todo o manifesto, que se tornou uma forte corrente política, perpassa o direito individual a essa superação baseada na tecnologia encarnada, assume uma versão cibernética do Übermensch e deixa à governança das organizações estatais o cuidado com os riscos e com a coletividade, em alguns de seus poucos artigos.

Mas podemos buscar na Caixa o florescer de abordagens no extremo oposto, que se voltam para as tensões do capitalismo digital, o necropoder e a descolonização do pensamento acadêmico no estudo da informação, da automação e da inteligência artificial. As perguntas que dão os fundamentos para se construir uma ética digital seriam: “O que é uma boa sociedade? O que precisa ser feito para estabelecermos uma boa sociedade? Quais foram os principais fatores que impediram o estabelecimento de uma boa sociedade? O que devemos fazer para promover uma boa sociedade?” (Fuchs, 2022, p.43). Assim, nos parece que começamos pelo interesse que se pretende por sociedade humana; a tecnologia virá na mira desse horizonte. E não precisamos nos ancorar em um arcabouço histórico da natureza humana, o que pode nos deixar sem consenso e nos tirar o tapete. É preciso assumir o nosso momento e perceber que “a desumanidade é o problema central das sociedades digitais contemporâneas” (Fuchs, 2022, p.45). Devemos nos voltar para a grande expectativa de possibilidade e buscar um avanço definitivo sobre a dívida histórica de fixar valores universais (Gabriel, 2022).

Nesse contexto, é possível enfrentar a tarefa de construção de modelos que partam desses princípios e incluam no seu design uma IA centrada no ser humano, que ofereça “uma visão de tecnologias futuras que valorize os direitos humanos, a justiça e a dignidade” (Shneiderman, 2022, p.21)Buscar um alto nível de controle humano para um alto nível de automação estaria desde o início nas metas do design para o futuro; buscando sempre “distinguir entre pessoas e computadores, o que aumenta o respeito pela responsabilidade humana e orienta as pessoas nas maneiras apropriadas de usar o poder do computador” (Shneiderman, 2022, p.45)Nota-se que, nesse projeto, abre-se uma perspectiva de que “os computadores desencadeiem novos níveis de criatividade humana, mas não subs tituam a criatividade humana” (Shneiderman, 2022, p.77).

Começa a se desenhar uma corrente ética para a Era Digital, na composição de uma proposta política onde o homem e seus valores estão novamente no centro da atenção. Como uma tentativa de vasculhar na expectativa da Caixa de Pandora da IA aquilo que desejamos: uma demarcação antropológica que defina que “não somos robôs, nem inteligência(s) artificial(is), e assim por diante, e que não devemos ser tratados como tal”; que nós é que “devemos manter o controle sobre a tecnologia digital”; e que essa tecnologia “deve estar alinhada com os objetivos e valores humanos, […] uma ética centrada no ser humano”. A proposta do Humanismo Digital assumidamente tem uma “dimensão política que não nos deveria surpreender, uma vez que as tecnologias digitais, como todas as tecnologias, já são políticas: não são apenas utilizadas para fins políticos, mas também têm consequências políticas e tomam forma dentro de constelações políticas e sociais específicas” (Coeckelbergh, 2024). Este autor já nos advertia que responder a questões éticas e políticas sobre como viver, como lidar com nosso ambiente e como nos relacionarmos melhor com seres vivos não humanos “requer mais do que inteligência humana abstrata (por exemplo, argumentos, teorias, modelos) ou reconhecimento de padrões de IA” (Coeckelbergh, 2020).

Este humano presente deve esperar para o futuro o direito de manter-se limitado em suas capacidades, imperfeito em seus comportamentos, inseguro em suas relações, ter necessidades e depender da nossa comunidade – o simples e intrasferível direito de pertencer a humanidade (Vianna Sobrinho, in press) . O propósito de esperar pela singularidade num processo abstrato da história nos mantém num futuro incerto e permanente; enquanto a busca de sentido na expectativa que nos encontramos pode ser uma melhor proposta para seguir no que temos nós de singular, nas nossas vivências individuais e coletivas, e na legítima vontade de qualificar a humanidade como detentora de valor em si.


Referências

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Notas:

1 O conceito de Tecnologias de Fronteira remete à característica necessidade de capturar o ritmo rápido de seu desenvolvimento, explorando a difícil tarefa de normatização política e legal, frente aos seus efeitos potenciais em larga escala sobre as economias e sociedades. (UN Department of Economic and Social Affairs, 2018.)

2 Dentro de suas concepções de filosofia da ciência, Niels Bohr teria afirmado que “não há algo mais difícil do que prever o futuro em ciência” (Bazzan e cols, 2023)

3Spinoza, B. Ética – pg.111

4Idem – pg. 111-112

5Idem – pg. 84

6Idem – pg.111

Imagem: “Mulher velha no espelho” (1615), de Bernardo Strozzi

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