Charge de Enio Lins na Gazeta de Alagoas
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
12 agosto 2012
Uma crônica da África
Catabil sobre o Índico
Luciano Siqueira
Luciano Siqueira
Publicado no Blog da Revista Algomais
Faz um calor quase insuportável no Rio de Janeiro, 39,9 graus, naquela tarde de 31 de janeiro de 1951. O presidente Getúlio Vargas acabara de tomar posse. Após o juramento formal dirige-se às escadarias do Palácio do Catete e pronuncia emocionado discurso diante da multidão que o consagra.
– Não semearei ilusões nem farei prodígios, afirma.
Nossa atenção, concentrada naqueles lances iniciais de um novo momento histórico, de repente é desviada pelo sacolejo abrupto do turboélice da Air Link que nos transporta de Durban, na África do Sul, para Maputo, capital de Moçambique, em cumprimento de missão oficial. Parece catabil em estrada esburacada. Demorado. Persistente. Capaz de inquietar a quem muito viaja e jamais teve receio de avião. No assento ao lado, Roberto Trevas, coordenador de relações internacionais da Prefeitura do Recife, outro veterano de viagens aéreas, também se deixa perturbar. Pelas janelas minúsculas contemplamos a imensidão do Índico: nós e o mar, imenso mar a perder de vista – e o catabil prossegue perturbador.
Cintos ajustados, um olho na linha do horizonte e o outro nas coisas que teimam em balançar dentro do avião. À nossa frente, quase ajoelhada, imperturbável, a única aeromoça a serviço dos poucos passageiros – morena-jambo de olhos cor-de-mel e alvo sorriso, cabelos negros lisos como os de uma índia -, equilibra-se como pode e enfileira caixinhas de suco artificial, sanduíches, latas de refrigerante e outras coisinhas do precário serviço de bordo.
- Esse sorriso nos tranquiliza. E inspira uma crônica.
- Muito bonita, é verdade – concorda Roberto Trevas.
- Parece de origem indiana.
- Ou paquistanesa.
- Qual será o nome dela?
- What’s your name? – pergunta Trevas com o seu impecável inglês de sotaque paraibano. E completa: - Meu amigo aqui é um escritor brasileiro e deseja fazer uma crônica de que você será personagem. Precisa saber o seu nome.
Sempre sorrindo ela pronuncia algo que não compreendemos. Depois escreve numa folha de papel: Loganie. E, apesar do balouçar irritante da aeronave, move-se com habilidade e a todos serve com graça e presteza.
Vergonha ficar assim abalado quando nossa fada-madrinha sul-africana faz o seu trabalho como se nada de anormal houvesse. O sanduíche é sem gosto, o suco tem sabor estranho (de maçã) e o pensamento voa. Afinal, Vargas vai iniciar o governo com o apoio de apenas um terço da Câmara dos Deputados. Feito o primeiro governo Lula. Tem amplo apoio popular, como Lula, mas a direita oposicionista, comandada pela velha UDN, que nem o PSDB de hoje, o bombardeia com acusações de todos os tipos. Tenta desmoralizar o presidente, acusando-o de conivente com corruptos – embora nenhuma evidência haja de que tenha acobertado um ato ilícito sequer. Mais turbulência – novamente o catabil sobre o oceano. Mas é preciso manter a serenidade – e até sorrir, como Loganie, que se desdobra em gentilezas talvez acreditando que esse amigo de vocês seja mesmo um escritor. Que pense assim, não faz mal. Coisas da vida. E da política. Mal-entendidos e turbulências que devem ser enfrentadas com paciência e leveza.
E assim vamos até Maputo, sob a proteção daquele sorriso apaziguador, que nos dá tranquilidade para voltar à leitura de Quem matou Vargas – 1954, uma tragédia brasileira, de Carlos Heitor Cony (Editora Planeta, 2007). E já em terra firme escrever essa quase-crônica.
Ao modo de uma relação amorosa
A política e o amor
Luciano Siqueira
Publicado no Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online)
Luciano Siqueira
Publicado no Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online)
Que os mais céticos permitam a analogia: a política é como o amor. Sob muitos aspectos. A começar pela mescla de paixão e tolerância, ingredientes aparentemente contraditórios, porém complementares e indispensáveis.
A paixão por uma causa, ou mesmo por um objetivo de curto ou médio prazo, ou ainda por interesses, digamos, questionáveis. É preciso estar apaixonado para dedicar-se à arte e ao ofício da política com desprendimento e até com sacrifício parcial da vida pessoal. Isso vale para todas as correntes políticas, para todas as causas – justas ou não – e para todos os indivíduos. Mas o que se pretende nem sempre é possível, ou fácil de alcançar. Depende de outros atores envolvidos na cena, remete a uma hábil e equilibrada abordagem de interesses contraditórios e de discrepâncias conceituais.
Ninguém faz política sozinho, nem alcança grandes êxitos sem a conjugação de forças numa mesma direção. Daí a necessidade da tolerância, irmã gêmea da paciência e da persistência na busca de determinado objetivo, que implica em respeitar diferenças e tratar a todos como iguais a despeito da força relativa de cada um.
Em certas circunstâncias, é preciso “ficar rouco de tanto ouvir”, aconselhava Tancredo Neves, mestre da articulação política. Ouça e não ache nada estranho – modestamente, com alguma estrada percorrida cá na província, acrescentamos nós. No ponto de partida, via de regra, predominam as diferenças e a explicitação de desejos contraditórios, porém legítimos. O ponto de chegada requer convergência de propósitos em torno de uma plataforma comum que conduza ao somatório das energias, e não à dispersão.
Parece papo furado. Mas não é. É assim que as coisas acontecem, vistas sob o ângulo de quem pretende, sinceramente, unir forças em torno de objetivos nobres. Como agora, nas eleiçõs municipais, na construção de uma base partidária, parlamentar e social suficientemente ampla e consistente para que o futuro governo possa cumprir a contento a missão que o povo lhe terá confiado. Impossível ir adiante sem forjar uma verdadeira vontade coletiva (suprapartidária e socialmente ampla) na direção de uma cidade mais humana – a causa mais justa da atualidade, pela qual devemos estar apaixonados; e a mais difícil, em favor da qual precisamos juntar forças, sem preconceitos nem supervalorização de interesses grupistas subalternos.
A analogia vale também para entender os acontecimentos nos quais estamos diretamente envoltos, em nossa urbe. No horizonte, a possibilidade real de uma mudança de rumo sem, entretanto dispensar importantes conquistas acumuladas particularmente nos últimos doze anos. Num cenário cujo desenho algo surpreendente só se fez real em razão de divisões e subdivisões que descrendenciaram o parceiro que deveria agir como fator de unidade de todos. Infelizmente, ao invés do diálogo esclarecedor e convergente, a desconfiança e a troca de farpas em público, a dispersão – pondo em risco a continuidade dos avanços. Seguindo a analogia, a raiva estéril se superpondo à paixão e ao bom senso; a tolerância e a paciência esgarçadas pelo imediatismo grupista.
Assim, não há amor que se sustente, nem postura política que agregue e motive. Daí a busca de um novo caminho.
Sábia sugestão
A sugestão de domingo é de Machado de Assis: “Enxuguemos a alma. Ouçamos, em vez de gemidos, notas de música...”
11 agosto 2012
As cidades em perspectiva
No Vermelho, por Eduardo Bomfim:
Um salto ao futuro
As eleições de outubro próximo guardam uma relação indissociável com o presente e futuro das cidades brasileiras, o enfrentamento das grandes questões que as envolvem desde o planejamento à superação dos abismos sociais retratados nas desigualdades dos espaços urbanos, além das responsabilidades dos poderes públicos municipais.
Um salto ao futuro
Diz respeito também à construção de projetos associados ao crescimento econômico, produzindo riqueza, gerando empregos para as grandes maiorias que se encontram à margem dos benefícios que proporcionam o usufruto de uma boa qualidade de vida, direito inalienável de todos os cidadãos brasileiros, responsabilidade intransferível dos gestores públicos, especialmente aqueles eleitos pelo voto popular.
E não é possível falar em qualidade de vida dissociada de uma das principais dívidas dos estados e municípios para com as populações das cidades do País sejam elas pequenas, médias ou grandes, a dívida ambiental.
Porque um dos mais graves dos nossos problemas sociais encontra-se na degradação ambiental que atinge principalmente os bairros das periferias onde predominam chagas seculares como esgotos a céu aberto, ausência de saneamento básico, córregos e rios fétidos, lixo amontoado, resultando na proliferação de doenças contagiosas.
Além disso, sabemos que as nossas cidades apresentam uma dualidade insuportável que se expressa de um lado no tratamento urbanístico adequado aos bairros dos segmentos abastados ou de classe média mais privilegiada, e de outro lado nas condições deploráveis das regiões onde vivem os grandes contingentes da população.
A grande responsabilidade dos representantes eleitos pelo voto popular sejam eles vereadores ou prefeitos deve ser, associada a experiências exitosas de várias administrações municipais, promover nas novas circunstâncias históricas do crescimento econômico nacional, uma substancial reconfiguração qualitativa das cidades sem a qual é impossível falar em desenvolvimento verdadeiro.
As condições desse atual crescimento, mesmo afetado pela crise financeira mundial, estão a exigir um grande esforço criativo e uma radical transição dos cenários municipais que ainda retratam, no essencial, um País do século passado.
Quando o Estado nacional foi imobilizado por décadas pela estagnação econômica, pela ausência de ideias e recursos decisivos para um grande salto ao futuro.
E não é possível falar em qualidade de vida dissociada de uma das principais dívidas dos estados e municípios para com as populações das cidades do País sejam elas pequenas, médias ou grandes, a dívida ambiental.
Porque um dos mais graves dos nossos problemas sociais encontra-se na degradação ambiental que atinge principalmente os bairros das periferias onde predominam chagas seculares como esgotos a céu aberto, ausência de saneamento básico, córregos e rios fétidos, lixo amontoado, resultando na proliferação de doenças contagiosas.
Além disso, sabemos que as nossas cidades apresentam uma dualidade insuportável que se expressa de um lado no tratamento urbanístico adequado aos bairros dos segmentos abastados ou de classe média mais privilegiada, e de outro lado nas condições deploráveis das regiões onde vivem os grandes contingentes da população.
A grande responsabilidade dos representantes eleitos pelo voto popular sejam eles vereadores ou prefeitos deve ser, associada a experiências exitosas de várias administrações municipais, promover nas novas circunstâncias históricas do crescimento econômico nacional, uma substancial reconfiguração qualitativa das cidades sem a qual é impossível falar em desenvolvimento verdadeiro.
As condições desse atual crescimento, mesmo afetado pela crise financeira mundial, estão a exigir um grande esforço criativo e uma radical transição dos cenários municipais que ainda retratam, no essencial, um País do século passado.
Quando o Estado nacional foi imobilizado por décadas pela estagnação econômica, pela ausência de ideias e recursos decisivos para um grande salto ao futuro.
Dica de poeta
A dica de sábado é de Cecília Meireles: “Somos, pois, criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposições de cantá-la, amá-la...”
10 agosto 2012
Solidadriedade de classe
Na coluna de Marisa Gibson, no Diário de Pernambuco: A classe trabalhadora - O deputado Luciano Siqueira (PCdoB), candidato a vice na chapa de Geraldo Julio, apoia a greve dos trabalhadores envolvidos na construção da Refinaria Abreu e Lima, no Porto de Suape: “O progresso econômico e industrial deve vir acompanhado de uma maior oferta de benefícios para a classe trabalhadora”.
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