29 agosto 2021

Futebol ontem e hoje

Ódio eterno ao futebol moderno é ótima palavra de ordem, mas tem um porém
Óbvio romantismo tem seu lado idealista que lembra gramados enlameados e arquibancadas ruins
Juca Kfouri, Folha de S. Paulo

Da virada do século para cá, o crescimento da importância do futebol na indústria do entretenimento no mundo globalizado –ou seria golbalizado?– tem promovido polêmicas infindáveis sobre o destino do esporte mais popular da Terra.

A mercantilização, a transformação dos clubes em empresas, a despudorada lavagem de dinheiro devido à intangibilidade dos preços nas transações de jogadores e, principalmente, a inaceitável gentrificação que exclui torcedores pobres, fez surgir a palavra de ordem que prega "ódio eterno ao futebol moderno".

E que é repetida pelo Planeta Bola afora nos 360 graus da circularidade ideológica cujos extremos, como dizia o socialista chileno Salvador Allende, "se encontram nas minhas costas".

O óbvio romantismo da pregação tem seu lado idealista que lembra a bola de capotão, os gramados enlameados, as arquibancadas desconfortáveis, as chancas de couro, pesadas, com pregos, os uniformes virgens, sem propaganda, empapados de suor, os jogadores que permaneciam por anos a fios no mesmo clube, o amor à camisa.

Progressistas e conservadores criticam até a Lei Pelé, a que pôs fim à escravidão dos atletas que eram patrimônio do clube, itens dos balanços, móveis e utensílios das agremiações, que os mantinham vinculados mesmo depois do fim dos contratos.

Da extrema-direita à extrema-esquerda, não se percebe a diferença entre o livre-arbítrio do profissional e a situação anterior –e os empresários do futebol são tratados como se fossem novidades surgidas após a legislação libertadora.

Não são, já pontificavam, apenas com menos notoriedade e precisam mesmo ser mais bem enquadrados.

Também mal posta é a discussão em torno dos bilionários que saíram comprando clubes por aí.

Em princípio, torcedor algum quer que seu time tenha dono.

Em princípio.

Pergunte aos torcedores do Ameriquinha, ou da Portuguesa, se eles não prefeririam que os clubes da Tijuca e do Canindé tivessem um proprietário.

Ou se os do Bragantino estão infelizes com a Red Bull. Era melhor ser feudo da família Chedid?

Como se sentem hoje os torcedores do Chelsea, bicampeões europeus, que tanto protestaram contra a chegada do russo Roman Abramovich?

De fato, melhor seria não entregar os anéis e os dedos a mafiosos, a capitalistas com segundas e terceiras intenções. Existem modelos que impedem, como o adotado pelos alemães e como o idealizado pela Sociedade Anônima do Futebol, recentemente aprovada no Brasil, embora ainda diante da necessidade de derrubar os vetos do presidente da República.

O regime econômico que prevalece no mundo é o capitalista e não o tornaremos minimamente civilizado com pedradas inócuas.

Há situações em que a reforma é mais revolucionária que a ruptura e nas quais certos idealismos terminam por se mostrar reacionários, avessos às mudanças.

A Lei Pelé foi um avanço e a lei da SAF será outro se prevalecer o texto original.

E, por favor, não confunda tudo isso com mecenatos ou patrocinadoras ávidas por poder ou pelas luzes da ribalta, capazes de tratorar óbvios conflitos de interesse e de amanhã se cansar do brinquedinho.

O caminho da autossustentabilidade dos clubes passa necessariamente pelo respeito à legislação trabalhista e à adequação ao regime econômico vigente.

Depois da revolução voltaremos a conversar.

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Veja: Convergência quanto à necessidade de ampliar as alianças https://bit.ly/3kbDHqq

Humor de resistência

 

Aroeira


Veja: Um encontro entre velhos companheiros de luta https://bit.ly/3kbDHqq


28 agosto 2021

Vacinação é a chave

Covid-19: variante delta dobra risco de hospitalização, aponta estudo
Vacinação reduz o risco de infecções graves por qualquer uma das variantes
BBC Brasil/Folha de S. Paulo

Uma pessoa têm duas vezes mais chances de precisar de cuidados hospitalares se estiver doente por causa da variante delta do coronavírus em comparação com a variante alfa.

Especialistas dizem que esse resultado, de um grande estudo publicado na revista The Lancet, reforça por que é importante que as pessoas sejam totalmente imunizadas.

A vacinação reduz o risco de infecções graves por qualquer uma das variantes, embora a delta seja a principal ameaça atualmente em grande parte do mundo.

O estudo, liderado pela agência governamental Public Health England (PHE) e o Conselho de Pesquisa Médica, analisou 43.338 casos de covid-19 que ocorreram entre março e maio.

A maior parte dessas infecções foi em pessoas que ainda não haviam sido vacinadas.

A maioria não precisou ser internada, mas, para 2,3% das pessoas infectadas com a delta e 2,2% das pessoas infectadas com a alfa, isso foi necessário.

Mas as pessoas infectadas com a variante delta eram mais jovens, em média.

Quando os pesquisadores ajustaram os dados conforme a idade dos pacientes e outros fatores que são conhecidos por afetar a gravidade da doença, eles concluíram que a infecção pela delta tinha um risco de hospitalizado duas vezes maior.

Especialistas dizem que a imunização completa deve reduzir esse risco. Na maioria das vacinas, é necessário tomar as duas doses para se obter a proteção máxima.

Até o momento, só 28% dos brasileiros estão totalmente imunizados, de acordo com dados do Ministério da Saúde, e 60% estão parcialmente imunizados.

"Já sabemos que a vacinação oferece excelente proteção contra a delta, e é vital que aqueles que não receberam duas doses da vacina faça isso o mais rápido possível", disse o médico Gavin Dabrera, da PHE.

"Também é importante que, se você tiver sintomas de covid-19, fique em casa e faça um teste o mais rápido possível."

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Veja: Um encontro entre velhos companheiros de luta https://bit.ly/3kbDHqq

Ponto de luz

Já são 30 hidrelétricas perdendo potência em razão dos baixos níveis dos reservatórios, cerca de 7 GW, equivalente à metade da capacidade de Itaipu, a segunda maior hidrelétrica do mundo. E o presidente pede a gente que desligue um ponto de luz em casa. Incompetência à luz de lamparina.

twitter.com/lucianoPCdoB

Déficit habitacional agravado

Há nuances do texto que não têm a minha concordância, entretanto o divulgo pelos dados que contém. (LS)

Moradia, dívida histórica e social que se agrava durante a pandemia
Rede Jubileu Sul Brasil

A trajetória histórica do Brasil é marcada por dívidas sociais agudas ainda longe de serem resolvidas. Durante a pandemia a questão da moradia ganhou contornos ainda mais graves, e já não permite que governos e sociedade civil façam vistas grossas para o escândalo da falta de teto no país que aumenta visivelmente cada vez mais nas grandes cidades. Sem moradia digna não há saúde, não há relações sociais justas. Sem endereço não há acesso à educação, a trabalho e renda, não há dignidade humana.

É impossível fazer uma discussão sobre o acesso à moradia sem tocar na propriedade privada. Não basta colocar dinheiro e investir em programas sociais para habitação, é preciso muito mais. É preciso que o direito à moradia se sobreponha ao direito à propriedade. É preciso colocar o dedo nessa ferida!

De acordo com levantamento realizado pela campanha Despejo Zero, até junho de 2021, mais de 14.301 famílias foram removidas de suas casas; outras 84.092 estão ameaçadas de remoção contrariando orientações internacionais e determinações legais no Brasil que impedem despejos durante a pandemia. Levando em consideração famílias formadas em média por cinco pessoas, o número representa um cenário que coloca em situação de rua ou em moradias ainda mais precárias cerca de 500.000 pessoas.

A insegurança habitacional aponta para um maior agravamento após o prazo estabelecido para a proibição de despejos durante a pandemia, desde março de 2020 até 31 de dezembro de 2021. Dados divulgados pela Fundação João Pinheiro informam que o déficit habitacional em todo o Brasil está em 5,8 milhões de moradias. O estudo também apresenta uma tendência de aumento no déficit. Por outro lado, nos quatro anos considerados pelo estudo, o número de casas desocupadas por conta do valor alto do aluguel saltou de 2,814 milhões em 2016 para 3,035 milhões em 2019. Se temos tantos imóveis desocupados por que tantas famílias sem acesso à moradia?

A luta por moradia em nossa história recente vem carregada de conquistas, surpresas e decepções. Em 2005, movimentos sociais celebraram a aprovação do primeiro Projeto de Lei de iniciativa popular (PL 11.124/2005), que criou o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS) e o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS).

No entanto, passando por cima dessa construção, o governo Lula criou em 2009 o programa Minha Casa Minha Vida, que surge não como uma política social para moradia popular, mas como um programa econômico para enfrentamento da crise, a partir do financiamento às empreiteiras e construtoras que nada tinham a ver com as preocupações de habitação social contempladas no SNHIS e no FNHIS.

Para se ter uma ideia, em 2013, com o programa Minha Casa Minha Vida, a indústria da construção civil chegou a representar 13% do Produto Interno Bruto (PIB) no país.  Em 10 anos de projeto R$ 552 bilhões foram investidos, mas apenas cerca de R$ 115 bilhões foram aplicados para as faixas de renda onde se concentra mais de 90% do déficit habitacional com subsídios de 90%. O maior investimento foi aplicado em financiamentos no mercado imobiliário. Favorecendo desta forma a especulação imobiliária.

Mesmo com alguns avanços, sobretudo, a partir da luta dos movimentos de moradia para a criação do Minha Casa Minha Vida-Entidades e pela melhoria dos projetos, como já era previsível, por seu formato e lógica econômica, o programa não causou grandes impactos capazes de enfrentar a questão do acesso à moradia no Brasil, encarecendo a terra, empurrando cada vez mais a população pobre para as periferias, seguindo a lógica da especulação imobiliária e servindo para realocação de comunidades vítimas dos despejos e remoções promovidas para realização dos megaeventos e megaempreendimentos.

Com as indicações de aprimoramentos sugeridos pelos movimentos sociais não implementadas, a situação do programa no governo Temer ficou pior. Houve o desmonte total da política habitacional e orçamentos reduzidos. Com o governo Bolsonaro o drama se intensificou com cortes drásticos nos investimentos, que somente este ano passaram de 1,5 bilhão para 27 milhões e o lançamento do projeto Casa Verde e Amarela. A iniciativa não atende às necessidades da população mais pobre que recebe até dois salários mínimos e que representa mais de 90% do déficit habitacional. Uma verdadeira asfixia para a organização popular que luta por moradia no Brasil, com obras paralisadas, contratos suspensos e fim dos investimentos.

Os números que revelam a precariedade em saneamento e acesso à água são alarmantes: 35 milhões de brasileiros e brasileiras não têm acesso à água potável e cerca de 100 milhões não têm serviço de coleta de esgotos no país. Desses, 5,5 milhões estão nas 100 maiores cidades brasileiras, o equivalente à população da Noruega. Esses dados estão no ranking de saneamento, apresentado pelo Instituto Trata Brasil.

Não podemos mais aceitar tanto descaso. É preciso exigir uma política habitacional como direito fundamental, pautada na segurança jurídica da posse, disponibilidade de serviços e infraestrutura, custo acessível, habitabilidade, localização  e acessibilidade. Somente desse modo é possível resgatar a dignidade humana. Enquanto morar for um privilégio, seguiremos apoiando as ocupações e resistindo aos despejos. Moradia é um direito.

Despejo zero!

Dívida histórica e social!

Não devemos! Não pagamos!

Somos os povos, os credores!

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Veja: Um encontro entre velhos companheiros de luta https://bit.ly/3kbDHqq

Ministro de quê?

Ministro da ignorância
José Luís Simões*

O artigo 8º da Lei Federal 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência) estabelece: “É dever do Estado, da sociedade e da família assegurar à pessoa com deficiência, com prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à sexualidade, à paternidade e à maternidade, à alimentação, à habitação, à educação, à profissionalização, ao trabalho, à previdência social, à habilitação e à reabilitação, ao transporte, à acessibilidade, à cultura, ao desporto, ao turismo, ao lazer, à informação, à comunicação, aos avanços científicos e tecnológicos, à dignidade, ao respeito, à liberdade, à convivência familiar e comunitária, entre outros decorrentes da Constituição Federal...” 

Com texto claro, legislação avançada e que serve de referência para outros países, a Lei Brasileira de Inclusão é ignorada ou desrespeitada pelos agentes públicos que deveriam cumpri-la. As recentes declarações do ministro da Educação, Milton Ribeiro, revelam que ele ignora ou desconhece a Lei Brasileira de Inclusão. Se o ministro ignora porque tem preconceito e discrimina crianças com deficiência, logo, comete crime. Agora, se ele desconhece a Lei em tela, está mal assessorado e despreparado para ocupar o importante cargo da República. 

Mas não espantaria se o ministro, além de ignorar, desconhecer a Lei de Inclusão. Ignorância e despreparo dialogam perfeitamente com o governo Bolsonaro. Em resumo, o mandatário da pasta da Educação combina com o governo que serve, com prejuízo das necessidades urgentes que o país precisa resolver para avançar no campo educacional.

A Lei Brasileira de Inclusão garante que a pessoa com deficiência tem direito a receber atendimento prioritário em todas as instituições e serviços públicos, o que inclui o atendimento nas escolas (Lei 13.146, Artigo 9º). Ou seja, as escolas é que precisam se preparar para atender esse público, receber novos investimentos para acolher essas crianças com dignidade e respeito; e ainda, garantir recursos na formação de professores e agentes públicos para o efetivo cumprimento da Lei de Inclusão. 

O fato de existir a Lei Brasileira de Inclusão já é um avanço, claro. Entretanto, há um fosso enorme entre a existência da Lei e seu devido cumprimento pelos agentes públicos, a começar pelas autoridades da República, que prevaricam, ignoram e colocam o país no rumo do atraso em termos de ações políticas para promover a inclusão de pessoas com deficiência. A Lei não pode ser letra morta. O avanço na legislação deve ser acompanhado não apenas de discursos, mas, sobretudo, de ações governamentais que garantam cidadania e incluam as pessoas com deficiência em todos os espaços e ambientes sociais, especialmente nos espaços públicos. 

A escola é por excelência o lugar da inclusão, da compreensão, da diversidade, do respeito ao outro, da valorização da cultura e do conhecimento. No ambiente escolar não pode haver preconceitos, discriminação ou manobras para excluir determinados grupos sociais. Quem ocupa importantes cargos na República precisa trabalhar a favor da Educação, do futuro do país. A estratégia de governar pelo conflito, incitando a divisão da sociedade e vomitando absurdos à revelia da legislação atual só leva para o caminho do retrocesso e atraso no desenvolvimento de políticas educacionais. 

As barreiras arquitetônicas, atitudinais, comunicacionais e nos transportes precisam ser rompidas. Da mesma forma, as barreiras tecnológicas (o não acesso à internet e computador) precisam ser superadas; ora, os estudantes tinham o direito de acompanhar as aulas remotas durante a pandemia, mas milhões não conseguiram. O direito à Educação foi negado para milhões de estudantes brasileiros porque os últimos três ministros da Educação foram negligentes, não cumpriram tarefas assaz urgentes. 

O ENEM 2021 é o menor da história, todavia, isso é a ponta do iceberg, é apenas mais um indicador de que a Educação não é prioridade e a inclusão de pessoas com deficiência é pauta adversa para o governo. 

O alento é que ainda existe o Ministério da Educação. Por enquanto, o desmascarado não o extinguiu – o que fez com a Cultura e o Esporte. Mas, lamentavelmente, o Ministério da Educação continua sob a tutela da ignorância e insensatez. [Ilustração: Beto]

*Zé Luís Simões, professor do Centro de Educação-UFPE

 Veja: Num arco-íris os matizes estão juntos, porém bem diferenciados https://bit.ly/2HaMuav

Fotografia: Cena urbana

 

Foto: Rosalva Silva*


*Doutoranda em Saúde Pública pela FIOCRUZ, fotógrafa amadora
. Tema político: Num arco-íris os matizes estão juntos, porém bem diferenciados https://bit.ly/2HaMuav