12 dezembro 2022

Cangaço e literatura

Três clássicos da literatura brasileira se debruçam sobre o fenômeno do cangaço nordestino

Agassiz Vasques


Os Sertões de Euclides da Cunha, com sua visão pretensamente científica de inseri-lo no adusto meio geofísico em que se firmou, e que, não sendo aceito como verdadeira ciência acabou deixando a obra prima da literatura que justifica as palavras com que o Romance histórico se inicia: 'O sertanejo é antes de   tudo um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.'

O Jagunço, de Mello Franco, que busca firmar a atividade cangaceira sobre o espinho dos sertões e as escarpas secantes dos contrafortes apoiados nas falésias, maciços íngremes das serras sertanejas. O furo do espinho e o gume das escarpas a produzir calos e aleijões até então conhecidos apenas dos caprinos, obrigados a sacrificar uma pata calosa do extirpar espinhos de Facheiro, Xique-Xique, Mandacarus, Macambira e Juazeiros antes de os levar à comissura labial, ingestão e digestão.

Curiosamente, Mello Franco situa a descrição de um dos episódios da espinhosa luta entre os municípios baianos de Belmonte e a Serra da Canabrava, coincidentemente

Vizinhos entre o oeste pernambucano e o sul do Ceará... Coisas da ficção.

E, finalmente, o mestre Guimarães Rosa a descrever os conflitos da natureza humana no personagem Caboclo Riobaldo indignado com a permissividade de uma relação homoafetiva que afinal se revelou falsa entre ele e Diadorim.

O cangaceiro de Euclides um forte.

O de Mello Franco um estoico, o de Rosa simplesmente humano a misturar sua bondade com sentimentos rudes como a vingança na ponta do punhal que capa o estuprador em pagamento do crime cometido.

A pergunta é: em que raiz pivotante se assenta tudo isso?

Na falta de oportunidade, esta negada pelo coronelismo que empurrava os corajosos para o crime?

O que há mais dizer sobre o assunto, ao ler a saga de Lampião, Rei do Cangaço, que teve a benção do Padre Cícero em nomeá-lo Capitão para lutar contra a coluna Prestes nos idos de 30? Que o fez adotar Volta Seca um criminoso que aos 11 anos vingou o estupro da irmã de nove pondo abaixo o fígado e o fato do estuprador, num só golpe direto e rude como a volta seca de um garrancho no espinho ressequido do semiárido nordestino.

Volta Seca, cruel e selvagem como o pontiagudo espinho do Facheiro que não estanca perando o olho que lacrimeja ante a iminente dor da cegueira. Lampião e volta seca, poetas e cangaceiros.

E a saga de Quinco Vasques contratado pelo coronel a quem servia como vaqueiro para sair do sítio Tipi com quarenta cabras bem armados e baús de munição para os rifles engatilhados e chegou em Lavras da Mangabeira com 200 homens sob seu comando para apear do poder Dona Fideralina e Dr Augusto seu filho poderoso, encastelados num bunker de dois andares de alvenaria de pedra rebocada e caiada, pura brancura a encandear as vistas,   janelas angulosas como seteiras, de onde foram rechaçados a bala igualmente calibrosa. Articulação de vários coronéis para mudar o rumo da história no Cariri cearense, como depôs em juízo o próprio Quinco Vasques?

Brasis e nordestes vários!

[Ilustração: Aldemir Martins]

O mundo gira. Saiba mais https://bit.ly/3Ye45TD

Nenhum comentário: