Três clássicos da literatura brasileira
se debruçam sobre o fenômeno do cangaço nordestino
Agassiz Vasques
Os Sertões de Euclides da Cunha, com
sua visão pretensamente científica de inseri-lo no adusto meio geofísico em que
se firmou, e que, não sendo aceito como verdadeira ciência acabou deixando a
obra prima da literatura que justifica as palavras com que o Romance histórico
se inicia: 'O sertanejo é antes de tudo um forte. Não tem o
raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.'
O Jagunço, de Mello Franco, que busca
firmar a atividade cangaceira sobre o espinho dos sertões e as escarpas secantes
dos contrafortes apoiados nas falésias, maciços íngremes das serras
sertanejas. O furo do espinho e o gume das escarpas a produzir calos e aleijões
até então conhecidos apenas dos caprinos, obrigados a sacrificar uma pata
calosa do extirpar espinhos de Facheiro, Xique-Xique, Mandacarus, Macambira e
Juazeiros antes de os levar à comissura labial, ingestão e digestão.
Curiosamente, Mello Franco situa a
descrição de um dos episódios da espinhosa luta entre os municípios baianos de
Belmonte e a Serra da Canabrava, coincidentemente
Vizinhos entre o oeste pernambucano e o
sul do Ceará... Coisas da ficção.
E, finalmente, o mestre Guimarães Rosa
a descrever os conflitos da natureza humana no personagem Caboclo Riobaldo
indignado com a permissividade de uma relação homoafetiva que afinal se revelou
falsa entre ele e Diadorim.
O cangaceiro de Euclides um forte.
O de Mello Franco um estoico, o de Rosa
simplesmente humano a misturar sua bondade com sentimentos rudes como a
vingança na ponta do punhal que capa o estuprador em pagamento do crime
cometido.
A pergunta é: em que raiz pivotante se
assenta tudo isso?
Na falta de oportunidade, esta negada
pelo coronelismo que empurrava os corajosos para o crime?
O que há mais dizer sobre o assunto, ao
ler a saga de Lampião, Rei do Cangaço, que teve a benção do Padre Cícero em
nomeá-lo Capitão para lutar contra a coluna Prestes nos idos de 30? Que o fez
adotar Volta Seca um criminoso que aos 11 anos vingou o estupro da irmã de nove
pondo abaixo o fígado e o fato do estuprador, num só golpe direto e rude como a
volta seca de um garrancho no espinho ressequido do semiárido nordestino.
Volta Seca, cruel e selvagem como o
pontiagudo espinho do Facheiro que não estanca perando o olho que lacrimeja
ante a iminente dor da cegueira. Lampião e volta seca, poetas e
cangaceiros.
E a saga de Quinco Vasques contratado
pelo coronel a quem servia como vaqueiro para sair do sítio Tipi com quarenta
cabras bem armados e baús de munição para os rifles engatilhados e chegou em
Lavras da Mangabeira com 200 homens sob seu comando para apear do poder Dona
Fideralina e Dr Augusto seu filho poderoso, encastelados num bunker de dois
andares de alvenaria de pedra rebocada e caiada, pura brancura a encandear as
vistas, janelas angulosas como seteiras, de onde foram rechaçados a
bala igualmente calibrosa. Articulação de vários coronéis para mudar o rumo da
história no Cariri cearense, como depôs em juízo o próprio Quinco Vasques?
Brasis e nordestes vários!
[Ilustração: Aldemir Martins]
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