Dias difíceis, pressentidos por
Múcio, não são só até a posse
Ministro considera sua
prioridade a despolitização das casernas; despolitizar de verdade é militarizar
os militares
Janio
de Freitas, Folha de S. Paulo
Se a disciplina e a hierarquia fossem os princípios essenciais
dos militares,
como dizem todas as intenções de caracterizar a vida das casernas, não se
explicariam a atualidade nem o tumultuado percurso da República, nascida já da
insubordinação contra os poderes constituídos.
Ou, o que dá no mesmo, se
a disciplina e a hierarquia são os princípios que caracterizam a função militar,
quem não se enquadra nos limites de ambas não cabe na definição de militar,
propriamente.
Esta é a questão que se põe, de fato, para o indicado a ministro
da Defesa, José
Múcio Monteiro, ex-parlamentar da linhagem
mais habilidosa na política e nos convívios.
Apesar dessa qualidade, ou levado por ela, ele emitiu na
primeira entrevista de ministro designado, dada à GloboNews, uma contradição
que sintetiza a realidade pouco visível das tensões que se opõem no momento.
Em frase não provocada, disse José Múcio que o período
daqui à posse do novo governo será historicamente dos mais difíceis.
Perguntado, porém, sobre a existência de riscos ao regime, foi
absoluto: "Nenhum". Nem por isso deixou de associar, diversas vezes, a palavra
golpe às concentrações aceitas pelos comandos, quando não
incentivadas, na frente de instalações militares com apelos de golpe.
Um tempo
novo no Brasil: possível, sim; mas nada está previamente garantido https://bit.ly/3Y6nLZF
O ministro designado
considera sua prioridade a despolitização das casernas.
Tranquilidade é, claro, condição indispensável para um governo levar seu país a
avanços institucionais, sociais e econômicos.
A despolitização não é suficiente, no entanto, nas
circunstâncias latino-americanas e, em especial, nas brasileiras. Se imposta, a
despolitização não perdura. É frágil diante da máquina de indução de condutas
possuída pelos interesses contrários aos aspectos sociais e culturais da
democracia.
Os militares devem ao país um esforço sincero para atualizar sua
mentalidade e seu papel, ainda encravados na Guerra Fria, na propaganda antigetulista,
na onda de ditaduras militares. A politização que se sobrepõe à função militar
autêntica tem a ver com esse quadro mofado.
Despolitizar de verdade é militarizar os militares. Inclusive em
suas especialidades. Um exemplo destes dias é a lição extraída da Guerra da Ucrânia pelos
países atualizados: os blindados estão superados, vencidos pelos novos
projéteis.
A cada dia o fotojornalismo exibe ao mundo quantidades
espantosas de blindados reduzidos a carcaças. O
Exército brasileiro está gastando mais de R$ 5 bilhões na compra —
por ora, suspensa pela Justiça — de blindados convencionais italianos. Caducos
e sem serventia.
Os
futuros comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica estão escolhidos.
A maior antiguidade, que os fez indicados, não é bom critério. O mais antigo
não é necessariamente o mais apto ao cargo e ao momento.
No caso, não se sabe se, e quanto, os escolhidos são capazes ou
não de mais do que despolitizar pró-forma as suas oficialidades. O
critério da antiguidade justificou-se por evitar, em princípio, que outra
escolha mexesse com os melindres das correntes de fardados não premiadas,
bolsonaristas à frente.
Os três estarão no mesmo teste em que José Múcio entrará logo ao
tomar posse: o que será das concentrações, com muito fanático armado de um lado
e outro dos muros? Não são manifestações no uso do direito de externar opinião,
como militares têm dito acobertar sua conivência.
São
fomentadores de um golpe contra a Constituição, contra o resultado
de eleição reconhecidamente legítima, contra o Judiciário e contra a
não-violência. São criminosos, todos. Em ação incompatível com governo
democrático.
Os dias de dificuldade sem precedente, pressentidos por José
Múcio Monteiro, não vão só até a posse.
Suplantar
a cultura do ódio é uma luta de longo curso https://bit.ly/3Us8tfj

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