— É urgente desencalhar aquele navio no Canal de Suez. Muito prejuízo...
— Como assim?
— Basta mandar pra lá o Pazuello, OK?
— Cruz, credo!
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
— É urgente desencalhar aquele navio no Canal de Suez. Muito prejuízo...
— Como assim?
— Basta mandar pra lá o Pazuello, OK?
— Cruz, credo!
Poder 360
Mulheres
na casa dos 40 e 50 anos parecem correr mais risco de problemas de longo prazo
depois de terem alta da covid-19. Muitas sofrem durante meses de sintomas
persistentes, como fadiga, falta de ar e confusão mental, revelaram dois
estudos britânicos divulgados hoje (24), em Londres.
Uma
pesquisa descobriu que, cinco meses depois de deixarem o hospital, pacientes da
covid-19, que também eram de meia idade, brancas, mulheres e tinham outros
problemas de saúde, como diabetes, doença pulmonar ou cardíaca, tendiam mais a
relatar sintomas de covid-19 longa.
“Nosso
estudo mostra que aqueles que tiveram os sintomas prolongados mais graves
tendem a ser mulheres brancas de idades aproximadas de 40 a 60 anos, que têm ao
menos dois problemas de saúde de longo prazo”, disse
Chris Brightling, professor de medicina respiratória da Universidade de
Leicester que cosiderou o estudo conhecido como Phosp-Covid.
Uma
segunda pesquisa, conduzida pelo Consórcio Internacional de Infecções
Respiratórias Agudas e Emergentes (Isaric), concluiu que mulheres de menos de
50 anos têm mais probabilidade de sofrer problemas de saúde de longo prazo
piores do que homens mais velhos, mesmo que não tenham problemas de saúde
subjacentes.
“Está se
tornando cada vez mais claro que a covid-19 tem consequências profundas para
aqueles que sobrevivem à doença”, disse Tom Drake, bolsista de
pesquisa clínica da Universidade de Edimburgo, na Escócia, que coliderou o
estudo do Isaric.
“Descobrimos
que mulheres mais jovens têm mais probabilidade de sofrer problemas de longo
prazo piores”, acrescentou
O estudo
do Isaric, que cobriu 327 pacientes, descobriu que mulheres de menos de 50 anos
têm o dobro da probabilidade de relatar fadiga, sete vezes mais probabilidade
de ter falta de ar e também mais chances de ter problemas relacionados à
memória, mobilidade e comunicação.
O estudo
Phosp analisou 1.077 pacientes masculinos e femininos que tiveram alta de
hospitais do Reino Unido entre março e novembro de 2020 depois de terem a
covid-19.
A maioria
dos pacientes relatou diversos sintomas persistentes depois de cinco meses,
sendo os mais comuns dor nos músculos e nas juntas, fadiga, fraqueza, falta de
ar e confusão mental.
Mais de
um quarto deles teve o que os médicos disseram ser “sintomas clinicamente
relevantes de ansiedade e depressão” depois de cinco meses, e 12% tiveram
sintomas de transtorno de estresse pós-traumático.
Veja: Casa
Grande & Senzala será sempre uma leitura indispensável a quem quer
compreender o Brasil https://bit.ly/3tsBwkY
Cícero Belmar
Conheci um
homem que pode virar santo. É um processo que demora anos, mas posso dizer,
estive algumas vezes com uma pessoa honesta, humilde e caridosa. Se isso faz do
humano um santo, ele o era.
Na foto, estou ao seu lado:
o arcebispo que vivia uma cruzada ideológica, social e religiosa, em nome dos
mais pobres, encarou poderosos e desafiou até a Igreja. Aparentemente frágil,
mas um gigante.
Foi uma foto de fins da
década de 1980 ou início da de 1990. Dom Hélder Câmara é o dom da paz, que hoje
o Vaticano pode santificar. Eu, um mero repórter iniciante e idealista, cobria
o setor de Direitos Humanos.
Na fotografia, caminhamos
por uma estrada de barro avermelhado, num engenho da Zona da Mata de
Pernambuco. Terras que ele ajudou a fazer a reforma agrária, para garantir vida
digna aos sem terra da região.
Faço perguntas, enquanto
seguimos; anoto as respostas. À nossa frente, vão os trabalhadores rurais.
Mulheres com crianças no braço, homens com cartazes exigindo seus direitos. O
fotógrafo clicou esse momento.
A foto é uma metáfora: as
pessoas seguem como ovelhas e o bom pastor, logo atrás, como a conduzi-las. O
então arcebispo de Olinda e Recife veste uma batina surrada, creme. Eu, barba
imensa, magérrimo, camisa no estilo bata, bolsa à tira colo, óculos escuros,
tipo alternativo.
Muitos anos se passaram,
não lembrava mais desse momento que a foto salvou. Na semana passada, a
jornalista Gisela Didier, contemporânea, me enviou pelo WhatsApp: “Conheci este
jovem repórter”. Para minha surpresa, é uma das que ilustram o calendário que o
Instituto Dom Hélder Câmara (Idec) lançou este ano, para ajudar nas despesas da
instituição.
Não vou mentir. Por mais
que estejamos antenados com os processos políticos e sociais de que
participamos, nem sempre temos a agudeza de compreender que vivemos a História
do nosso tempo. De que, naquele instante, somos também testemunhas. Eu sabia da
importância daquele homem, todo jornalista sabia. Do privilégio de estar ao seu
lado. Também entendia o significado daquele fato. Mas, coberturas jornalísticas
importantes são cotidianas para um repórter.
Dom Hélder tinha uma
simplicidade desconcertante. Simplicidade que, para mim, é o retrato das
pessoas raras. Se um repórter ligasse para sua casa, adivinha quem
atenderia o telefone? Se a gente fosse até lá, arriscar uma entrevista, ele
mesmo viria abrir a porta. Mandava entrar. Era assim.
Relato essas coisas só para
constatar que lidamos muito mal com os nossos processos históricos. Somos
especialistas em banalizar a vida. Quantos acontecimentos importantes apagamos?
Salve o compositor
Gonzaguinha: “Eu preciso é ter consciência do que eu represento neste exato
momento”. Sem essa consciência, não mandaremos recados para o futuro, não
deixaremos vestígios, nem seremos capazes de reconhecer os santos com quem
convivemos.
*Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos,
romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens.
Membro da Academia Pernambucana de Letras.
.
Veja: uma dica de leitura para quem gosta de cinema https://bit.ly/3qlLWRr
Quem se importa com o meio ambiente?
José Bertotti*
Os brasileiros se importam com o meio
ambiente e consideram que o aquecimento global está em curso. Esses dados foram
revelados na semana passada através de uma pesquisa encomendada ao Ibope pelo
Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio) em parceria com o Programa de
Comunicação de Mudanças Climáticas da Universidade de Yale.
Os dados da pesquisa indicam que 92%
dos brasileiros consideram que o aquecimento global está em curso e 77%
acreditam que a ação humana é a responsável por esse aquecimento. No entanto
quando perguntados sobre quem pode contribuir para enfrentar esse problema 32%
apontam que são as empresas, 35% os governos e 24% os cidadãos, o que nos
parece bastante acertado, pois essa é uma tarefa que demanda mudança de como
nos relacionamos com a natureza.
À medida que a crise climática se
aprofunda, faz-se necessário empreender ações em um ritmo mais acelerado para
evitar impactos climáticos catastróficos. A transição para uma economia
descarbonizada começou, mas não está acontecendo na velocidade e escala
necessárias. Ela envolve novos padrões de consumo e modelos de negócio que
compreendam que os recursos naturais não são inesgotáveis, no entanto é da
natureza que extraímos toda a riqueza como já apontava Marx na Crítica ao
Programa de Gotha (2012, p. 22):
“...O trabalho não é a fonte de toda riqueza. A
natureza é a fonte dos valores de uso (e é em tais valores que consiste
propriamente a riqueza material!), tanto quanto o é o trabalho, que é apenas a
exteriorização de uma força natural, da força de trabalho humana...”
Uma das razões do
esgotamento do modelo de produção capitalista está em não resolver essa
contradição do uso sustentável dos recursos naturais, pois ao mesmo tempo que
acelera o esgotamento das fontes naturais de recursos destruindo a
biodiversidade do planeta, aumenta o fosso econômico entre ricos e pobres
tornando nosso planeta cada vez mais impróprio para sobrevivência humana.
No dezembro de 2020, o
Acordo de Paris completou cinco anos, e nesse momento de pandemia a comunidade
científica mundial reforçou a necessidade de mais ambição por parte dos
governos no enfrentamento da crise climática, e para a possibilidade de usarmos
a retomada econômica como uma estratégia para efetivarmos as mudanças
requeridas. Por outro lado, no mesmo mês de dezembro, o Brasil também apresentou a revisão de sua
meta de redução de emissão de gases de efeito estufa (NDC), com metas
totalmente desprovidas da ambição necessária para frear as mudanças
climáticas.
O fato de o governo
federal estar na contramão da pauta ambiental também foi identificado nessa
pesquisa, 82% dos entrevistados acham que as queimadas se intensificaram nos
últimos dois anos no Brasil e 84% consideram que essas queimadas prejudicam a
imagem do Brasil no exterior e consequentemente nossas relações comerciais.
Demonstrando coerência com essa preocupação ambiental 74% discordam que as
queimadas são importantes para o crescimento econômico, diferente do que tem
praticado o governo federal que tem afrouxado a fiscalização e o combate aos
incêndios criminosos diminuindo recursos destinados a essa área e
desacreditando instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(INPE), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis (IBAMA) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
(ICMBio).
Diante dessa realidade acreditamos que no Brasil os Governos
Estaduais e Prefeituras tem um papel estratégico, oferecendo capilaridade a
esse senso de urgência, fazendo que a pauta climática alcance a realidade de um
número maior setores e pessoas, promovendo regionalmente o desenvolvimento de
baixo carbono e o aumento da resiliência das nossas cidades.
Vale lembrar que, em 2019, o governo federal abriu mão de
sediar no Brasil a Cúpula Mundial do Clima (COP25), diante disso um movimento
da sociedade e dos governos subnacionais realizou a primeira edição da
Conferência Brasileira de Mudança do Clima em Recife. E, durante este evento,
os órgãos estaduais de meio ambiente dos 26 estados brasileiros e o Distrito
Federal reconheceram, através da Carta da Abema pelo Clima, esse papel
estratégico dos estados no enfrentamento da crise climática.
Uma novidade é a eleição de Joe Biden para Presidente dos
Estados Unidos e seu compromisso de recolocar a pauta de enfrentamento as
mudanças climáticas nas prioridades do seu governo. Ação que se soma a retomada
verde pós-pandemia da União Europeia que se propõem a investir 750 bilhões de
euros (CLIMAINFO, 2020). Em negócios sustentáveis. Assim como aos esforços
empreendidos pela China que afirma a necessidade de construção de uma ecocivilização
socialista (XI JINPING, 2019). No entanto estudos mostram que mesmo que todos
os países conseguissem de fato cumprir suas NDCs nem assim conseguiríamos
manter o aumento da temperatura da terra abaixo dos 2 graus celsius contados a
partir dos primórdios da revolução industrial. Como já mencionado, há a
necessidade de aumentar a ambição dos países, mas sabemos também que apenas o
compromisso dos países não será o suficiente. Está claro que precisamos de uma
governança multinível, com ações em escala global, regional e local, com o
envolvimento de todos os setores da sociedade.
Temos o dever de cumprir o nosso papel e neste momento,
reunir esforços no sentido de apoiar e promover uma retomada econômica que faça
com que o Brasil se empodere da vantagem competitiva que tem, frente a outras
nações, em razão das suas condições ambientais únicas: com uma riquíssima biodiversidade,
suas florestas, seus biomas, incluindo uma gama imensa de serviços
ecossistêmicos, e uma matriz energética limpa.
A mudança do clima deve ser vista como uma oportunidade de
promover um salto no desenvolvimento, com criação de empregos, conservação dos
recursos naturais, redução das desigualdades e ampliação do progresso social. Nesse caso políticos também devem
prestar atenção nos dados dessa pesquisa Ibope que informa que 42% já votaram
em alguém por conta das suas propostas em defesa do meio ambiente.
*José Bertotti é químico
industrial, professor e secretário estadual do Meio Ambiente em Pernambuco
Referências bibliográficas
XI JINPING. A governança da China. Volume II.
Tradução. 1 ed. – Rio de Janeiro: Contraponto: Foreign Language Press, 2019.
Veja: uma dica de leitura para quem gosta de cinema https://bit.ly/3qlLWRr
1964: Golpe na poesia
Marcelo Mário de Melo
Além de antidemocrático, antipopular e
antinacional, o golpe civil-militar de 1964 foi também antipoético. No dia
primeiro de abril vi tombar na passeata, atingido por tiros de mosquetão, o
companheiro Jonas Barros, cantando o hino nacional e escudado na bandeira
brasileira.
Jovem militante comunista do Colégio Estadual de
Pernambuco, Jonas escrevia poemas de muita sensibilidade e leveza.Também foi
fuzilado Ivan Aguiar, comunista de Palmares e aprovado no vestibular para
Engenharia.
Há indícios de que tambem foram mortos um homem e
uma mulher não identificados. A bandeira nacional, depois de passar de mão em
mão, restou no chão ensanguentada.
Os poetas Ângelo Monteiro e Albérgio Maia de
Farias, que tinha 16 anos, foram presos no DOPS. Um dia, Albérgio foi comigo à
Galeria de Arte, localizada numa estrutura de cimento construída sobre o Rio
Capibaribe, em frente aos Correios. Emocionado, deixou pregado na pareds um
poema de homenagem a Jonas – habituê daquele espaço - que começava assim: “Na
galeria de arte/há um banco de saudade/e há gestos de futuro/quebrando a
serenidade.”
Para comemorar a libertação de Newton Farias,
militante bancário, irmão de Albérgio, foi marcada uma farra secreta nos fundos
da venda do Velho Pires, no bairro da Soledade. Entre cervejas, canções e
poemas, Rui Alencar sentenciou: “as noites de sábado dos poetas/alimentam a
resistência dos patriotas.
Estudantes de esquerda faziam o jornal O
Secundarista, com boa tiragem e impresso em cores, idealizado e articulado por
José Fortuna de Melo, meu irmão, o meu nome constando como secretário, editado
por Rômulo Lins, onde publicavam poemas Albérgio Maia de Farias, Ângelo
Monteiro, Marcus Accioly, Anamárcia Veinsenher, Luis Carlos Duarte, Rômulo
Lins, Diógenes Caldas e outros. O jornal não pôde mais ser editado e os seus
responsáveis e colaboradores que não foram presos tiveram de se esconder da
repressão ou calar.
Incorporado às atividades políticas da esquerda,
Ângelo Monteiro desenvolvia uma intensa militância estudantil, marcada pela
declamação de poemas desse teor:“E os verdadeiros cristãos/de fé robusta e
viril/ com o cano do seu fuzil/farão o sinal da cruz”.Também fazia longos
discursos previamente decorados: “Como católico, ouço a voz de Sua Santidade o
papa. Como revolucionário, ouço a voz de sua Santidade o povo.”
Alberto da Cunha Melo e Jaci Bezerra acompanhavam
a esquerda no movimento estudantil. Depois do golpe, Jaci editou e distribuiu
no Colégio Estadual de Pernambuco um jornal mimeografado intitulado Letras.
Um subproduto poético publicado no Suplemente
Literário do Diário de Pernambuco, em 1965, foi objeto de gozação de Stanislaw
Ponte Preta na sua coluna na Última Hora do Rio. Era um longo texto do
tenente-coronel Dácio Vassimom, chefe do estado maior do IV Exército, louvando
a Cruzada Democrática Feminina com coisas assim: “pelas ruas do Recife
desfilando/a corja comunista desacata/sem temer uma bala ou um sopapo/a lembrar
o que foi Tejucupapo”. Nas citações que fez, Stanislaw não se referiu a versos:
falou em pedaços.
Na clandestinidade, de vez em quando eu me
lembrava da tirada de Rui Alencar sobre as noites de sábado dos poetas. De
março de 71 a abril de 79 foram oito anos, 43 dias e 19 horas de prisão e
poesia, entre a Casa de Detenção do Recife e a Penitenciária Professor Bareto
Campelo, em Itamaracá. Perdi nos aparelhos clandestinos e nas fugas um volume
datilografado com todos os meus textos. A partir daí, passei a decorá-los.
Também escreviam poemas na prisão, Chico de Assis,
Juliano Siqueira (RN) e Cláudio Gurgel (RN) Chico Passeata (CE), Severino
Quirino (o Poeta da Fome, de Caruaru), e Antônio Ricardo Braz, cirandeiro de
Timbaúba. Recebi livros de Ângelo Monteiro e Luis Carlos Duarte, que ainda
conservo.
Minha obra completa de Castro Alves foi apreendida
pelo major Siqueira, diretor da penitenciária, junto ao Aprendiz de Crítica, de
Joel Pontes. Centenas de livros foram subtraídos dos presos políticos e
revendidos em sebos. Contrabandeamos por partes o Poema Sujo, de Ferrreira
Gullar, cuja leitura me fez subir um degrau no 5BX, a tabela de exercícios
físicos da Força Aérea Canadense.
Veja: uma dica de leitura para quem gosta de cinema https://bit.ly/3qlLWRr