28 março 2021

Trapalhão

— É urgente desencalhar aquele navio no Canal de Suez. Muito prejuízo... 
— Bolsonaro tem a solução. 

— Como assim? 

— Basta mandar pra lá o Pazuello, OK? 

— Cruz, credo!

27 março 2021

Pós-Covid


Mulheres que sobrevivem à covid têm mais risco de doenças persistentes

Poder 360

 

Mulheres na casa dos 40 e 50 anos parecem correr mais risco de problemas de longo prazo depois de terem alta da covid-19. Muitas sofrem durante meses de sintomas persistentes, como fadiga, falta de ar e confusão mental, revelaram dois estudos britânicos divulgados hoje (24), em Londres.

Uma pesquisa descobriu que, cinco meses depois de deixarem o hospital, pacientes da covid-19, que também eram de meia idade, brancas, mulheres e tinham outros problemas de saúde, como diabetes, doença pulmonar ou cardíaca, tendiam mais a relatar sintomas de covid-19 longa.

“Nosso estudo mostra que aqueles que tiveram os sintomas prolongados mais graves tendem a ser mulheres brancas de idades aproximadas de 40 a 60 anos, que têm ao menos dois problemas de saúde de longo prazo”, disse Chris Brightling, professor de medicina respiratória da Universidade de Leicester que cosiderou o estudo conhecido como Phosp-Covid.

Uma segunda pesquisa, conduzida pelo Consórcio Internacional de Infecções Respiratórias Agudas e Emergentes (Isaric), concluiu que mulheres de menos de 50 anos têm mais probabilidade de sofrer problemas de saúde de longo prazo piores do que homens mais velhos, mesmo que não tenham problemas de saúde subjacentes.

CONSEQUÊNCIAS PROFUNDAS

“Está se tornando cada vez mais claro que a covid-19 tem consequências profundas para aqueles que sobrevivem à doença”, disse Tom Drake, bolsista de pesquisa clínica da Universidade de Edimburgo, na Escócia, que coliderou o estudo do Isaric.

“Descobrimos que mulheres mais jovens têm mais probabilidade de sofrer problemas de longo prazo piores”, acrescentou

O estudo do Isaric, que cobriu 327 pacientes, descobriu que mulheres de menos de 50 anos têm o dobro da probabilidade de relatar fadiga, sete vezes mais probabilidade de ter falta de ar e também mais chances de ter problemas relacionados à memória, mobilidade e comunicação.

O estudo Phosp analisou 1.077 pacientes masculinos e femininos que tiveram alta de hospitais do Reino Unido entre março e novembro de 2020 depois de terem a covid-19.

A maioria dos pacientes relatou diversos sintomas persistentes depois de cinco meses, sendo os mais comuns dor nos músculos e nas juntas, fadiga, fraqueza, falta de ar e confusão mental.

Mais de um quarto deles teve o que os médicos disseram ser “sintomas clinicamente relevantes de ansiedade e depressão” depois de cinco meses, e 12% tiveram sintomas de transtorno de estresse pós-traumático.

Veja: Casa Grande & Senzala será sempre uma leitura indispensável a quem quer compreender o Brasil https://bit.ly/3tsBwkY

Dom Helder


Era um super-homem?

Cícero Belmar

 

Conheci um homem que pode virar santo. É um processo que demora anos, mas posso dizer, estive algumas vezes com uma pessoa honesta, humilde e caridosa. Se isso faz do humano um santo, ele o era.

Na foto, estou ao seu lado: o arcebispo que vivia uma cruzada ideológica, social e religiosa, em nome dos mais pobres, encarou poderosos e desafiou até a Igreja. Aparentemente frágil, mas um gigante.

Foi uma foto de fins da década de 1980 ou início da de 1990. Dom Hélder Câmara é o dom da paz, que hoje o Vaticano pode santificar. Eu, um mero repórter iniciante e idealista, cobria o setor de Direitos Humanos.

Na fotografia, caminhamos por uma estrada de barro avermelhado, num engenho da Zona da Mata de Pernambuco. Terras que ele ajudou a fazer a reforma agrária, para garantir vida digna aos sem terra da região.

Faço perguntas, enquanto seguimos; anoto as respostas. À nossa frente, vão os trabalhadores rurais. Mulheres com crianças no braço, homens com cartazes exigindo seus direitos. O fotógrafo clicou esse momento.

A foto é uma metáfora: as pessoas seguem como ovelhas e o bom pastor, logo atrás, como a conduzi-las. O então arcebispo de Olinda e Recife veste uma batina surrada, creme. Eu, barba imensa, magérrimo, camisa no estilo bata, bolsa à tira colo, óculos escuros, tipo alternativo.

Muitos anos se passaram, não lembrava mais desse momento que a foto salvou. Na semana passada, a jornalista Gisela Didier, contemporânea, me enviou pelo WhatsApp: “Conheci este jovem repórter”. Para minha surpresa, é uma das que ilustram o calendário que o Instituto Dom Hélder Câmara (Idec) lançou este ano, para ajudar nas despesas da instituição.

Não vou mentir. Por mais que estejamos antenados com os processos políticos e sociais de que participamos, nem sempre temos a agudeza de compreender que vivemos a História do nosso tempo. De que, naquele instante, somos também testemunhas. Eu sabia da importância daquele homem, todo jornalista sabia. Do privilégio de estar ao seu lado. Também entendia o significado daquele fato. Mas, coberturas jornalísticas importantes são cotidianas para um repórter.

Dom Hélder tinha uma simplicidade desconcertante. Simplicidade que, para mim, é o retrato das pessoas raras.  Se um repórter ligasse para sua casa, adivinha quem atenderia o telefone? Se a gente fosse até lá, arriscar uma entrevista, ele mesmo viria abrir a porta. Mandava entrar. Era assim.

Relato essas coisas só para constatar que lidamos muito mal com os nossos processos históricos. Somos especialistas em banalizar a vida. Quantos acontecimentos importantes apagamos?

Salve o compositor Gonzaguinha: “Eu preciso é ter consciência do que eu represento neste exato momento”. Sem essa consciência, não mandaremos recados para o futuro, não deixaremos vestígios, nem seremos capazes de reconhecer os santos com quem convivemos.

*Cícero Belmar  é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Membro da Academia Pernambucana de Letras. 

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Sustentabilidade ambiental

 

Quem se importa com o meio ambiente?

José Bertotti*

 

Os brasileiros se importam com o meio ambiente e consideram que o aquecimento global está em curso. Esses dados foram revelados na semana passada através de uma pesquisa encomendada ao Ibope pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio) em parceria com o Programa de Comunicação de Mudanças Climáticas da Universidade de Yale.

Os dados da pesquisa indicam que 92% dos brasileiros consideram que o aquecimento global está em curso e 77% acreditam que a ação humana é a responsável por esse aquecimento. No entanto quando perguntados sobre quem pode contribuir para enfrentar esse problema 32% apontam que são as empresas, 35% os governos e 24% os cidadãos, o que nos parece bastante acertado, pois essa é uma tarefa que demanda mudança de como nos relacionamos com a natureza.

À medida que a crise climática se aprofunda, faz-se necessário empreender ações em um ritmo mais acelerado para evitar impactos climáticos catastróficos. A transição para uma economia descarbonizada começou, mas não está acontecendo na velocidade e escala necessárias. Ela envolve novos padrões de consumo e modelos de negócio que compreendam que os recursos naturais não são inesgotáveis, no entanto é da natureza que extraímos toda a riqueza como já apontava Marx na Crítica ao Programa de Gotha (2012, p. 22):

“...O trabalho não é a fonte de toda riqueza. A natureza é a fonte dos valores de uso (e é em tais valores que consiste propriamente a riqueza material!), tanto quanto o é o trabalho, que é apenas a exteriorização de uma força natural, da força de trabalho humana...”

Uma das razões do esgotamento do modelo de produção capitalista está em não resolver essa contradição do uso sustentável dos recursos naturais, pois ao mesmo tempo que acelera o esgotamento das fontes naturais de recursos destruindo a biodiversidade do planeta, aumenta o fosso econômico entre ricos e pobres tornando nosso planeta cada vez mais impróprio para sobrevivência humana.

No dezembro de 2020, o Acordo de Paris completou cinco anos, e nesse momento de pandemia a comunidade científica mundial reforçou a necessidade de mais ambição por parte dos governos no enfrentamento da crise climática, e para a possibilidade de usarmos a retomada econômica como uma estratégia para efetivarmos as mudanças requeridas. Por outro lado, no mesmo mês de dezembro, o Brasil também apresentou a revisão de sua meta de redução de emissão de gases de efeito estufa (NDC), com metas totalmente desprovidas da ambição necessária para frear as mudanças climáticas. 

O fato de o governo federal estar na contramão da pauta ambiental também foi identificado nessa pesquisa, 82% dos entrevistados acham que as queimadas se intensificaram nos últimos dois anos no Brasil e 84% consideram que essas queimadas prejudicam a imagem do Brasil no exterior e consequentemente nossas relações comerciais. Demonstrando coerência com essa preocupação ambiental 74% discordam que as queimadas são importantes para o crescimento econômico, diferente do que tem praticado o governo federal que tem afrouxado a fiscalização e o combate aos incêndios criminosos diminuindo recursos destinados a essa área e desacreditando instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Diante dessa realidade acreditamos que no Brasil os Governos Estaduais e Prefeituras tem um papel estratégico, oferecendo capilaridade a esse senso de urgência, fazendo que a pauta climática alcance a realidade de um número maior setores e pessoas, promovendo regionalmente o desenvolvimento de baixo carbono e o aumento da resiliência das nossas cidades.

Vale lembrar que, em 2019, o governo federal abriu mão de sediar no Brasil a Cúpula Mundial do Clima (COP25), diante disso um movimento da sociedade e dos governos subnacionais realizou a primeira edição da Conferência Brasileira de Mudança do Clima em Recife. E, durante este evento, os órgãos estaduais de meio ambiente dos 26 estados brasileiros e o Distrito Federal reconheceram, através da Carta da Abema pelo Clima, esse papel estratégico dos estados no enfrentamento da crise climática.

Uma novidade é a eleição de Joe Biden para Presidente dos Estados Unidos e seu compromisso de recolocar a pauta de enfrentamento as mudanças climáticas nas prioridades do seu governo. Ação que se soma a retomada verde pós-pandemia da União Europeia que se propõem a investir 750 bilhões de euros (CLIMAINFO, 2020). Em negócios sustentáveis. Assim como aos esforços empreendidos pela China que afirma a necessidade de construção de uma ecocivilização socialista (XI JINPING, 2019). No entanto estudos mostram que mesmo que todos os países conseguissem de fato cumprir suas NDCs nem assim conseguiríamos manter o aumento da temperatura da terra abaixo dos 2 graus celsius contados a partir dos primórdios da revolução industrial. Como já mencionado, há a necessidade de aumentar a ambição dos países, mas sabemos também que apenas o compromisso dos países não será o suficiente. Está claro que precisamos de uma governança multinível, com ações em escala global, regional e local, com o envolvimento de todos os setores da sociedade.

Temos o dever de cumprir o nosso papel e neste momento, reunir esforços no sentido de apoiar e promover uma retomada econômica que faça com que o Brasil se empodere da vantagem competitiva que tem, frente a outras nações, em razão das suas condições ambientais únicas: com uma riquíssima biodiversidade, suas florestas, seus biomas, incluindo uma gama imensa de serviços ecossistêmicos, e uma matriz energética limpa.

A mudança do clima deve ser vista como uma oportunidade de promover um salto no desenvolvimento, com criação de empregos, conservação dos recursos naturais, redução das desigualdades e ampliação do progresso social. Nesse caso políticos também devem prestar atenção nos dados dessa pesquisa Ibope que informa que 42% já votaram em alguém por conta das suas propostas em defesa do meio ambiente.

*José Bertotti é químico industrial, professor e secretário estadual do Meio Ambiente em Pernambuco

Referências bibliográficas

CLIMAINFO. União Europeia lança plano de recuperação econômica com incentivos verdes. Disponível em: https://climainfo.org.br/2020/05/28/uniao-europeia-lanca-plano-de-recuperacao-economica-com-incentivos-verdes/. Acesso em: 11/02/2021.

MARX, KARL. Crítica do Programa de Gotha. Seleção, tradução e notas Rubens Ederle – São Paulo: Biotempo, 2012.

XI JINPING. A governança da China. Volume II. Tradução. 1 ed. – Rio de Janeiro: Contraponto: Foreign Language Press, 2019.

Para inspirar o fim de semana

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História viva

 

1964: Golpe na poesia
Marcelo Mário de Melo

Além de antidemocrático, antipopular e antinacional, o golpe civil-militar de 1964 foi também antipoético. No dia primeiro de abril vi tombar na passeata, atingido por tiros de mosquetão, o companheiro Jonas Barros, cantando o hino nacional e escudado na bandeira brasileira.

Jovem militante comunista do Colégio Estadual de Pernambuco, Jonas escrevia poemas de muita sensibilidade e leveza.Também foi fuzilado Ivan Aguiar, comunista de Palmares e aprovado no vestibular para Engenharia.
Há indícios de que tambem foram mortos um homem e uma mulher não identificados. A bandeira nacional, depois de passar de mão em mão, restou no chão ensanguentada.

Os poetas Ângelo Monteiro e Albérgio Maia de Farias, que tinha 16 anos, foram presos no DOPS. Um dia, Albérgio foi comigo à Galeria de Arte, localizada numa estrutura de cimento construída sobre o Rio Capibaribe, em frente aos Correios. Emocionado, deixou pregado na pareds um poema de homenagem a Jonas – habituê daquele espaço - que começava assim: “Na galeria de arte/há um banco de saudade/e há gestos de futuro/quebrando a serenidade.”

Para comemorar a libertação de Newton Farias, militante bancário, irmão de Albérgio, foi marcada uma farra secreta nos fundos da venda do Velho Pires, no bairro da Soledade. Entre cervejas, canções e poemas, Rui Alencar sentenciou: “as noites de sábado dos poetas/alimentam a resistência dos patriotas.

Estudantes de esquerda faziam o jornal O Secundarista, com boa tiragem e impresso em cores, idealizado e articulado por José Fortuna de Melo, meu irmão, o meu nome constando como secretário, editado por Rômulo Lins, onde publicavam poemas Albérgio Maia de Farias, Ângelo Monteiro, Marcus Accioly, Anamárcia Veinsenher, Luis Carlos Duarte, Rômulo Lins, Diógenes Caldas e outros. O jornal não pôde mais ser editado e os seus responsáveis e colaboradores que não foram presos tiveram de se esconder da repressão ou calar.

Incorporado às atividades políticas da esquerda, Ângelo Monteiro desenvolvia uma intensa militância estudantil, marcada pela declamação de poemas desse teor:“E os verdadeiros cristãos/de fé robusta e viril/ com o cano do seu fuzil/farão o sinal da cruz”.Também fazia longos discursos previamente decorados: “Como católico, ouço a voz de Sua Santidade o papa. Como revolucionário, ouço a voz de sua Santidade o povo.”

Alberto da Cunha Melo e Jaci Bezerra acompanhavam a esquerda no movimento estudantil. Depois do golpe, Jaci editou e distribuiu no Colégio Estadual de Pernambuco um jornal mimeografado intitulado Letras.

Um subproduto poético publicado no Suplemente Literário do Diário de Pernambuco, em 1965, foi objeto de gozação de Stanislaw Ponte Preta na sua coluna na Última Hora do Rio. Era um longo texto do tenente-coronel Dácio Vassimom, chefe do estado maior do IV Exército, louvando a Cruzada Democrática Feminina com coisas assim: “pelas ruas do Recife desfilando/a corja comunista desacata/sem temer uma bala ou um sopapo/a lembrar o que foi Tejucupapo”. Nas citações que fez, Stanislaw não se referiu a versos: falou em pedaços.

Na clandestinidade, de vez em quando eu me lembrava da tirada de Rui Alencar sobre as noites de sábado dos poetas. De março de 71 a abril de 79 foram oito anos, 43 dias e 19 horas de prisão e poesia, entre a Casa de Detenção do Recife e a Penitenciária Professor Bareto Campelo, em Itamaracá. Perdi nos aparelhos clandestinos e nas fugas um volume datilografado com todos os meus textos. A partir daí, passei a decorá-los.

Também escreviam poemas na prisão, Chico de Assis, Juliano Siqueira (RN) e Cláudio Gurgel (RN) Chico Passeata (CE), Severino Quirino (o Poeta da Fome, de Caruaru), e Antônio Ricardo Braz, cirandeiro de Timbaúba. Recebi livros de Ângelo Monteiro e Luis Carlos Duarte, que ainda conservo.

Minha obra completa de Castro Alves foi apreendida pelo major Siqueira, diretor da penitenciária, junto ao Aprendiz de Crítica, de Joel Pontes. Centenas de livros foram subtraídos dos presos políticos e revendidos em sebos. Contrabandeamos por partes o Poema Sujo, de Ferrreira Gullar, cuja leitura me fez subir um degrau no 5BX, a tabela de exercícios físicos da Força Aérea Canadense.

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26 março 2021