A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
24 março 2019
Uma crônica para descontrair
Enfim os marcianos?
Luciano Siqueira
Há uma espécie de sincronia entre as notícias que de
vez em quando vejo acerca de recentes descobertas dos astrônomos que estudam
nossa galáxia e as aventuras de Flash Gordon, em revista em quadrinhos, que lia
na minha infância.
A diferença é que as revistas eu colecionava e não
perdia uma aventura. Já as pesquisas científicas atuais sobre o Universo, me
interessam, mas apenas o suficiente para fixar o que me parece essencial. Só.
O essencial, no caso, não é bem o exato conteúdo da
descoberta; é apenas a sensação, que se reforça em meu espírito, de que somos
mesmo uma minúscula partícula desse infinito mundo ainda pouco conhecido.
Nossa amada Terra não passa disso, por mais que nos encante a vida com todo o seu cortejo de emoções, ideias e acontecimentos.
Outro dia anotei que astrônomos descobriram um sistema com sete planetas semelhantes ao nosso, situados na órbita de estrela Trappist-1, na constelação de Aquário, localizada a 40 anos-luz da Terra.
A estrela-anã tem apenas um décimo da massa do
nosso Sol.
Todos com
água líquida potencial para a existência de seres vivos – garante o astrofísico Michaël Gillon, um dos autores do estudo, publicado na
revista Nature.
Mais
algumas descobertas dessa natureza, quem sabe possamos enfim encontrar os tão
aguardados marcianos – mesmo que não habitem Marte.
Aí a
ficção cientifica cada vez mais sofisticada no cinema venha a se fazer real.
Com todas as implicações estratégicas, culturais e filosóficas.
No
Brasil dos nossos dias, quando se pretende ensinar nas escolas o criacionismo,
é de imaginar o impacto sobre as convicções e as atitudes dos arautos do obscurantismo.
Para o
novo titular do Itamaraty, por exemplo - que sustenta a “tese” de que a
globalização como a temos hoje e os impactos das mudanças climáticas sobre a
vida dos povos não passam de invencionice ideológica marxista – certamente
esses sete planetas devem ser algum artifício cubano para colocar em risco a
Civilização Ocidental Cristã!
Mas aí
já serão outros quinhentos.
Acesse o canal ‘Luciano Siqueira opina’, no YouTube https://bit.ly/2JnO8I7 Nesta segunda-feira, às 18 horas
Lava Jato sob suspeita
Correspondência de
guerra
A Lava Jato acirra o conflito com os mesmos métodos que
acabaram por provocá-la
Janio de
Freitas, Folha de S. Paulo
É guerra. Era previsível, omissões a tornaram inevitável. Mas, guerra
embora, promete ser benfazeja. A Lava Jato inicial e suas extensões reagem ao
retardatário entendimento, no alto Judiciário, de que combate à corrupção e
abuso do poder repressivo são coisas diferentes. A Lava Jato foi deixada livre
para suas práticas indiferentes aos limites legais e ao bom senso, com violação
de direitos civis, de exigências processuais e da ética (pessoal e jurídica). O
desgaste, porém, não a atingiu, resguardada pela “mídia”: o omisso Supremo
Tribunal Federal foi o desgastado —e afinal se assustou.
A
interpretação generalizada das prisões
encabeçadas por Michel Temer, ou do momento em que ocorrem, é a de resposta da Lava
Jato contrariada por decisões recentes do Supremo. Se às prisões
juntarmos o vazamento que atinge o ministro Luiz Fux, desencavado do depoimento
inatual de um empresário, o propósito dos recentes atos e afirmações da Lava
Jato está claro, dispensa interpretações.
Concomitante
ao despertar do Supremo vê-se, portanto, que também na “mídia”, e daí na
opinião pública, ações da Lava Jato já são identificadas com finalidades
alheias à razão jurídica. É um passo pequeno, mas é avanço na direção de
justiça. Ou, mais preciso, de menos injustiça. E não de política e sede de
poder com armas da Justiça.
A
Lava Jato acirra a guerra com os mesmos métodos que acabaram por provocá-la. O
argumento mais forte para a prisão de Temer, por exemplo, foi a continuação das
práticas corruptas. Quais são os fatos comprovantes? “Houve apenas
uma comunicação do Coaf”, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras,
palavras de uma procuradora. “Mas esse fato, de acordo com o registrado pelo
Coaf, aconteceu em outubro de 2018”. Logo, “é indicativo de que a organização
criminosa continua atuando”.
Não
é. Há cinco para seis meses, Temer ainda na Presidência, um fato foi indicativo
de algo há um semestre, não do presente. Se houve o fato então, isso não indica
a sua continuidade. A alegação central para a prisão não tem veracidade.
O
tal fato de outubro seria a tentativa do coronel João Baptista Lima, visto como
testa-de-ferro de Temer, de depositar R$ 20 milhões em espécie. É a velha
“história mal contada”. Levar essa quantia geddeliana a um banco; submetê-la na
agência à confirmação do montante, no mínimo de 200 mil notas de R$ 100, sem
recear uma complicação —um experiente como Lima não pensaria nesse plano,
quanto mais em tentá-lo.
Em
seu início, a Lava Jato plantou na “mídia” a apropriação de R$ 10 bilhões pelos
três ou quatro dirigentes da Petrobras já identificados. A conta final não
chega a 10%. Ao bando “chefiado por Temer” é atribuída a quantia de R$ 1,8
bilhão. Em dinheiro “recebido, pedido ou prometido”. Está aí uma novidade, na
soma do real com o imaginado. Pena que seja mais um truque nada sério, para uso
da “mídia”.
São
muitos os indícios de material concluído às pressas, para servir a uma
finalidade não judicial. A propósito, entre os motivos de reação da Lava Jato
estão o inquérito sobre
ataques ao Supremo e a determinação do ministro Alexandre de
Moraes de levá-lo a resultados. Inquérito e ministro muito criticados, mas
ambos se justificam. Não só agressões verbais são investigadas: embora o
Supremo prefira o silêncio a respeito, há ameaças de morte a ministros e de
violência a familiares, como objeto principal do inquérito.
Ah,
não se esqueça, em tudo isso, a gentileza da Polícia Federal. Esperou que Temer
saísse, para prendê-lo fora das vistas da família e dos vizinhos. E não de
manhãzinha. Com Moreira, pelo mesmo cuidado, não o esperaram em casa. Apenas
pararam seu carro em área de pouco movimento. Nas duas ações, nenhum policial
com metralhadora, granadas, gás e roupa sinistra. Nada como nas abordagens
espalhafatosas a Lula e outros, pelo “japonês da PF” e companheiros. Nas duas
modalidades de abordagem, a autoridade maior das operações era a mesma, o então
juiz da Lava Jato e o hoje ministro da PF.
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Para que servem campeonatos estaduais?
Heraldo Pereira
A temporada começa nas
oitavas da Copa do Brasil e no Brasileiro
Estaduais são apenas diversão, uma fábrica de ilusões
Tostão, na
Folha de S. Paulo
O físico
brasileiro Marcelo Gleiser, de quem eu não perdia uma só coluna na Folha,
é o primeiro latino-americano a ganhar o importante prêmio Templeton. Ele, agnóstico,
defende a união da ciência com a espiritualidade, a pluralidade e as limitações
da ciência para explicar o mundo. “A ciência flerta com o mistério”, disse o
cientista.
Se
a ciência não explica tudo, muito menos o futebol, embora alguns tentem
fazer isso. O acaso também é importante na vida e no futebol. Uma bola perdida,
um erro do árbitro, uma dor de cotovelo, uma bola que bate na trave e entra no
gol e tantos outros detalhes inesperados mudam a história de um jogo, de um
campeonato e de uma carreira.
Se Messi,
por ser pequeno, tivesse sido reprovado na seleção de garotos do Barcelona,
por algum ignorante –há muitos, em todo o mundo e em todas as áreas–, não
veríamos, todas as semanas, um magistral repertório de dribles, passes e gols.
Pelé é
o maior da história, mas já existe um grande número de pessoas, que, por não
terem visto Pelé jogar, acham que Messi e/ou Cristiano Ronaldo são
superiores.
Daqui
a algumas décadas, quando não existir ninguém que tenha visto Pelé atuar ao
vivo, aumentará, certamente, o número dos que preferem Messi ou Cristiano
Ronaldo. Depois, surgirão os herdeiros dos dois e assim
sucessivamente. As pessoas passam. A vida continua.
Parece
que os estaduais nunca acabam. Se eu fosse um comentarista apenas realista,
rígido, sem devaneios, diria que os estaduais não servem para nada. Mas, como
sou esperançoso e gosto de divagar e me iludir, vejo muitas coisas boas,
melhores que nos estaduais do ano passado.
Palmeiras e Flamengo, que já tinham os melhores
elencos, se reforçaram
neste ano. Grêmio e Cruzeiro estão, no mínimo, no mesmo nível de
2018.
O Corinthians também evoluiu com algumas
contratações. Há uma chance de os outros grandes times brasileiros crescerem
durante o ano. Fluminense, com Fernando Diniz, e Santos, com Sampaoli,
por terem maneiras
diferentes de jogar, podem provocar, mesmo com elencos inferiores,
grandes ruídos em outros treinadores.
Difícil
é ter esperança no São Paulo. Além de tantas trocas de
treinadores, da estranha estratégia de colocar o diretor como
interino até Cuca chegar,
o São Paulo, mesmo com as boas contratações de Hernanes e Pablo,
possui um elenco fraco. Com ou sem Diego Souza, Nenê, Jucilei e outros, que
eram bastante criticados, o time não melhora.
Os jovens são a
última cartada. Rodrigo Caio é mais um ótimo jogador hostilizado
pelo clube, como foram Maicon, Casemiro e até Kaká
O
futebol brasileiro só vai começar para valer quando acabarem os estaduais e
iniciarem as oitavas de final da Copa do Brasil,
o Campeonato
Brasileiro e a fase de mata-mata da Libertadores.
Aí,
vamos conhecer quem é quem. Por enquanto, é apenas diversão, uma fábrica de
ilusões.
FICOU MAIS CLARO
Durante
a Copa, escrevi, várias
vezes, que a Bélgica, nas quartas de final, adotou contra o Brasil o
mesmo sistema tático do
México, nas oitavas, contra o time brasileiro.
Os
mexicanos só não fizeram gols por causa de erros individuais, já que os espaços
na defesa eram enormes. Somente agora, em uma entrevista, o técnico Roberto
Martínez confirmou a estratégia de colocar dois atacantes abertos
(Hazard
e Lukaku) e avançar o meio-campista De Bruyne pelo centro, como no segundo
gol.
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Petrobrás ameaçada
Como foi montado o golpe do século contra a Petrobras
O acordo de
leniência, sugerido por Ellen Gracie, transformou a Petrobras de vítima em ré.
Luis Nassif, Jornal GGN
A Procuradora
Geral da República tem defeitos e virtudes. Os defeitos, dizem, são de
temperamento; as virtudes são de caráter. É fechada, centralizadora,
discretíssima e tem pouca visão de estratégias políticas. Por outro lado, é
técnica, correta, ciosa do interesse público e, especialmente, do papel
institucional do Ministério Público. Em nome dessa defesa do MP, varreu para
baixo do tapete os erros gigantescos cometidos pelo antecessor Rodrigo Janot e
pela Lava Jato. E deixou para o último instante o questionamento da
excrescência da fundação de direito privado financiada pela Petrobras, em cima
de um acordo com autoridades norte-americanas. Só a questionou quando começaram
a brotar críticas na imprensa, em uma demonstração da falta de timming sobre o
momento de demonstrar sua coragem. Nessa fundação está a chave da questão, para
entender uma série de ações nebulosas de Janot e da Lava Jato nos Estados
Unidos.
Ouça a
explicação de Dallagnoll. Segundo ele, não se está tirando dinheiro da
Petrobras, mas apenas impedindo que o valor da multa fique nos Estados Unidos.
Diz também que, como a União é controladora da Petrobras, as autoridades
americanas não permitiriam que ficasse com os recursos das multas. Trata a Lava
Jato como se fosse a legítima representante, no Brasil, dos interesses das
autoridades judiciais americanas, que não confiariam sequer no estado
brasileiro. Há outras fakenews no discurso. Por exemplo, o acordo não está
condicionado à criação de uma fundação. Fala em reparação de direitos difusos.
E não aponta qual o direito difuso a ser reparado. Além disso, há um Fundo dos
Direitos Difusos Lesados, que impede que o Tesouro se aproprie dos recursos.
Falsifica os
fatos, também, quando minimiza a influência da Lava Jato na fundação. Caberá
aos procuradores e ao juiz escolher as organizações que farão parte do
Conselho, assim como colocar representantes em cada área e dar um enorme
impulso à indústria do compliance,
que terá nos procuradores da Lava Jato os consultores especializados. Não é a
parte mais gravde da história. Vamos entender melhor a partilha do que pode ser
chamado de “o golpe do século”, em relação a Petrobras.
A
montagem do golpe do século
Coube a Ellen
Gracie, ex-Ministra do STF (Supremo Tribunal Federal) traçar a estratégia do
acordo da Petrobras com a SEC (a CVM americana) e com o Departamento de Justiça
(DoJ). Ao mesmo tempo em que se iniciavam as tratativas, Janot e o grupo
da Lava Jato foram pessoalmente aos Estados Unidos compartilhar provas e
delatores contra a Petrobras. Com essa estratégia, a Petrobras deixou de ser
tratada como vítima para se tornar ré: esta foi a chave do golpe. Por aí se
entende, também, o desmonte implacável da imagem da Petrobras pela Lava Jato.
Foram dois os motivos das quedas nas cotações da Petrobras:
- A
queda nas cotações internacionais de petróleo, que afetou todas as
petroleiras; 2 - A expectativa das
multas a serem aplicadas pela SEC e pelo DoJ à Petrobras, em função da
estratégia de acordo delineada. Ou seja, parte da queda no valor das ações
da Petrobras tem relação direta com a estratégia encampada pela PGR de
Janot somada à campanha para apresentar a Petrobras como a empresa mais
corrupta do planeta.
As propinas
não tiveram peso algum nos resultados da Petrobras, porque embutidas nos preços
dos contratos e irrisórias perto do faturamento da empresa. Tudo isso poderia
ter sido demonstrado para rebater as pretensões dos escritórios que decidiram
processar a Petrobras. Além disso, aqui mesmo, nosso colunista André Araújo
mostrou caminhos alternativos que poderiam ter sido trilhados para evitar essas
multas, passando pelos acordos diplomáticos governo a governo. O
acordo abriu espaço para um enorme butim, acertado entre três partes: a
Petrobras, através de seu presidente Pedro Parente, as autoridades
norte-americanas, e a Lava Jato. O butim foi dividido da seguinte maneira:
- US$
2,95 bilhões para um acordo extrajudicial com os acionistas nos EUA, o
triplo das previsões mais otimistas de seus advogados. Parte relevante de
honorários para escritórios de advocacia. Tudo isso sem que a Lava Jato
esboçasse uma reação sequer; US$
400 milhões para contratação de escritórios para atender às demandas do
DoJ na Petrobras. Depois da Petrobras, Ellen Gracie aplicou a mesma
estratégia na Eletrobras, alvo da Lava Jato em cima de informações
trazidas por Janot na sua visita ao DoJ. E graças às mudanças ocorridas na
presidência e no Conselho da empresa, ampliando enormemente o escopo de
trabalho dos escritórios contratados; R$ 2,45 bilhões para serem
administrados por uma fundação montada e controlada pela República do
Paraná.
Reza o acordo
firmado: A cooperação
da Petrobras incluiu a realização de uma investigação interna minuciosa,
compartilhamento proativo em tempo real de fatos descobertos durante a
investigação interna e compartilhamento de informações que não estariam
disponíveis ao Departamento, fazendo apresentações regulares ao Departamento,
facilitando entrevistas e informações de testemunhas estrangeiras e coletando, analisando e
organizando voluntariamente volumosos evidências e informações para o
Departamento em resposta a solicitações, incluindo a tradução de
documentos-chave.
Por aí se
entende as inúmeras homenagens recebidas pelos bravos integrantes da Lava Jato
nos principais centros de lobby dos Estados Unidos e do mundo. Agora se chegou
a um ponto de não retorno, que exigirá da PGR e dos Ministros do STF uma
determinação que até agora não demonstraram, em defesa da institucionalidade
brasileira, e para impedir a desmoralização final das instituições e a
intimidação pelo uso das milícias paraestatais.
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23 março 2019
Zorra total
Quando um assessor do presidente da República — Filipe Martins, das relações internacionais — vem a público pedir que ‘as alas do governo se unam’ é porque a zorra na Explanada dos Ministérios não é pequena.
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